11/05/2026

Mãe: o primeiro sistema de cuidado

Antes que aprendêssemos a chamar de saúde, chamávamos de mãe. Antes dos exames, havia a mão na testa. Antes dos protocolos, havia a intuição. Antes dos hospitais, havia alguém acordado enquanto todos dormiam. Antes dos prontuários, das prescrições, dos planos de saúde, da medicina de precisão e da inteligência artificial, havia um olhar atento, capaz de perceber pequenas mudanças no comportamento, no choro e no silêncio.

O cuidado não nasceu nos livros de medicina, nas universidades, nos centros cirúrgicos ou nas grandes instituições. Nasceu antes. Nasceu no colo, na escuta, na presença, na capacidade silenciosa de proteger a vida quando ela ainda é frágil demais para se defender sozinha.

Toda mãe conhece uma forma própria de vigilância amorosa. Sabe quando um filho não está bem, mesmo antes de qualquer sinal evidente. Sabe quando a febre está chegando, quando a tristeza se esconde atrás de uma frase curta, o cansaço é mais do que sono.

Ao escrever sobre isso, é impossível não pensar na minha própria mãe. Não apenas como lembrança afetiva, mas como referência íntima de cuidado, formação e presença. Muito antes de compreender a medicina, a gestão, a ciência ou a responsabilidade de liderar instituições, aprendi com ela que cuidar é prestar atenção. É perceber o que não foi dito. É educar com firmeza e ternura. É estar presente mesmo quando a vida exige silêncio, trabalho e renúncia. Foi minha mãe que me ensinou, como tantas mães ensinam, que o cuidado verdadeiro não busca palco. Ele simplesmente permanece.

Vivemos uma época fascinada pela inovação. Falamos em inteligência artificial, big data, medicina personalizada, genômica, telemonitoramento e modelos preditivos. Tudo isso é necessário. Pode salvar vidas, ampliar acesso, reduzir desperdícios e melhorar decisões. Como médico e gestor em saúde, acredito profundamente no papel da tecnologia para construir sistemas mais eficientes, sustentáveis e humanos. Mas a tecnologia, por mais avançada que seja, só cumpre seu verdadeiro papel quando está a serviço de uma ideia essencial: cuidar melhor das pessoas.

E talvez ninguém tenha nos ensinado isso com tanta força quanto as mães.

Mães nos mostram que cuidado não é apenas reação à doença. Cuidado é antecipação. É prevenção. É presença antes da crise. É perceber o pequeno sinal antes que ele se transforme em grande problema. É acompanhar, orientar, insistir, acolher, educar e, muitas vezes, renunciar silenciosamente.

O Brasil precisa aprender com as mães a cuidar antes de adoecer.

Temos um sistema de saúde que, muitas vezes, ainda se organiza em torno da doença, da urgência, da fila, do procedimento e da internação. Falamos muito em tratar, mas ainda precisamos avançar em prevenir. Falamos muito em acesso, mas nem sempre falamos o suficiente sobre vínculo, continuidade, educação em saúde, hábitos de vida, acompanhamento e responsabilidade compartilhada.

Por trás de muitas trajetórias de sucesso, há uma mãe que sustentou noites difíceis. Por trás de muitos profissionais, há uma mãe que acreditou antes de todos. Por trás de muitas famílias, há uma mulher que organizou rotinas, emoções, conflitos, medos e esperanças. E, mesmo quando a maternidade não acontece pela biologia, ela se manifesta em quem assume o cuidado como missão: avós, tias, madrastas, mães adotivas, cuidadoras, mulheres que acolhem, educam e protegem.

Ser mãe não é apenas gerar uma vida. Muitas vezes, é sustentá-la todos os dias.

É claro que a maternidade também precisa ser vista com responsabilidade social. Não basta romantizar o cuidado materno sem reconhecer sua sobrecarga. Muitas mães cuidam enquanto trabalham, estudam, lideram, enfrentam dificuldades financeiras, lidam com a solidão e atravessam jornadas exaustivas. Celebrar as mães também exige defender uma sociedade que cuide de quem cuida.

Isso significa valorizar políticas de apoio à família, ambientes de trabalho mais humanos, redes de suporte, saúde mental, acesso adequado à assistência, proteção à infância e respeito às diferentes formas de maternidade. Significa compreender que o cuidado não pode ser uma tarefa solitária. Precisa ser uma responsabilidade compartilhada por famílias, empresas, instituições e governos.

A medicina moderna fala cada vez mais em cuidado integral, jornada do paciente, prevenção, vínculo, escuta qualificada e humanização. São conceitos indispensáveis. Mas todos eles têm uma raiz antiga e profundamente humana. A raiz está naquela primeira experiência de sermos cuidados por alguém que nos reconhecia antes mesmo que soubéssemos explicar quem éramos.

É assim que a figura da mãe nos acompanha mesmo quando nos tornamos adultos, profissionais, pais, líderes ou responsáveis por outras vidas. Em algum lugar da memória, seguimos carregando aquele primeiro olhar que nos protegeu. Aquele primeiro abrigo. Aquela primeira forma de amor que nos ensinou que a vida merece atenção, paciência e cuidado.

O futuro da saúde será cada vez mais tecnológico. E deve ser. Precisamos de dados, inteligência artificial, integração, precisão e eficiência. Mas o futuro da saúde também precisará ser cada vez mais materno no sentido mais nobre da palavra: atento, preventivo, contínuo, sensível e comprometido com a vida real das pessoas.

Por tudo isso, o Dia das Mães é mais do que uma data afetiva. É uma oportunidade de reconhecer a infraestrutura invisível do cuidado no mundo. É também por todas essas razões que neste Dia das Mães, minha homenagem é também pessoal. É para minha mãe, que representa, na minha história, esse primeiro território de cuidado, valores e amor. E é também para minha esposa, mãe das minhas filhas, em quem vejo esse mesmo cuidado se renovar, como um ciclo bonito que se repete: o amor recebido de uma mãe transformando-se em presença, proteção e ternura para a próxima geração. E é, por meio delas, para todas as mães que sustentam silenciosamente famílias, sonhos e futuros.

Talvez a melhor homenagem não seja apenas flores, almoço ou mensagens bonitas. Talvez seja reconhecer que muito do que hoje chamamos de cuidado integral começou com elas.

Porque mãe é o primeiro sistema de cuidado que conhecemos.

A melhor inspiração para todos os sistemas de cuidado que ainda precisamos construir.

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