26/04/2026

Uvas italianas estão redesenhando os vinhos da Serra Catarinense

Uva montepultiano é destaque na serra. Foto: divulgação vinícola Leone di Venezia

Quem costuma beber os vinhos da Serra Catarinense talvez nem tenha percebido, mas tem uma mudança importante acontecendo por lá. Eu estou falando da ascensão das uvas italianas. 

Quando os primeiros vinhedos começaram a ganhar forma na Serra, bem no início dos anos 2000, era muito lógico apostar em variedades francesas, mais conhecidas e tradicionais, como Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay. 

“Quando você começa a explorar uma região, você busca variedades que já conhece”, explica o engenheiro agrônomo e professor da UFSC, Alberto Fontanella Brighenti, que acompanha de perto o desenvolvimento da viticultura catarinense.

E foi exatamente isso que aconteceu. Durante anos, as castas francesas deram sustentação ao crescimento da região, com resultados importantes. A Sauvignon Blanc, por exemplo, ganhou status de rainha da serra, dado o nível de desenvolvimento e o volume de produção que alcançou nos últimos 25 anos. 

Agora, o cenário começa a mudar, com muitas vinícolas apostando nas castas italianas. 

E não falo apenas de quantidade. O Mastino – Montepulciano da vinícola Leone di Venezia,  – acaba de ganhar o prêmio de Melhor montepulciano do Brasil na Grande Prova de Vinhos Brasileiros.

Falei sobre esta premiação aqui, lembra?

O que determina o sucesso?

O professor Alberto Brighenti explica que um dos fatores decisivos para a escolha das uvas que serão cultivadas é o clima, que precisa estar em perfeita sintonia com o ciclo da videira. Algumas uvas brotam mais cedo, outras mais tarde. Algumas amadurecem rápido, outras precisam de mais tempo. Se o ciclo da videira não estiver alinhado com o clima, não importa o prestígio da uva, ela simplesmente não funciona.

Foi o que aconteceu com muitas variedades italianas testadas ao longo dos anos. Segundo Brighenti, uvas originárias do sul da Itália, acostumadas a climas mais quentes, não apresentaram bom desempenho em Santa Catarina. Já as do centro e norte italiano encontraram um cenário mais favorável.

As apostas pioneiras

Se existe alguém que decidiu apostar nesse encaixe antes de ele ficar evidente, esse alguém é Saul Bianco.

Proprietário da vinícola Leone di Venezia, ele fez um movimento que, no início dos anos 2000, parecia arriscado: investiu diretamente em castas italianas. Não por estratégia de mercado, mas por repertório pessoal, formação, história familiar e uma boa dose de convicção.

Bianco é descendente de italianos, agrônomo de formação e construiu a carreira em uma multinacional, bem longe dos vinhedos. Com a aposentadoria, decidiu especializar-se em enologia na Itália. De lá, trouxe conhecimento e entusiasmo para experimentar o cultivo de uvas que não faziam parte da paisagem da Serra Catarinense.

Saul Bianco na colheita de 2026. Foto: divulgação Leone di Venezia

O resultado veio após um longo processo de tentativa e erro. “Testamos 26 variedades. Hoje trabalhamos com 11”, conta. Entre elas, Refosco, Garganega, Verdello, Arneis e Grechetto.

Entre as mais conhecidas, a Nebbiolo que dá origem ao Barolo – um dos vinhos mais reverenciados da Itália – simplesmente não funcionou nos vinhedos da Leone. Outras variedades, porém, deram muito certo. Por exemplo, a Sangiovese e a Montepulciano, que mostraram resistência ao frio, bom desempenho no campo e consistência na taça. 

E aqui entra um detalhe que pouca gente vê, mas que ajuda a explicar o que está acontecendo na região: Bianco não apenas plantou essas uvas – ele ajudou a disseminá-las. Até hoje fornece material para enxertia, compartilha mudas e experiências com outros produtores. 

A nova geração já chega diferente

A experiência dos pioneiros serve de escola para quem chega depois. É o caso de Joelcio Fronza, que fundou a vinícola Altopiano e colheu sua primeira safra em 2022. “A gente acabou aprendendo com o erro dos outros”, resume. 

Na prática, isso significa um vinhedo de cerca de 5 hectares com nove castas plantadas, sete delas italianas. Ali crescem uvas com nomes ainda pouco conhecidos no mercado brasileiro, como as tintas Rebo e Sagrantino di Montefalco e as brancas Vermentino e Pecorino.

Visto da área de recepçao aos turistas, o vinhedo da Altopiano. Foto: arquivo pessoal

Estive na vinícola no final de 2025 e pude provar uvas inéditas para meu paladar, como a Pecorino. O rótulo da Altopiano com esta uva é meu preferido da Serra Catarinense ultimamente (imagem abaixo).

De perto, observando a experiência dos turistas que provam as novas uvas, fica claro que a opção dos produtores pelas uvas italianas não significa apenas adaptação do terroir. Existe também uma leitura de mercado.

Segundo os próprios produtores, o consumidor brasileiro está mais aberto a experimentar. Nomes desconhecidos deixaram de ser um obstáculo e passaram a ser, em muitos casos, um convite às novas experiências.

Montepulciano – a uva de destaque

No meio dessa transição, uma variedade vem ganhando destaque com certa consistência. A Montepulciano é uma uva versátil, capaz de gerar diferentes estilos de vinho. Na vinícola Altopiano, a aposta é grande: “com a Montepulciano nós temos um vinho rosé tranquilo, um espumante rosé brut, um espumante rosé surLie, um tinto jovem e um tinto potente. São cinco produtos diferentes com uma mesma uva”, conta animado o proprietário.

E aqui começa a surgir uma discussão interessante: seria a Montepulciano a uva emblemática da Serra Catarinense?

Ainda é cedo para cravar, mas as apostas ficaram ainda maiores após a notícia do prêmio de melhor Montepulciano do Brasil, recebido pela Leoni di Venezia este ano

O Mastino 2021, vinho premiado, foi produzido a partir de uma parcela selecionada do vinhedo (uma das quatro áreas da propriedade de Bianco onde há Montepulciano plantada) em que parte das uvas foi retirada, ainda no período de amadurecimento, para trazer mais qualidade às frutas que permaneceram na videira. “Normalmente cada planta produz, em média, dois quilos de fruta. Nós desbastamos esta área do vinhedo para que cada planta mantivesse apenas cerca de um quilo. Assim, cada fruta tem maior concentração de açúcar e polifenóis, trazendo mais aromas e complexidade e maior teor alcoólico”, explica Bianco. 

Joelcio Fronza acredita que a Montepulciano reúne características suficientes para ser a uva tinta “estrela da Serra”. Para ele, em algumas faixas de preço, os vinhos produzidos na Serra já conseguem competir (e até superar) exemplares italianos da mesma uva.

Pode parecer ousado. Mas talvez seja apenas o reflexo de um terroir que começa a se entender.

Basta lembrar que a Serra Catarinense tem pouco mais de duas décadas de viticultura moderna, enquanto regiões clássicas levaram séculos (algumas, milênios) para compreender com precisão o comportamento das suas uvas. Por aqui, ainda estamos no início desse processo. E, ao que tudo indica, os vinhos catarinenses começam a falar com um leve sotaque italiano.

Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram

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