
Ao tomar posse como prefeita de Joinville, Rejane Gambin (Novo) compartilhou uma memória que diz mais do que qualquer estatística. Em uma visita a um projeto social ela ouviu da adolescente Laura do Nascimento, de 13 anos, que ao vê-la como vice-prefeita passou também a acreditar que um dia poderia ser prefeita.
E é assim que as mudanças começam: quando o poder deixa de parecer distante e passa a ser imaginado como possibilidade.
A experiência internacional ajuda a entender esse processo. Na Espanha, o avanço no enfrentamento à violência contra a mulher não aconteceu apenas por mudanças legais, mas por uma transformação cultural sustentada ao longo do tempo. O país ampliou a presença feminina nos espaços de decisão e hoje registra níveis elevados de participação feminina na política.
Não foi por acaso. Foi construção. Houve investimento em referências, ampliação de oportunidades e naturalização da presença feminina para além dos espaços que historicamente lhes foram impostos. (Veja mais aqui em conteúdo produzido pela coluna)
Santa Catarina ainda está distante dessa realidade. Nas eleições municipais de 2024, 39 mulheres foram eleitas prefeitas entre os 295 municípios do Estado, o equivalente a 13,2%. Nas Câmaras, 577 mulheres conquistaram mandato entre 2.912 vagas de vereador, o que representa 19,81% do total.
Mas há sinais importantes de mudança. Hoje, municípios estratégicos do Estado começam a redesenhar esse cenário. Em Lages e Balneário Camboriú, cidades com mais de 140 mil habitantes, há pela primeira vez mulheres no comando dos Executivos: Carmen Zanotto (Republicanos) e Juliana Pavan (PSD), respectivamente.
Em outras grandes cidades, a presença feminina também avança nas vice-prefeituras, como em Blumenau e Florianópolis, que têm como vices Maryanne Mattos (PL) e Maria Regina de Souza Soar (Republicanos).
É nesse contexto que a posse de Rejane, primeira mulher a comandar Joinville em 175 anos de história, ganha dimensão. Não se trata de uma mulher que assume para quebrar preconceitos. Mas de alguém que nos obriga a olhar para eles e decidir não alimentá-los.
Rejane assume com os mesmos desafios que qualquer vice-prefeito homem enfrentaria. Mas carrega, inevitavelmente, uma responsabilidade adicional: ser referência. Porque quando uma mulher chega, outras, assim como a Laura, passam a se ver.
Talvez seja esse o verdadeiro significado da posse em Joinville. Mais do que um marco histórico, é um convite. Para que outras mulheres deixem de ver o poder como exceção e passem a enxergá-lo como caminho.








