06/04/2026

Furacão Catarina e a arte de comunicar o risco sem gerar pânico. Por Márcio Luiz Alves

Artigo de Márcio Luiz Alves, Coronel PM RR e Especialista em Proteção e Defesa Civil

Entre a precisão científica e o sensacionalismo atual, o Brasil precisa reaprender a informar desastres com responsabilidade

Em 26 de março de 2004, o sul do Brasil foi surpreendido por um fenômeno até então considerado improvável: o Furacão Catarina. Com ventos intensos e alto poder destrutivo, o evento atingiu principalmente o litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, deixando rastros de destruição, prejuízos econômicos e uma marca permanente na história da meteorologia nacional.

Mas, passadas mais de duas décadas, o maior legado do Catarina não está apenas na sua força e sim na forma como foi previsto e comunicado.

À época, instituições como o Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia – CIRAM/EPAGRI e o Departamento Estadual de Defesa Civil do Governo do Estado de Santa Catarina enfrentaram um desafio inédito: interpretar um fenômeno sem precedentes no Atlântico Sul. Mesmo com limitações tecnológicas e incertezas científicas, os alertas foram sendo emitidos de maneira progressiva, com linguagem técnica, cautelosa e sem apelos alarmistas.

O resultado foi uma comunicação que, embora séria, não gerou pânico generalizado. A população foi informada, orientada e, dentro das possibilidades, conseguiu se preparar.

Hoje, o cenário é outro. A tecnologia avançou, os modelos meteorológicos evoluíram e a informação circula em tempo real. No entanto, essa velocidade trouxe novos problemas. Alertas são emitidos com frequência elevada, muitas vezes acompanhados de termos exagerados ou imprecisos. Redes sociais amplificam mensagens antes de qualquer validação técnica, e a linha entre informar e alarmar tornou-se cada vez mais tênue.

Esse novo contexto tem produzido um efeito preocupante: a banalização do alerta. Quando tudo é tratado como extremo, o risco real perde força. Parte da população reage com ansiedade; outra parte simplesmente deixa de acreditar.

A chamada “fadiga de alerta” já é uma realidade. E ela pode custar caro.

Os impactos não se restringem à segurança da população. A economia também sente os efeitos. Setores como turismo, lazer e atividades ao ar livre são altamente sensíveis à percepção de risco climático. Previsões mal comunicadas ainda que não se confirmem podem resultar em cancelamentos em massa, queda de receitas e prejuízos significativos para trabalhadores e empreendedores.

No caso do Catarina, os danos foram concretos e inevitáveis. Hoje, em muitos casos, o prejuízo começa antes mesmo do evento acontecer impulsionado não apenas pelo clima, mas pela forma como ele é comunicado.

O desafio contemporâneo não é apenas prever melhor, mas comunicar com mais responsabilidade. Informar riscos exige equilíbrio: clareza sem simplificação excessiva, seriedade sem sensacionalismo, urgência sem pânico.

O Furacão Catarina ensinou que até o improvável pode acontecer. Mas também mostrou que é possível enfrentar o inesperado com serenidade, desde que a informação seja tratada com rigor e respeito à sociedade.

Em tempos de mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes, essa talvez seja a lição mais importante: a confiança pública é um ativo tão essencial quanto a própria previsão.

E, quando ela se perde, o risco deixa de ser apenas climático passa a ser social.

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