
O arroz voltou a subir.
Mas não por força do mercado por necessidade de intervenção.
Depois de semanas de preços abaixo do custo, o governo federal entrou em campo e colocou até R$ 70 milhões na mesa para tentar reorganizar a comercialização da safra 2025/2026.
A pergunta que fica no campo é direta: é suficiente para segurar a renda, ou chega tarde para quem já vendeu no prejuízo?
Subvenção entra via leilão e preço mínimo vira linha de defesa
Portaria interministerial publicada no Diário Oficial da União do dia 24, define as regras para a subvenção econômica ao arroz em casca da safra 2025/2026.
O apoio será operacionalizado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), dentro da PGPM (Política de Garantia de Preços Mínimos), por meio de dois instrumentos:
- PEPRO (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural)
- PEP (Prêmio para o Escoamento de Produto)
Como funciona na prática:
No PEPRO, produtor e cooperativa recebem complemento financeiro quando o preço de venda fica abaixo do mínimo
No PEP, indústrias e tradings assumem o compromisso de pagar o mínimo ao produtor
Para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o preço mínimo foi fixado em R$ 63,74 por saca de 50 quilos.
O limite de recursos é de até R$ 70 milhões.
A lógica é clara:
Garantir liquidez
Sustentar preços
Evitar colapso de renda
Mas também deixa evidente: o mercado sozinho não deu conta.
SC colhe sob pressão produtividade alta, preço baixo e alerta para a próxima safra
Se o governo entrou com recursos para segurar o mercado, o campo já está colhendo o tamanho do problema.
A safra 2025/26 avança em Santa Catarina com cerca de 60% da área já colhida, em um total de aproximadamente 143 mil hectares, segundo a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina).
A produtividade segue alta próxima de 8,5 toneladas por hectare, com produção estimada em 1,2 milhão de toneladas.
Mas o dado que preocupa está na comparação:
- queda de 5% na produtividade
- retração de 6,1% no volume total frente à safra recorde anterior
Ainda assim, o maior problema não está no campo.
Está no mercado.
Produtividade não paga a conta e cadeia entra em alerta
Mesmo com bons resultados técnicos, a safra ocorre em um ambiente de:
- preços em queda
- custos elevados
- margem negativa
O presidente do SindArroz-SC (Sindicato das Indústrias do Arroz de Santa Catarina), Walmir Rampinelli, resume:
“O agricultor teve alto custo para produzir com qualidade. Ainda assim, vai vender por um valor que não compensa o esforço no campo.”
O alerta é sistêmico:
“Quanto mais o agricultor estiver fortalecido, melhor para a indústria e para o consumidor.”
Custo alto e desgaste emocional entram no radar do campo
Na lavoura, o impacto vai além do financeiro.
O agricultor e engenheiro agrônomo Samuel Zanoni, que cultiva arroz em Nova Veneza e Forquilhinha, registra produtividade elevada cerca de 195 sacas por hectare em 120 hectares.
Mas os custos subiram:
- defensivos mais caros
- fertilizantes pressionados
- diesel elevado
E há um fator menos visível, mas real:
“Foi uma safra de desgaste psicológico. Você planta vendo o preço cair. Isso desanima.”
Safra 26/27 já preocupa e pode vir menor
O impacto da atual crise já começa a contaminar o próximo ciclo.
Segundo a Epagri, o risco é direto:
- produtores descapitalizados
- redução de investimento
- possível retração de área
O engenheiro agrônomo Douglas George de Oliveira, especialista em arroz irrigado, alerta:
“Se esse cenário persistir, pode faltar capital para o plantio da próxima safra.”
Na prática:
o problema deixa de ser pontual e vira estrutural.
Yuzu na Serra: inovação que busca renda onde hoje não há alternativa
Enquanto o arroz luta para fechar a conta, Santa Catarina testa o futuro.
A Epagri iniciou estudos para adaptação do yuzu. Conhecido como limão japonês, é um cítrico asiático valorizado na gastronomia, com sabor que combina notas de limão, tangerina e toranja.
O projeto envolve parceria com a empresa japonesa Ogon No Mura e testes em São Joaquim e Frei Rogério.
O objetivo:
Viabilizar cultivo comercial
Abrir nova fonte de renda
Ocupar áreas hoje pouco aptas
Prazo estimado: até 5 anos.
No agro, diversificar é proteção.
Internet no campo reduz fogo e mostra que tecnologia também é defesa ambiental
Pesquisa do ConectarAgro, com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), trouxe um dado que muda a lógica do debate rural:
Áreas com maior conectividade digital têm menos incêndios florestais
O estudo cruzou dados da Anatel com o MapBiomas Fogo.
Os números impressionam:
- 31,3 milhões de hectares queimados em 2024
- cerca de 4% do território nacional
- mais de US$ 220 milhões em custos diretos
- perdas ambientais superiores a US$ 14 bilhões
A conclusão é objetiva: sem conectividade, há menos monitoramento, menos resposta e mais risco.
No campo moderno, internet virou infraestrutura básica como estrada e energia.
IA no fertilizante: precisão de 94,7% muda o jogo do custo
A tecnologia também avança dentro da lavoura.
Sistema de inteligência artificial autônoma alcançou até 94,7% de precisão na recomendação de fertilizantes, segundo estudo publicado na Scientific Reports.
O sistema combina:
- visão computacional (análise do solo por imagem)
- machine learning (estimativa de nutrientes)
- dados climáticos
E entrega:
Recomendação de cultura
Definição de adubação ideal
Com fertilizantes pressionados globalmente, acertar a dose virou diferencial.
Erro virou custo. Precisão virou margem.
Avicultura discute bem-estar em Chapecó
Chapecó volta ao centro do debate técnico.
O 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), de 7 a 9 de abril, coloca na mesa um tema que deixou de ser tendência: bem-estar animal como fator de competitividade.
O professor Celso Funcia Lemme será um dos destaques:
“Práticas de bem-estar contribuem para resultados econômicos mais consistentes e fortalecem a reputação do setor.”
A leitura é clara:
- Consumidor mudou
- Mercado exige
- Quem não se adapta perde espaço
Sem almoço grátis: o alerta do setor produtivo
No campo político, o artigo do diretor executivo da FECOAGRO (Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina), Ivan Ramos, intitulado “O dilema do setor produtivo brasileiro”, traz o tom da semana.
E não poupa crítica.
“Querem reduzir a jornada sem reduzir salário. Isso significa transferir custos ao setor produtivo.”
O alvo é direto:
- propostas de redução da jornada (escala 6×1)
- avanço de medidas assistencialistas
- decisões sem base produtiva
O alerta também é claro:
“Não existe almoço grátis. A conta sempre chega ao consumidor.”
No agro, a lógica é simples: custo sobe, preço sobe.
Entre reação e consequência
A quinta-feira fecha com um diagnóstico mais claro e mais duro.
O governo tenta reagir ao arroz.
O mercado dá sinais de ajuste.
Mas o produtor já está olhando para frente.
Porque o problema não está mais só na venda desta safra.
Está na próxima.
Entre uma colheita tecnicamente boa e uma conta que não fecha, o arroz escancara uma realidade que o agro conhece bem: produzir bem já não garante resultado.
E, quando isso acontece, o impacto não fica na lavoura.
Ele chega na próxima safra.





