26/03/2026

Arroz reage no papel, mas o campo já sente a próxima safra

O arroz voltou a subir.

Mas não por força do mercado por necessidade de intervenção.

Depois de semanas de preços abaixo do custo, o governo federal entrou em campo e colocou até R$ 70 milhões na mesa para tentar reorganizar a comercialização da safra 2025/2026.

A pergunta que fica no campo é direta: é suficiente para segurar a renda, ou chega tarde para quem já vendeu no prejuízo?

Subvenção entra via leilão e preço mínimo vira linha de defesa

Portaria interministerial publicada no Diário Oficial da União do dia 24, define as regras para a subvenção econômica ao arroz em casca da safra 2025/2026.

O apoio será operacionalizado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), dentro da PGPM (Política de Garantia de Preços Mínimos), por meio de dois instrumentos:

  • PEPRO (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural)
  • PEP (Prêmio para o Escoamento de Produto)

Como funciona na prática:

No PEPRO, produtor e cooperativa recebem complemento financeiro quando o preço de venda fica abaixo do mínimo

No PEP, indústrias e tradings assumem o compromisso de pagar o mínimo ao produtor

Para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o preço mínimo foi fixado em R$ 63,74 por saca de 50 quilos.

O limite de recursos é de até R$ 70 milhões.

A lógica é clara:

Garantir liquidez

Sustentar preços

Evitar colapso de renda

Mas também deixa evidente: o mercado sozinho não deu conta.

SC colhe sob pressão produtividade alta, preço baixo e alerta para a próxima safra

Se o governo entrou com recursos para segurar o mercado, o campo já está colhendo o tamanho do problema.

A safra 2025/26 avança em Santa Catarina com cerca de 60% da área já colhida, em um total de aproximadamente 143 mil hectares, segundo a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina).

A produtividade segue alta próxima de 8,5 toneladas por hectare, com produção estimada em 1,2 milhão de toneladas.

Mas o dado que preocupa está na comparação:

  • queda de 5% na produtividade
  • retração de 6,1% no volume total frente à safra recorde anterior

Ainda assim, o maior problema não está no campo.

Está no mercado.

Produtividade não paga a conta e cadeia entra em alerta

Mesmo com bons resultados técnicos, a safra ocorre em um ambiente de:

  • preços em queda
  • custos elevados
  • margem negativa

O presidente do SindArroz-SC (Sindicato das Indústrias do Arroz de Santa Catarina), Walmir Rampinelli, resume:

“O agricultor teve alto custo para produzir com qualidade. Ainda assim, vai vender por um valor que não compensa o esforço no campo.”

O alerta é sistêmico:

“Quanto mais o agricultor estiver fortalecido, melhor para a indústria e para o consumidor.”

Custo alto e desgaste emocional entram no radar do campo

Na lavoura, o impacto vai além do financeiro.

O agricultor e engenheiro agrônomo Samuel Zanoni, que cultiva arroz em Nova Veneza e Forquilhinha, registra produtividade elevada cerca de 195 sacas por hectare em 120 hectares.

Mas os custos subiram:

  • defensivos mais caros
  • fertilizantes pressionados
  • diesel elevado

E há um fator menos visível, mas real:

“Foi uma safra de desgaste psicológico. Você planta vendo o preço cair. Isso desanima.”

Safra 26/27 já preocupa e pode vir menor

O impacto da atual crise já começa a contaminar o próximo ciclo.

Segundo a Epagri, o risco é direto:

  • produtores descapitalizados
  • redução de investimento
  • possível retração de área

O engenheiro agrônomo Douglas George de Oliveira, especialista em arroz irrigado, alerta:

“Se esse cenário persistir, pode faltar capital para o plantio da próxima safra.”

Na prática:

o problema deixa de ser pontual e vira estrutural.

Yuzu na Serra: inovação que busca renda onde hoje não há alternativa

Enquanto o arroz luta para fechar a conta, Santa Catarina testa o futuro.

A Epagri iniciou estudos para adaptação do yuzu. Conhecido como limão japonês, é um cítrico asiático valorizado na gastronomia, com sabor que combina notas de limão, tangerina e toranja.

O projeto envolve parceria com a empresa japonesa Ogon No Mura e testes em São Joaquim e Frei Rogério.

O objetivo:

Viabilizar cultivo comercial
Abrir nova fonte de renda
Ocupar áreas hoje pouco aptas

Prazo estimado: até 5 anos.

No agro, diversificar é proteção.

Internet no campo reduz fogo e mostra que tecnologia também é defesa ambiental

Pesquisa do ConectarAgro, com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), trouxe um dado que muda a lógica do debate rural:

Áreas com maior conectividade digital têm menos incêndios florestais

O estudo cruzou dados da Anatel com o MapBiomas Fogo.

Os números impressionam:

  • 31,3 milhões de hectares queimados em 2024
  • cerca de 4% do território nacional
  • mais de US$ 220 milhões em custos diretos
  • perdas ambientais superiores a US$ 14 bilhões

A conclusão é objetiva: sem conectividade, há menos monitoramento, menos resposta e mais risco.

No campo moderno, internet virou infraestrutura básica como estrada e energia.

IA no fertilizante: precisão de 94,7% muda o jogo do custo

A tecnologia também avança dentro da lavoura.

Sistema de inteligência artificial autônoma alcançou até 94,7% de precisão na recomendação de fertilizantes, segundo estudo publicado na Scientific Reports.

O sistema combina:

  • visão computacional (análise do solo por imagem)
  • machine learning (estimativa de nutrientes)
  • dados climáticos

E entrega:

Recomendação de cultura

Definição de adubação ideal

Com fertilizantes pressionados globalmente, acertar a dose virou diferencial.

Erro virou custo. Precisão virou margem.

Avicultura discute bem-estar em Chapecó

Chapecó volta ao centro do debate técnico.

O 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), de 7 a 9 de abril, coloca na mesa um tema que deixou de ser tendência: bem-estar animal como fator de competitividade.

O professor Celso Funcia Lemme será um dos destaques:

“Práticas de bem-estar contribuem para resultados econômicos mais consistentes e fortalecem a reputação do setor.”

A leitura é clara:

  • Consumidor mudou
  • Mercado exige
  • Quem não se adapta perde espaço

Sem almoço grátis: o alerta do setor produtivo

No campo político, o artigo do diretor executivo da FECOAGRO (Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina), Ivan Ramos, intitulado “O dilema do setor produtivo brasileiro”, traz o tom da semana.

E não poupa crítica.

“Querem reduzir a jornada sem reduzir salário. Isso significa transferir custos ao setor produtivo.”

O alvo é direto:

  • propostas de redução da jornada (escala 6×1)
  • avanço de medidas assistencialistas
  • decisões sem base produtiva

O alerta também é claro:

“Não existe almoço grátis. A conta sempre chega ao consumidor.”

No agro, a lógica é simples: custo sobe, preço sobe.

Entre reação e consequência

A quinta-feira fecha com um diagnóstico mais claro e mais duro.

O governo tenta reagir ao arroz.

O mercado dá sinais de ajuste.

Mas o produtor já está olhando para frente.

Porque o problema não está mais só na venda desta safra.

Está na próxima.

Entre uma colheita tecnicamente boa e uma conta que não fecha, o arroz escancara uma realidade que o agro conhece bem: produzir bem já não garante resultado.

E, quando isso acontece, o impacto não fica na lavoura.

Ele chega na próxima safra.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.

Anúncios e chamada para o mailing