17/03/2026

Escaramuças partidárias são normais nessa época

Só os neófitos da política se surpreendem com as escaramuças típicas deste período pré-eleitoral. É quando políticos anoitecem candidatos e amanhecem fora do jogo — ou fazem o caminho inverso, sem maiores constrangimentos.

O que ocorre hoje no PSD, com a indefinição em torno do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, está longe de ser exceção. É, na verdade, regra. Candidato consolidado, neste momento, apenas o governador Jorginho Mello (PL), que decidiu antecipar o calendário eleitoral em alguns meses.

A história recente ajuda a colocar esse cenário em perspectiva.

Em 2010, Luiz Henrique da Silveira (MDB) governava o Estado tendo Leonel Pavan (PSDB) como vice e articulava para ser o candidato da então tríplice aliança (MDB, PSDB e DEM). Uma operação policial envolvendo o setor de combustíveis tirou Pavan do jogo naquele momento — anos depois, ele seria inocentado.

No MDB, a disputa interna levou à realização de prévias. Dário Berger, então prefeito reeleito de Florianópolis, buscava a candidatura ao governo e chegou a ter o apoio inicial de Luiz Henrique, mas acabou enfrentando a máquina partidária.

Do outro lado estava Eduardo Moreira, então presidente do partido e da Celesc, também interessado na vaga. Na prévia realizada em março de 2010, Moreira venceu com 58,7% dos votos dos delegados.

O desfecho, no entanto, fugiu ao script. Na convenção, Eduardo Moreira abriu mão da candidatura ao governo para compor como vice de Raimundo Colombo (DEM), numa articulação conduzida por Luiz Henrique, que já se preparava para disputar o Senado.

O movimento gerou forte reação interna e chegou a provocar ameaça de intervenção no diretório estadual por parte de Michel Temer, então presidente nacional do MDB, alinhado à candidatura de Dilma Rousseff no plano nacional. Santa Catarina, porém, resistiu. A costura política prevaleceu, e a chapa com Colombo ao governo, Moreira de vice e Luiz Henrique e Paulo Bauer ao Senado venceu ainda no primeiro turno.

Quatro anos depois, o roteiro se repetiria

Em 2013, já com Colombo no governo e Moreira na vice, o MDB voltou a se dividir. Setores defendiam o rompimento com o PSD e candidatura própria em 2014. Mauro Mariani e Dário Berger lideraram a dissidência.

Mais uma vez, Luiz Henrique atuou nos bastidores para manter a aliança. A disputa pelo controle do partido foi ao voto, e Eduardo Moreira venceu novamente, desta vez por 58% a 42%, garantindo maioria no diretório e a realização de prévia que o manteve como candidato a vice.

Ainda assim, a tensão não cessou. Às vésperas da convenção, o grupo dissidente conseguiu implodir uma articulação mais ampla, que poderia incluir o PP de Esperidião Amin, e viabilizou a candidatura de Dário Berger ao Senado — eleito naquele ano, enquanto Colombo e Moreira repetiam a vitória em primeiro turno.

Nada disso é exceção. É padrão.

Esse entra e sai de candidaturas, as ameaças de ruptura e os acordos costurados na última hora fazem parte da lógica política até o prazo final das convenções. No Brasil — e, em especial, em Santa Catarina —, a eleição muitas vezes só começa de fato quando os nomes forem homologados pelo TRE.

Até lá, o que se vê não é desorganização. É método. E ainda há muita água para passar sob a ponte da articulação política.

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