17/03/2026

Mulheres avançam na educação, mas o Brasil ainda falha na igualdade

Aqui em Stanford, um dos temas que tenho estudado é como a educação pode ajudar a reduzir desigualdades sociais — e também como essas desigualdades se reproduzem dentro do próprio sistema educacional. Em breve pretendo tratar das desigualdades étnico-raciais e das implicações da lei de cotas que tanta polêmica tem gerado em Santa Catarina. Mas hoje quero falar de outra dimensão importante da desigualdade: a questão de gênero, especialmente porque neste mês celebramos o Dia Internacional das Mulheres.

Nas últimas décadas, o Brasil presenciou avanços importantes na posição das mulheres na sociedade, especialmente na educação. As mulheres hoje estudam mais, permanecem mais tempo na escola e já são maioria nas universidades. Ainda assim, esses progressos convivem com desigualdades persistentes em áreas fundamentais como segurança, renda e oportunidades profissionais.

Vivemos, portanto, um paradoxo: as mulheres avançaram muito na educação, mas esse avanço ainda não se converteu plenamente em igualdade social e econômica.

Entre os principais desafios enfrentados pelas mulheres no Brasil está a violência de gênero. Como podemos observar pelo noticiário recente, o país ainda registra números alarmantes de violência contra as mulheres. Ao mesmo tempo, a desigualdade no mercado de trabalho continua evidente. Mesmo com níveis educacionais mais altos, as mulheres seguem ganhando menos que os homens para posições de trabalho semelhantes, recebendo em média cerca de 79% da renda masculina.

Outro obstáculo importante, não apenas no Brasil, é a sobrecarga do trabalho doméstico e das responsabilidades de cuidado. Muitas mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelos filhos, pela casa e pelo cuidado com familiares. Isso reduz o tempo disponível para investir na carreira, na qualificação profissional e até na participação política. Não por acaso, elas ainda são minoria em cargos de liderança e nas posições de maior prestígio no mercado de trabalho.

Entretanto, se existe um campo em que o avanço feminino é incontestável, esse campo é a educação. Hoje, as mulheres são maioria tanto na graduação quanto na pós-graduação. De acordo com o Censo da Educação Superior, elas representam cerca de 59% das matrículas universitárias no país, além de predominarem entre os concluintes de cursos superiores.

O mesmo padrão aparece na educação básica. As meninas apresentam menores taxas de reprovação e abandono escolar, além de maiores índices de conclusão do ensino médio. Esse desempenho contribuiu para que, nas últimas décadas, a escolaridade média feminina ultrapassasse a masculina no Brasil.

E esse avanço importa muito. A educação feminina está diretamente associada a melhores indicadores de saúde, aumento da renda familiar e melhores oportunidades para as próximas gerações. Quando uma menina permanece na escola, aumentam também suas chances de mobilidade social e de participação plena na sociedade.

Mas isso não significa que os desafios tenham desaparecido. Meninas ainda enfrentam obstáculos específicos ao longo da educação básica. A gravidez na adolescência continua sendo um dos principais fatores de interrupção da trajetória escolar feminina. Muitas jovens acabam deixando a escola temporária ou definitivamente após a maternidade, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social.

Além disso, ainda é comum que meninas assumam responsabilidades domésticas precoces, como cuidar de irmãos ou ajudar nas tarefas da casa. Essa sobrecarga reduz o tempo disponível para estudo e compromete a continuidade escolar.

Outro ponto importante são os estereótipos de gênero que continuam influenciando escolhas educacionais. Mesmo sendo maioria nas universidades, as mulheres ainda estão sub-representadas em áreas como engenharia, tecnologia e computação — justamente os setores que oferecem hoje algumas das maiores oportunidades de renda e inovação.

Diante disso, a educação também pode ser uma das ferramentas mais poderosas para combater desigualdades de gênero. Algumas ações podem ajudar a construir ambientes educacionais mais justos e inclusivos.

Primeiro, é fundamental fortalecer programas de prevenção à violência de gênero e ao assédio nas escolas e universidades. Ambientes educacionais precisam ser seguros para meninas e mulheres.

Segundo, políticas de permanência escolar podem reduzir a evasão feminina. Programas de apoio à maternidade estudantil e educação sexual baseada em evidências são instrumentos importantes para evitar a interrupção da trajetória educacional.

Terceiro, precisamos incentivar mais meninas a ingressarem em áreas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Programas de mentoria, bolsas de estudo e iniciativas que combatam estereótipos de gênero podem ajudar a ampliar a presença feminina nesses campos.

Por fim, a formação de professores e a adaptação dos materiais didáticos também tem papel decisivo. A escola precisa ser um espaço que promova igualdade de gênero, respeito e combate à discriminação.

Apesar dos desafios, há razões para vislumbrar um futuro melhor. O aumento contínuo da escolaridade feminina tende a produzir efeitos positivos no mercado de trabalho e na participação social das mulheres ao longo das próximas décadas.

A educação é um dos motores mais poderosos de mobilidade social. À medida que mais mulheres concluem o ensino superior e ingressam em profissões qualificadas, cresce também sua presença em posições de liderança econômica e política.

Além disso, mudanças culturais em curso indicam uma transformação gradual nas relações de gênero na sociedade brasileira. O reconhecimento da importância da igualdade de oportunidades, aliado ao avanço educacional das mulheres, abre caminho para uma sociedade mais justa e inclusiva.

O Brasil ainda tem muito a avançar para superar suas desigualdades. Mas uma coisa já está clara: a educação se tornou uma das principais forças de transformação na vida das mulheres e isso é uma grande notícia!

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