
A história que eu quero contar hoje é muito surpreendente e mostra como o vinho pode ser muito mais que uma simples bebida.
Na França, existe um hospital que sobrevive vendendo vinho.
O Hospices de Nuits-Saint-Georges fica em uma pequena cidade da Borgonha com menos de seis mil habitantes. São 60 leitos, cerca de 120 profissionais de saúde e uma estrutura que não deixa nada a desejar a centros urbanos muito maiores. A diferença é que parte significativa de sua manutenção vem de um vinhedo de 12,5 hectares. Quem diria?
O hospital foi criado no século XIII. As primeiras vinhas foram doadas em 1688, seguidas por contribuições de famílias locais que, ao longo dos séculos, acreditavam nos benefícios sociais e divinos que obteriam com as doações.
Mas o interessante é que, em vez de vender essas terras ao longo do tempo, o hospital manteve a produção e o vinho virou fonte de receita.
Hoje, quatro enólogos trabalham na propriedade, liderados por Jean-Marc Moron. A cada safra são produzidas 19 cuvées (ou seleções especiais), todas destinadas a um leilão beneficente anual que movimenta compradores do mundo inteiro.

(Se quiser saber mais, procure também pelo “Hospice de Beaune” – outro hospital da Borgonha que faz um leilão de vinhos muito famoso).
E aqui a história medieval cruza com Florianópolis
Enquanto escrevo este texto, o francês Didier Simon está a caminho da Borgonha. Fundador da Empório Mundo, importadora sediada na capital catarinense, e morador de Florianópolis há 30 anos, Didier participa do leilão desde 2017, representando um grupo de clientes brasileiros. Este ano, não será diferente. Ele está pronto para arrematar pelo menos uma barrica no leilão que ocorrerá no próximo domingo (8). “A gente escolhe com base na qualidade do vinho, mas também considerando até onde conseguimos chegar com relação ao preço”, explica.
Por lá, não são vendidas garrafas. No leilão do Hospices de Nuits são arrematadas as chamadas pieces — barricas típicas da Borgonha com 228 litros de vinho. Para visualizar melhor: uma única piece rende cerca de 300 garrafas após o engarrafamento.
Todos os anos, aproximadamente 150 dessas barricas são leiloadas. Elas vêm de parcelas específicas do vinhedo do Hospices, incluindo nove Premier Crus — classificação que indica vinhedos de qualidade superior dentro da hierarquia da Borgonha. Não é marketing. É geografia precisa, solo, exposição solar e séculos de observação humana, o famoso “savoir-faire” francês.
Antes do leilão, os vinhos ainda em barrica passam por degustações técnicas. “É ali que confirmo, ou não, se vamos manter o plano da compra”, conta Didier.
Ele explica ainda que, caso a barrica seja arrematada dentro da faixa de preço estipulada, ela segue para a Maison Albert Bichot, onde o vinho permanece em envelhecimento por pelo menos mais um ano. Só depois é engarrafado e enviado ao Brasil para ser dividido entre os participantes da compra, sempre em múltiplos de seis garrafas — a quantidade mínima por cliente. O vinho chega ao Brasil cerca de dois anos depois do leilão. É um exercício de paciência e de confiança.
O valor final dos vinhos depende diretamente do lance alcançado no leilão. Em média, as garrafas adquiridas pelo grupo chegam ao Brasil valendo entre 150 e 250 euros cada.


E o perfil de quem compra? “Não é coisa de milionário. É coisa de quem gosta de vinho raro, de alta qualidade, que não está no mercado. O modelo de compra em grupo permite diluir custos e tornar possível algo que, sozinho, ninguém faria”, explica Didier.
Há ainda um componente que não aparece na etiqueta: parte do valor investido está financiando o sistema de saúde da própria região. Em 2022, o leilão do Hospices de Nuits-Saint-Georges atingiu o recorde de 2,4 milhões de euros. Em 2025, com uma safra mais modesta, a arrecadação foi de cerca de 860 mil euros. Independente das variações de mercado, o modelo permanece impressionante: vinho financiando saúde pública há séculos.
Para saber mais sobre o grupo criado por Didier, clique aqui.
O Hospices de Nuits-Saint-Georges nos faz lembrar que o vinho pode estruturar economias, fortalecer comunidades e atravessar gerações mantendo relevância.
E é muito legal imaginar que no momento em que o martelo bate na Borgonha, há brasileiros aguardando por garrafas que ainda nem existem, sabendo que dentro delas há mais do que um grande vinho.
Tim tim!
Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram





