O meu planejamento era escrever a próxima coluna calmamente no final de semana, para publicar na segunda-feira, com todos já devidamente recuperados do carnaval e prontos para iniciar, de fato, 2026.

Mas, como a vida dos comunicadores é dinâmica, um post que publiquei no Instagram gerou uma série de comentários que me obrigaram a parar tudo para desenvolver melhor o assunto, que claramente não foi bem interpretado.
No post, eu dizia que Lula ignorou alertas de estrategistas e assessores de VDM (Vai Dar Merda!) sobre o desfile-tributo da Acadêmicos de Niterói, que, além dos riscos políticos e jurídicos, acabou rebaixada. Especialmente porque a ala da “família em conserva” poderia melindrar setores conservadores e cristãos, sobretudo o “brasileiro médio”, aquele que de fato decide eleições.
Ministros próximos teriam alertado para o desgaste. Ainda assim, o presidente preferiu confiar no próprio instinto e na vontade da Janja. Ou seja, na minha avaliação, tratou-se de uma crise evitável.
Foi quando surgiram inúmeros comentários dizendo que aquilo não era crise, que eu estava exagerando, que no máximo se tratava de uma polêmica.
E aí a pergunta se impôs, obrigando-me a antecipar esta coluna: afinal, o que é uma crise?
Primeiramente, vamos ao que a literatura técnica chama de crise.
Via de regra, as pessoas associam “crise” a colapsos, catástrofes ou algo grande demais para ignorar. Mas a palavra crise vem do grego krisis, que significa decisão, julgamento, ponto de inflexão. No sentido médico, indica a “virada” da doença, para melhora ou agravamento.
Ou seja, crise não é necessariamente o apocalipse. É um momento de julgamento público que exige resposta ou ajuste de rota.
Na literatura sobre comunicação e gestão de reputação, uma definição recorrente descreve crise como a percepção de um evento que ameaça expectativas importantes de stakeholders, ou públicos de interesse, e pode gerar resultados negativos.
Perceba o termo-chave que estou usando: percepção.
Não é preciso derrubar a República para ser uma crise. Basta gerar ameaça percebida, exigir resposta ou avaliações internas sob pressão e produzir risco reputacional mensurável.
Aplicando ao caso do Carnaval, o episódio do desfile-tributo gerou, pela ordem, percepção de ameaça simbólica, especialmente entre setores conservadores; reação pública organizada, inclusive fora de bolhas militantes; movimentação interna do governo, com reuniões, pesquisas e estratégias de contenção; além do monitoramento de impacto na popularidade.
Isso, conceitualmente, é crise.
Não porque caiu ministro, houve impeachment ou qualquer ruptura institucional, mas porque houve julgamento público sob tensão.
Para sair do binarismo “é crise / não é crise”, proponho três dimensões objetivas. Começo pela ameaça, seja a valores, à legitimidade ou à reputação; depois a urgência, quando há exigência de resposta fora do ritmo normal; e finalizo com a incerteza, a ambiguidade sobre impacto futuro e extensão do dano.
No episódio carnavalesco, houve percepção de ameaça simbólica, houve resposta apressada e houve incerteza sobre repercussão eleitoral. Portanto, sim, foi crise.
Para mim, e respeito quem pensa diferente, o que está em debate não é se foi crise, mas o tamanho dela.
A escala importa, pois nem toda crise é estrutural.
Crises menores têm dano segmentado e reversível no curto prazo. Crises médias exigem ajuste de agenda, consumo de capital político ou gestão intensiva de imagem. Crises grandes ameaçam a legitimidade estrutural e exigem decisões extraordinárias.
Pelos critérios acima, classifico o episódio como uma crise de médio porte.
Ela gerou desgaste, mobilizou o governo e exigiu contenção. Mas, por ora, não alterou estruturalmente o equilíbrio político nem as eleições deste ano.
E aqui está o ponto mais interessante: a própria discussão sobre “foi ou não foi crise” já é parte do fenômeno.
Em política, negar o rótulo pode ser estratégia de contenção. Insistir no rótulo pode ser estratégia de ataque.
Em um país polarizado, é natural que parte da militância minimize e parte amplifique.
Mas a análise técnica, que é o que eu sempre busco fazer, precisa ir além da torcida.
Crise não é apenas o que explode. É o que deixa cicatrizes.
E, na comunicação política, cicatrizes importam.
Nem toda crise derruba governo, mas toda crise produz julgamento público, desloca energia institucional e testa reputação.
Se houve, como no caso do Lula e seu carnaval, percepção de ameaça relevante, resposta sob pressão e risco reputacional mensurável, estamos diante de uma crise, ainda que de médio porte.
Chamar de polêmica é confortável, ou politicamente conveniente, a depender do lado em que você estiver.
Chamar de crise é mais técnico.
E, para quem trabalha com imagem e reputação, precisão não é detalhe, é método.
E ignorar método em ano pré-eleitoral costuma sair caro.
Muito mais caro do que admitir que, sim, foi crise.
Ps: o tema é complexo, cheio de nuances e definições técnicas. O espaço da coluna exige síntese, não tese de doutorado.





