20/02/2026

O Carnaval de Lula e o erro de chamar crise de polêmica

O meu planejamento era escrever a próxima coluna calmamente no final de semana, para publicar na segunda-feira, com todos já devidamente recuperados do carnaval e prontos para iniciar, de fato, 2026.

Mas, como a vida dos comunicadores é dinâmica, um post que publiquei no Instagram gerou uma série de comentários que me obrigaram a parar tudo para desenvolver melhor o assunto, que claramente não foi bem interpretado.

No post, eu dizia que Lula ignorou alertas de estrategistas e assessores de VDM (Vai Dar Merda!) sobre o desfile-tributo da Acadêmicos de Niterói, que, além dos riscos políticos e jurídicos, acabou rebaixada. Especialmente porque a ala da “família em conserva” poderia melindrar setores conservadores e cristãos, sobretudo o “brasileiro médio”, aquele que de fato decide eleições.

Ministros próximos teriam alertado para o desgaste. Ainda assim, o presidente preferiu confiar no próprio instinto e na vontade da Janja. Ou seja, na minha avaliação, tratou-se de uma crise evitável.

Foi quando surgiram inúmeros comentários dizendo que aquilo não era crise, que eu estava exagerando, que no máximo se tratava de uma polêmica.

E aí a pergunta se impôs, obrigando-me a antecipar esta coluna: afinal, o que é uma crise?

Primeiramente, vamos ao que a literatura técnica chama de crise.

Via de regra, as pessoas associam “crise” a colapsos, catástrofes ou algo grande demais para ignorar. Mas a palavra crise vem do grego krisis, que significa decisão, julgamento, ponto de inflexão. No sentido médico, indica a “virada” da doença, para melhora ou agravamento.

Ou seja, crise não é necessariamente o apocalipse. É um momento de julgamento público que exige resposta ou ajuste de rota.

Na literatura sobre comunicação e gestão de reputação, uma definição recorrente descreve crise como a percepção de um evento que ameaça expectativas importantes de stakeholders, ou públicos de interesse, e pode gerar resultados negativos.

Perceba o termo-chave que estou usando: percepção.

Não é preciso derrubar a República para ser uma crise. Basta gerar ameaça percebida, exigir resposta ou avaliações internas sob pressão e produzir risco reputacional mensurável.

Aplicando ao caso do Carnaval, o episódio do desfile-tributo gerou, pela ordem, percepção de ameaça simbólica, especialmente entre setores conservadores; reação pública organizada, inclusive fora de bolhas militantes; movimentação interna do governo, com reuniões, pesquisas e estratégias de contenção; além do monitoramento de impacto na popularidade.

Isso, conceitualmente, é crise.

Não porque caiu ministro, houve impeachment ou qualquer ruptura institucional, mas porque houve julgamento público sob tensão.

Para sair do binarismo “é crise / não é crise”, proponho três dimensões objetivas. Começo pela ameaça, seja a valores, à legitimidade ou à reputação; depois a urgência, quando há exigência de resposta fora do ritmo normal; e finalizo com a incerteza, a ambiguidade sobre impacto futuro e extensão do dano.

No episódio carnavalesco, houve percepção de ameaça simbólica, houve resposta apressada e houve incerteza sobre repercussão eleitoral. Portanto, sim, foi crise.

Para mim, e respeito quem pensa diferente, o que está em debate não é se foi crise, mas o tamanho dela.

A escala importa, pois nem toda crise é estrutural.

Crises menores têm dano segmentado e reversível no curto prazo. Crises médias exigem ajuste de agenda, consumo de capital político ou gestão intensiva de imagem. Crises grandes ameaçam a legitimidade estrutural e exigem decisões extraordinárias.

Pelos critérios acima, classifico o episódio como uma crise de médio porte.

Ela gerou desgaste, mobilizou o governo e exigiu contenção. Mas, por ora, não alterou estruturalmente o equilíbrio político nem as eleições deste ano.

E aqui está o ponto mais interessante: a própria discussão sobre “foi ou não foi crise” já é parte do fenômeno.

Em política, negar o rótulo pode ser estratégia de contenção. Insistir no rótulo pode ser estratégia de ataque.

Em um país polarizado, é natural que parte da militância minimize e parte amplifique.

Mas a análise técnica, que é o que eu sempre busco fazer, precisa ir além da torcida.

Crise não é apenas o que explode. É o que deixa cicatrizes.

E, na comunicação política, cicatrizes importam.

Nem toda crise derruba governo, mas toda crise produz julgamento público, desloca energia institucional e testa reputação.

Se houve, como no caso do Lula e seu carnaval, percepção de ameaça relevante, resposta sob pressão e risco reputacional mensurável, estamos diante de uma crise, ainda que de médio porte.

Chamar de polêmica é confortável, ou politicamente conveniente, a depender do lado em que você estiver.

Chamar de crise é mais técnico.

E, para quem trabalha com imagem e reputação, precisão não é detalhe, é método.

E ignorar método em ano pré-eleitoral costuma sair caro.

Muito mais caro do que admitir que, sim, foi crise.

Ps: o tema é complexo, cheio de nuances e definições técnicas. O espaço da coluna exige síntese, não tese de doutorado.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.