14/05/2026

Impacto causado pela Ponte Hercílio Luz em 1926 foi tão grande que catarinense virou ministro

Minha homenagem aos 100 anos da Ponte Hercílio Luz neste dia 13 de maio de 2026 é um resgate. Um dos maiores orgulhos que tenho nos 20 anos de carreira que completo este ano foi a série de reportagens sobre Victor Konder e Ruth Ramos, cujo noivado desfeito faz parte da gênese da maior rivalidade política da histórica de Santa Catarina.

A Ponte Hercílio Luz surgiu imponente em meio à apuração dessa história e da trajetória das famílias Konder Bornhausen e Ramos. Victor Konder foi secretário de Fazenda, Viação e Obras Públicas durante praticamente todo o processo de construção – de outubro de 1922 a março de 1926. Deixou o cargo 43 dias antes da inauguração para concorrer a deputado federal. Assim como o então governador Antonio Pereira Oliveira, que também se desincompatibilizou para concorrer ao Senado, perdeu o nome na placa.

Curiosamente, Victor Konder pouco viveu o mandato de deputado federal. Foi escolhido pelo presidente Washington Luiz para ser seu ministro de Viação e Obras Públicas, cargo que ocupou até a Revolução de 1930 depor aquele governo e toda a chamada República Velha para dar início à Era Vargas.

Faço aqui o resgate do trecho de um dos capítulos da série de reportagens “Victor e Ruth: o romance que moldou a política catarinense” para celebrar os 100 anos da Ponte Hercílio Luz e do impacto que ela causou e causa até hoje. Também para resgatar a figura de Victor Konder, que perdeu a placa por conta de prazos eleitorais. Aproveito, ainda, para parabenizar o Diário Catarinense pelos seus 40 anos, completados no último dia 5 de maio.

Ponte Hercílio Luz na série de reportagens sobre Victor Konder e Ruth Ramos
Reprodução, Diário Catarinense.

Ponte Hercílio Luz leva Victor Konder para o ministério

Era junho de 1926, o Brasil vivia o final do conturbado governo do presidente Arthur Bernardes e já tinha um sucessor eleito – Washington Luiz, escolhido sem real disputa. No ciclo “café com leite”, depois do mineiro Bernardes, era a vez do então governador paulista. Entre a eleição em março e a posse em setembro, Washington viajou o Brasil, incluindo no roteiro as cidades catarinenses de Joinville, Blumenau e Florianópolis.

Os blumenauenses prepararam um banquete e colocaram Victor Konder para discursar ao presidente eleito. Washington lembrou-se dele, da época em que despontou como promessa na Faculdade de Direito paulista. Victor fez jus à fama e brilhou em seu discurso.

Narrou ao presidente eleito como um grupo de colonizadores alemães transformou Blumenau em uma bela e ordeira cidade de 93 mil habitantes e 30 mil quilômetros de estradas internas, que conseguia a proeza de investir 80,5% de tudo que arrecadava.

Washington ficou impressionado. Ficaria ainda mais com o que veria no dia seguinte, em Florianópolis.

O orgulho dos catarinenses pela Ponte Hercílio Luz, recém-inaugurada, era tão grande que a festa para receber o presidente foi feita na cabeceira continental. Quando ele chegou, por volta do meio-dia, estavam lá as autoridades, com direito a banda de música e participação popular.

Washington não conseguiu esconder o entusiasmo pela nova ponte. Recebido no Palácio do Governo pelo governador Antonio Pereira e Oliveira, lembrou em seu discurso que seu mote era “governar é construir estradas”. Via o futuro sob as rodas dos automóveis. 

Depois de mais alguns discursos e visitas, Washington decidiu voltar para à Ponte Hercílio Luz em que fora recebido para uma visita mais detalhada. Desceu do carro e contemplou as várias peças que formavam a maravilhosa estrutura metálica da quinta maior ponte pênsil do planeta. A bengala, sempre a mão, deve ter sido utilizada para pequenas batidas no metal.

O presidente ainda olhou demoradamente para a vista das duas baías da Ilha de Santa Catarina, tão exuberantes quanto a construção. Voltou de carro para o Palácio, onde seguiu a programação de discursos e banquetes. Embarcou para o Rio Grande do Sul por volta das 23h, novamente com direito a banda de música. Levou de Florianópolis aquela imagem e uma surpreendente ideia na cabeça.

Era 13 de outubro de 1926, quatro meses depois da visita do presidente eleito Washington Luiz. Florianópolis acordou com um boato, que no início da tarde vira rumor e se confirma como notícia antes do anoitecer: um telegrama do Rio de Janeiro confirmava que o catarinense Victor Konder seria o novo ministro de Viação e Obras Públicas.

“Mas quem é Victor Konder?”

A pergunta era recorrente no Rio de Janeiro naquele outubro de 1926. Washington Luiz havia escolhido um desconhecido para ser ministro de Viação e Obras Públicas.

Mesmo entre parlamentares aliados, o desconhecimento era amplo. “É um notável engenheiro”, garantiu o senador Francisco da Cunha Machado, do Maranhão, em uma roda de políticos – ignorando que o catarinense era advogado. Para outro grupo, o senador João Lyra, do Rio Grande do Norte, chegou a dizer que Victor era o “Rui Barbosa de Santa Catarina”. Ouviu, de pronto, a resposta e a gargalhada geral:

– Mas que epidemia de Ruis tem aparecido.

A curiosidade seria saciada em 5 de novembro, com a posse de Victor na Câmara dos Deputados. A expectativa foi tratada de maneira jocosa no Correio da Manhã (“mal correu a nova de que ele se achava na casa, foi um reboliço medonho”) e no A Manhã (“até parecia o menino Deus entre os doutores”).

O catarinense não era o único ministro a chamar atenção e ser alvo de ironias. O jornalista Mário Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, apelidou o grupo de “o ministério das negações espontâneas”, especulando que o presidente escolhia auxiliares fracos para mandar sem intermediários.

Além de Victor, estava na mira a escolha de um obscuro deputado federal gaúcho para o Ministério da Fazenda. Seu nome era Getúlio Vargas. 


Esse é um trecho dos capítulos três e quatro dos textos originais, não editados, da série “Victor e Ruth: romance que moldou a política catarinense”, publicada no Diário Catarinense entre 19 e 25 de janeiro de 2014. Em breve o texto completo, revisado e ampliado, terá uma nova edição.

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