01/06/2026

Os 100 anos da Ponte Hercílio Luz e a programação que não entendeu o público

O contraste entre o público abaixo da expectativa no show de Joss Stone e a superlotação do festival de música eletrônica na Cabeceira da Ponte expõe falhas de curadoria, planejamento e compreensão da cena cultural de Florianópolis.

A celebração dos 100 anos da Ponte Hercílio Luz deixou uma pergunta inevitável para quem acompanhou a programação durante o mês de maio em Florianópolis: quem planejou os eventos realmente conhecia o público que pretendia mobilizar?

A comparação entre duas das principais atrações musicais das comemorações expõe um contraste difícil de ignorar.

De um lado, a Prefeitura de Florianópolis trouxe a cantora britânica Joss Stone para um show gratuito na Beira-Mar Continental, no dia 16 de maio. Artista consagrada e dona de uma carreira internacional respeitável, Joss está longe, porém, de ocupar atualmente espaço entre os nomes mais consumidos pelo público brasileiro ou de figurar entre os principais destaques das plataformas de streaming.

Do outro lado da Ponte, o evento Sekreta, realizado neste domingo, 31, reuniu milhares de pessoas na Cabeceira da Ponte para assistir apresentações de artistas que hoje estão entre os nomes mais relevantes da música eletrônica mundial, como o norte-americano ACRAZE, responsável por sucessos que acumulam bilhões de reproduções nas plataformas digitais.

O resultado foi visível.

Enquanto o show de Joss Stone reuniu um público aquém da mobilização esperada para uma das atrações centrais das comemorações, a região da Cabeceira da Ponte ficou completamente tomada pelo público. Em diversos momentos, a circulação tornou-se difícil diante da quantidade de pessoas concentradas em um espaço que claramente não foi planejado para receber aquela demanda.

A impressão que ficou é que os dois eventos foram dimensionados de forma inversa.

O show de Joss Stone recebeu estrutura ampla e espaço generoso. Já o Sekreta, apesar de contar com artistas em alta e com enorme capacidade de mobilização, parece ter sido tratado como um evento de porte muito menor do que realmente era.

Faltaram áreas de circulação mais amplas, estruturas de apoio compatíveis com o público presente e recursos simples, como telões que permitissem acompanhar as apresentações mesmo à distância. O número de banheiros também foi alvo de reclamações durante o evento.

Em determinado momento da programação, a concentração de pessoas foi tão grande que houve necessidade de interromper temporariamente as apresentações para que a situação fosse reorganizada.

O próprio prefeito Topázio Neto reconheceu os problemas registrados durante o evento. Em manifestação nas redes sociais, afirmou que a Prefeitura foi “vítima do próprio sucesso”, diante de um público muito superior ao esperado.

“Outros eventos do tipo deram certo naquele local, dessa vez não. É preciso reconhecer e pedir desculpa”, escreveu o prefeito.

O reconhecimento público reforça a principal crítica feita por quem esteve no evento: a de que a estrutura e o espaço escolhidos não estavam preparados para receber uma demanda dessa dimensão.

O episódio reforçou uma sensação compartilhada por muitos dos presentes: o evento foi subdimensionado.

A situação chama ainda mais atenção porque Florianópolis não é uma cidade novata quando o assunto é música eletrônica. Pelo contrário. A Capital construiu ao longo das últimas décadas uma reputação nacional e internacional ligada ao segmento, abriga alguns dos principais clubes do país e recebe regularmente eventos do gênero capazes de atrair milhares de turistas.

A discussão não é sobre qualidade artística.

Joss Stone é uma artista reconhecida mundialmente e sua presença certamente agrega valor cultural à programação. O debate está na escolha das atrações, na estrutura oferecida e na capacidade de leitura do cenário cultural atual da cidade.

A questão que permanece é simples: se o objetivo era criar grandes encontros populares para celebrar o centenário da Ponte Hercílio Luz, a programação fez as escolhas corretas?

As cenas registradas ao longo da programação comemorativa parecem indicar que o público tinha uma resposta diferente daquela imaginada pelos organizadores.

E talvez o maior aprendizado das comemorações dos 100 anos da Ponte esteja justamente aí: não basta investir em atrações ou montar uma grande programação. É preciso compreender o que mobiliza a cidade e dimensionar os eventos de acordo com essa realidade.

Para uma celebração histórica, faltou algo fundamental.

Entender quem, de fato, estava disposto a atravessar a Ponte para comemorar.

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