
A semana não começou com discurso. Começou com cobrança.
A reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária foi direta ao ponto: o agro brasileiro entrou em uma zona de risco e não dá mais para empurrar.
Com crédito travado, endividamento crescente e margens comprimidas, a bancada recebeu o novo ministro André de Paula com uma missão clara:
transformar diálogo em resposta.
E a jornalista Ketrin Raitz, parceira desta coluna, estava lá, acompanhando tudo de perto.
FPA entrega a conta e lista completa de reivindicações
Nada de recado indireto.
A bancada entregou ao ministro um ofício com 15 pontos objetivos, que desenham o que hoje é prioridade para o setor:
- Revisão das resoluções do Conselho Monetário Nacional (CMN) que restringem o crédito rural com base exclusiva no Prodes;
- Garantia de que o Pronara tenha caráter apenas consultivo, sem sobreposição ao Ministério da Agricultura;
- Definição de cronograma para regulamentações das leis de pesticidas, autocontrole e bioinsumos;
- Ampliação do Plano Safra, com mais acesso ao crédito para pequenos e médios produtores;
- Construção de soluções estruturantes para o endividamento rural;
- Publicação de lista complementar de insumos com redução de 60% nas alíquotas de IBS e CBS;
- Participação ativa na atualização da lista de espécies exóticas invasoras;
- Revisão da portaria sobre classificação e comercialização de morangos;
- Atuação nas negociações do regulamento europeu de desmatamento (EUDR);
- Maior participação do setor produtivo em acordos comerciais;
- Esclarecimentos sobre rastreabilidade de pesticidas;
- Revisão da norma de certificação de grãos, mantendo caráter opcional;
- Cronograma para o sistema eletrônico SISPA;
- Regulamentação do uso de drones na agropecuária;
- Solução para compensação de auditores fiscais agropecuários.
Não é uma pauta. É um diagnóstico completo do setor.
Endividamento vira eixo central e R$ 30 bilhões já não bastam
O tom da reunião deixou claro: o problema é maior do que o previsto.
A aposta da bancada é o PL 5.122/2023, que pode liberar cerca de R$ 30 bilhões para repactuação.
Mas nem isso é suficiente.
O presidente da FPA, Pedro Lupion, foi direto:
“Os R$ 30 bilhões previstos já são completamente insuficientes para o tamanho do problema enfrentado.”
Tradução: não é ajuste, é socorro.
Pressão aumenta e o recado vem de todos os lados
A reunião foi além do formal. Virou um desabafo coletivo.
Lupion cobrou ação e o deputado Rafael Pezenti (MDB-SC) puxou um dos pontos mais sensíveis:
“As novas regras do Prodes precisam ser revistas com urgência. É uma medida contraditória que dificulta o acesso ao crédito.”
Outros parlamentares reforçaram o cenário:
- produtores endividados
- dificuldade de acesso ao crédito
- risco de não conseguir plantar a próxima safra
O diagnóstico é unânime: o agro está produzindo, mas não está conseguindo financiar.
Ministro fala em reaproximação e promete diálogo
Diante da pressão, o ministro André de Paula adotou o tom esperado:
“Tenho disposição para construir essa relação e avançar no diálogo com a bancada.”
A proposta é retomar reuniões periódicas com a FPA e ampliar a participação do setor nas decisões.
Agora, o setor espera mais do que conversa: espera execução.
Alho cobra isonomia e exige ação imediata
Entre as pautas mais urgentes, o alho ganhou protagonismo.
Presente na reunião e em entrevista exclusiva à Ketrin Raitz, o presidente da Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa), Rafael Jorge Corsino, foi claro: elogiou o ministro, mas cobrou ação.
“É um ministro de diálogo, mas agora esperamos medidas concretas.”
Na mesa, duas prioridades:
- investigação antidumping contra o alho argentino
- revisão do compromisso de preço do alho chinês
O diagnóstico do setor:
- aumento acelerado das importações
- práticas comerciais desleais
- irregularidades operacionais
O pedido é direto: isonomia.
Se há restrição ao produto chinês, o setor quer o mesmo tratamento ao argentino.
E mais: há denúncias de descumprimento das regras já existentes, o que agrava ainda mais a concorrência.
No campo, a leitura é simples: não é só comércio. É sobrevivência.
Santa Catarina aposta em inovação e amplia competitividade
Enquanto Brasília discute regras, Santa Catarina segue inovando.
O Ministério da Agricultura e Pecuária registrou uma nova variedade de banana desenvolvida no estado: a SCS455 banana Clarinha.
Resultado de mutação natural identificada pela Epagri, a cultivar apresenta:
- menor escurecimento
- melhor conservação
- potencial comercial ampliado
Ou seja, é mais valor na prateleira.
O agro falou e agora é a vez de Brasília agir
A reunião da FPA não deixou dúvida.
O agro não está pedindo incentivo.
Está pedindo condição de continuar existindo.
O crédito travou.
O custo subiu.
O mercado pressionou.
E agora, o setor bate à porta com uma lista clara do que precisa.
Porque, no fim, o maior risco do agro hoje não está na produção, está no tempo da resposta.
E o campo, já sabemos, não espera.





