20/05/2026

“Dia do Agro” pressiona Congresso por crédito, seguro e dívidas; Senado decide socorro bilionário com dinheiro do pré-sal

O Senado virou a última trincheira de um agro que tenta sobreviver entre clima, juros e margem apertada

O agronegócio brasileiro chegou a um ponto em que o debate deixou de ser expansão e passou a ser sobrevivência financeira.

Depois de sucessivos eventos climáticos, juros elevados e queda nos preços das commodities, o setor pressiona Brasília por uma solução estrutural para o endividamento rural. E a principal aposta agora está no Senado Federal.

A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) vota nesta quarta-feira, o projeto que autoriza o uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para financiar produtores atingidos por eventos climáticos. A proposta virou peça central da ofensiva da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) para evitar um colapso financeiro em parte do campo brasileiro.

Enquanto isso, o Congresso vive o chamado “Dia do Agro”, uma mobilização inédita da bancada ruralista para tentar acelerar pautas consideradas estratégicas para crédito, seguro rural, fertilizantes, cooperativas e gestão de risco no campo.

No meio da disputa política, uma conta preocupa o governo: dependendo do formato final, a renegociação das dívidas pode gerar impacto superior a R$ 150 bilhões aos cofres públicos já em 2027.

Pré-sal pode virar linha de socorro para produtores afetados pelo clima

A CAE marcou para esta quarta-feira (20) a votação do Projeto de Lei 5.122/2023, que cria uma linha especial de financiamento para produtores rurais atingidos por eventos climáticos extremos utilizando recursos do Fundo Social do Pré-Sal.

O texto é de autoria do deputado Domingos Neto e tem relatoria do senador Renan Calheiros, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos.

A proposta já passou pela Câmara, mas sofreu ajustes no Senado depois de forte pressão do Ministério da Fazenda e de técnicos do governo preocupados com o impacto fiscal da medida.

A votação prevista para ontem, 19, acabou adiada após pedido de vista dos senadores Eduardo Braga e Tereza Cristina. Segundo Tereza, o objetivo das alterações é encontrar alternativas que permitam ao governo viabilizar a renegociação sem provocar desequilíbrio ainda maior nas contas públicas.

“Todos sabem da necessidade de resolver um problema tão importante para o país”, afirmou a senadora durante a discussão do projeto.

O Fundo Social do Pré-Sal, criado pela Lei 12.351/2010, recebe recursos da exploração do petróleo e financia áreas como educação, saúde, meio ambiente e adaptação climática. Pelo texto, parte das receitas correntes e dos superávits acumulados poderá ser usada para estruturar a nova linha de financiamento rural.

Entre as emendas apresentadas, ganhou destaque a proposta do senador Jaime Bagattoli, que reduz exigências burocráticas para habilitação de municípios e equipara as taxas de juros às operações já praticadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Conta da renegociação pode ultrapassar R$ 800 bilhões em 13 anos

Se para o produtor o projeto virou esperança, para o governo ele virou preocupação fiscal.

Os cálculos encaminhados ao gabinete de Renan Calheiros indicam que o programa pode gerar impacto de aproximadamente R$ 150 bilhões à União já em 2027 e alcançar cerca de R$ 817 bilhões ao longo de 13 anos.

A estimativa considera um universo potencial de até R$ 1,39 trilhão em dívidas rurais envolvendo crédito agrícola, Cédulas de Produto Rural (CPRs), operações com cooperativas, fornecedores de insumos e financiamentos ligados à atividade agropecuária.

O governo teme que critérios muito amplos acabem permitindo a adesão de produtores sem perdas recentes relevantes, apenas interessados em trocar dívidas caras por linhas subsidiadas.

Do outro lado, entidades do setor afirmam que a situação no campo já chegou ao limite.

Segundo dados apresentados nas negociações, a inadimplência no agro saltou de 3,54% em outubro de 2024 para cerca de 11,4% atualmente.

A proposta em discussão prevê:

  • prazo de até 10 anos para pagamento;
  • três anos de carência;
  • juros de 3,5% ao ano para agricultura familiar;
  • 5,5% para médios produtores;
  • 7,5% para demais produtores e cooperativas.

Renan Calheiros argumenta que o projeto responde aos efeitos acumulados de eventos climáticos extremos que, segundo dados apresentados no Senado, causaram prejuízos superiores a R$ 732 bilhões entre 2013 e 2024.

Produtores relatam quebra de safra, juros de 76% e venda de patrimônio

Enquanto Brasília negocia números bilionários, no campo a realidade já virou desespero financeiro.

Produtores do Rio Grande do Sul relataram ao Senado sucessivas perdas causadas por estiagens e enchentes desde 2022. Em algumas regiões, lavouras projetadas para 40 sacas por hectare entregaram apenas entre 15 e 20 sacas.

A estratégia encontrada por muitos agricultores foi reorganizar a produção, ampliar pecuária, investir em culturas alternativas e tentar reduzir dependência bancária por meio de CPRs negociadas diretamente com fornecedores.

Mesmo assim, o fluxo de caixa segue comprometido.

“Dia do Agro” pressiona Congresso por pacote de pautas prioritárias

Em paralelo à votação da renegociação, a Frente Parlamentar da Agropecuária organizou uma ofensiva política no Congresso apelidada de “Dia do Agro”.

A coluna, Política e Agro acompanhou a reunião-almoço da FPA realizada nesta terça-feira (19), onde parlamentares e lideranças do setor discutiram a estratégia política para destravar os projetos prioritários do setor.

A estratégia foi articulada entre o presidente da FPA, Pedro Lupion, e o presidente da Câmara, Hugo Motta.

O objetivo é acelerar projetos considerados estratégicos para o setor, especialmente:

  • modernização do seguro rural;
  • gestão de risco de crédito rural;
  • acesso de cooperativas a fundos regionais;
  • incentivo à indústria de fertilizantes;
  • regras ambientais;
  • regularização fundiária;
  • e renegociação de dívidas.

Entre os projetos prioritários está o PL 2.951/2024, que moderniza o seguro rural e amplia cobertura para perdas causadas por fenômenos naturais, doenças, pragas e danos estruturais em propriedades.

A bancada ruralista tenta transformar a semana em um marco político para o setor, antes da construção do próximo Plano Safra.

Política e Agro na AgroBrasília

A AgroBrasília 2026 começou oficialmente nesta terça-feira (19) e segue até sábado (23), no Parque Tecnológico Ivaldo Cenci, no Distrito Federal, reunindo produtores, cooperativas, empresas, pesquisadores e representantes do setor agropecuário de todo o país. O Política e Agro também está lá!

Organizada pela Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF), a feira apresenta novidades em máquinas, genética, irrigação, agricultura de precisão, biotecnologia, sustentabilidade e integração lavoura-pecuária-floresta.

A programação também inclui debates técnicos, agricultura familiar, inovação e acesso a mercados internacionais.

Entre os destaques, o 1º Encontro da Baunilha do Distrito Federal, promovido pela Embrapa; o Seminário Brasil-Portugal sobre negócios agroalimentares e mercado europeu, marcado para quarta-feira (21); e o 4º Encontro de Mulheres do Agro, na sexta-feira (22).

Na sexta-feira, dia 22, às 10h, a jornalista Ketrin Raitz participa da programação em palestra voltada à produção de conteúdo digital para profissionais da agronomia e engenharia.

A atividade integra as comemorações dos 59 anos da Associação dos Engenheiros Agrônomos do Distrito Federal (AEA-DF) e conta com apoio do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Distrito Federal (CREA-DF).

Santa Catarina conquista 11ª Indicação Geográfica com o Frescal de São Joaquim

Santa Catarina ampliou nesta semana sua lista de produtos reconhecidos nacionalmente por origem e tradição.

O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu ao Frescal de São Joaquim o selo de Indicação Geográfica na modalidade Indicação de Procedência.

A carne salgada e dessecada típica da Serra Catarinense tornou-se a 11ª Indicação Geográfica do estado.

Segundo o secretário de Agricultura e Pecuária de Santa Catarina, Admir Dalla Cort, o reconhecimento fortalece identidade regional, agrega valor à produção e amplia oportunidades comerciais para os produtores locais.

O Frescal já havia sido reconhecido anteriormente com o Selo Arte e também foi declarado patrimônio cultural catarinense.

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