18/02/2026

Mudanças climáticas e infraestrutura das escolas: uma agenda inadiável

Sempre que falo com familiares no Brasil surge a pergunta sobre o clima na Califórnia. A curiosidade é natural diante das notícias de nevascas em Nova Iorque e Chicago, onde um dos meus filhos estuda. Aqui, as temperaturas variam entre 6ºC e 21ºC, com dias agradáveis. No Brasil, porém, o cenário é outro: ondas de calor que ultrapassam os 40ºC justamente no início do ano letivo.

Essa realidade me fez retomar uma reflexão que havia deixado na gaveta: como as mudanças climáticas estão impactando diretamente a aprendizagem de nossas crianças e jovens.

O Anuário da Educação Brasileira 2025, do Todos Pela Educação, traz dados contundentes. Após as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul — que fecharam mais de mil escolas estaduais — o percentual de crianças alfabetizadas caiu de 63,4% para 44,7%. No restante do país, ao contrário, houve crescimento. Eventos climáticos extremos já não são exceção; tornaram-se parte do contexto educacional brasileiro, especialmente em estados como Santa Catarina.

As ondas de calor também produzem efeitos silenciosos, porém cumulativos. Estudo do Instituto Alana e do MapBiomas mostra que 8,16% das escolas de Florianópolis estão em áreas com temperatura ao menos 3,57ºC acima da média urbana. Em Manaus, esse índice chega a 77,7%. O calor extremo reduz a concentração, limita atividades físicas e compromete o rendimento escolar.

Segundo estimativas citadas pelo Banco Mundial, estudantes dos 10% de municípios mais quentes do país perdem, em média, 1% da aprendizagem por ano devido ao calor excessivo. Ao final do Ensino Médio, isso pode representar até um ano e meio letivo perdido.

Infraestrutura escolar, portanto, não é um detalhe administrativo — é variável estratégica de política educacional.

O planejamento precisa considerar localização, arquitetura bioclimática, climatização adequada e redes elétricas preparadas para suportar a instalação de equipamentos. Não por acaso, o BID já incorpora o critério de resiliência climática na análise de investimentos educacionais.

No Brasil, apenas 42% das escolas possuem salas climatizadas. São Paulo apresenta índice de apenas 13%. Santa Catarina, com 72%, parte de uma posição relativamente mais favorável, embora ainda haja desafios importantes.

Além disso, os dados de infraestrutura básica revelam avanços em itens como banheiros, água potável e energia elétrica, mas expõem fragilidades graves no saneamento: menos da metade das escolas públicas está conectada à rede pública de esgoto. Em Santa Catarina, o índice é de 58% — acima da média nacional, porém inferior ao observado em outros estados do Sul e do Sudeste. Em períodos de calor extremo, ausência de saneamento adequado também significa risco direto à saúde da comunidade escolar.

Isso revela uma verdade incômoda: a qualidade educacional depende de políticas que vão além da Secretaria de Educação. Saneamento, energia, planejamento urbano e infraestrutura são políticas educacionais indiretas, mas decisivas.

Garantir ambientes adequados de aprendizagem exige ação coordenada entre órgãos públicos e empresas concessionárias. Sem rede de esgoto disponível, não há conexão possível. Sem rede elétrica adequada, não há climatização eficiente.

Cuidar da escola é responsabilidade de todo o aparato público. Educação de qualidade se constrói com currículo, professores e gestão — mas também com infraestrutura resiliente, planejamento urbano e compromisso coletivo.

Num contexto de mudanças climáticas cada vez mais intensas, ignorar essa dimensão significa comprometer o futuro educacional do país.

Em tempo

Na coluna de 23 de dezembro apresentei uma lei da Austrália que proíbe o acesso de menores de 16 anos às redes sociais e discuti os impactos dessas plataformas e do uso de celulares nas escolas sobre a aprendizagem de crianças e jovens. Essa preocupação chegou ao Brasil. O deputado federal Maurício Neves apresentou na Câmara dos Deputados um projeto de lei que insere a proibição de acesso às redes sociais no chamado ECA Digital, iniciativa que estabelece regras de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

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