Como já havia mencionado em colunas anteriores, encontro-me atualmente na Califórnia, onde permanecerei até abril como Visiting Scholar na Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, com apoio do Lemann Center. Trata-se de uma oportunidade singular para aprofundar conhecimentos em educação em uma das universidades mais prestigiadas do mundo. Um colega que me antecedeu no programa definiu Stanford como a “Disneylândia” da educação — expressão que resume bem a diversidade e a intensidade da oferta acadêmica disponível.

A universidade oferece mais de 26 mil disciplinas em diferentes áreas do conhecimento, permitindo que cada estudante ou pesquisador construa percursos formativos altamente personalizados. Apenas no campo da educação, são mais de 3.500 opções, que vão da neurociência aplicada à aprendizagem à inteligência artificial na educação, sem deixar de lado temas clássicos como avaliação educacional, ensino de matemática e gestão escolar. Optei por concentrar meus estudos em reforma educacional, avaliações internacionais, inteligência artificial e empreendedorismo.
Paralelamente às atividades acadêmicas, desenvolvo pesquisas sobre a reforma educacional em curso no Brasil, especialmente no que se refere à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ao novo ensino médio. Essa experiência reforça a percepção de que reformas educacionais bem-sucedidas exigem articulação entre evidências empíricas, contexto político e capacidade institucional.
Stanford impressiona não apenas pela excelência acadêmica, mas também por sua estrutura. O campus ocupa uma área de 33,1 km² — para comparação, o campus da UFSC, em Florianópolis, tem cerca de 1 km² — e combina arquitetura sofisticada, infraestrutura moderna, transporte interno gratuito e uma vida universitária intensa. São aproximadamente 18 mil estudantes, metade deles na pós-graduação, incluindo cerca de 4 mil estrangeiros, além de aproximadamente 1.800 scholars que passam anualmente pela instituição.
Entre os cursos que mais chamaram minha atenção está o de Empreendedorismo na Educação, ministrado pela professora Joy Chen, que atua como Entrepreneur-in-Residence. Pioneira em pesquisas sobre aprendizagem online e digital, Chen acompanha de perto as tendências das edtechs e investiga como as tecnologias podem aprimorar os processos educacionais. O curso combina fundamentos teóricos e análises práticas com encontros entre estudantes, empreendedores e investidores de empresas inovadoras do Vale do Silício e de outros países — incluindo, em breve, a participação de Cláudio Sassaki, empreendedor brasileiro e um dos fundadores da Geekie.
O pano de fundo dessas discussões é um mercado educacional global estimado, em 2025, em US$ 7,3 trilhões, com projeção de alcançar US$ 10 trilhões em 2030. Quase 60% desses recursos concentram-se na educação básica. O Brasil, com investimentos anuais entre US$ 95 e 106 bilhões, destaca-se como líder regional, enquanto os Estados Unidos lideram em volume financeiro, a China em número de estudantes e a Índia em ritmo de crescimento.
Na educação infantil, observa-se uma demanda crescente dos pais por aprendizagem na primeira infância e preparação para a escolarização, ao mesmo tempo em que a escassez de professores qualificados se impõe como desafio crítico. No ensino fundamental e médio, o crescimento populacional em mercados emergentes impulsiona a expansão do setor, mas a adoção lenta de inovações nos sistemas públicos limita avanços mais consistentes. Já no ensino superior, cresce o questionamento sobre o valor dos diplomas, sobretudo diante do desalinhamento entre formação acadêmica e demandas do mercado de trabalho.
Esse cenário abre espaço para a expansão da aprendizagem corporativa e ao longo da vida. A rápida obsolescência de competências — especialmente em áreas como inteligência artificial, ciência de dados e ferramentas digitais, que se tornam defasadas em um intervalo de um a três anos — desafia os modelos tradicionais de formação continuada. Não por acaso, as edtechs ganham protagonismo: hoje representam cerca de 4% do mercado educacional global, com crescimento projetado de quase 14% ao ano.
Se antes o foco dessas empresas estava em conectar estudantes em escala, por meio de cursos online, plataformas globais e aprendizagem baseada em vídeo, o movimento atual aponta para experiências mais interativas e adaptativas. Tutores e copilotos baseados em inteligência artificial, capazes de personalizar percursos e oferecer feedback contínuo, tendem a redefinir a forma como se aprende. Como em outros setores, a IA terá papel central nas transformações educacionais, tornando cada vez mais urgente preparar estudantes para atuar em um mundo profundamente conectado e mediado por sistemas inteligentes.
Em tempo
Mesmo à distância, sigo acompanhando os acontecimentos no Brasil, em especial em Santa Catarina. Dois temas recentes mobilizaram fortemente o debate público: a violência contra o cão Orelha e a lei que proíbe cotas raciais no estado. Sobre a violência contra os animais, pouco há a acrescentar às análises já feitas pelos meu colegas aqui do Portal Upiara, além de reforçar que a educação das crianças continua sendo a principal ferramenta para prevenir situações semelhantes no futuro.
Quanto às cotas raciais, a redução das desigualdades e a promoção da equidade educacional constituem um dos eixos centrais do curso de Tópicos em Educação Brasileira que acompanho em Stanford. Trata-se de um tema complexo e relevante, que exige análise cuidadosa e fundamentada. Por essa razão, sigo aprofundando estudos e evidências para tratar do assunto de forma mais consistente em breve.





