07/02/2026

Vinho catarinense: expectativa é de uma das melhores safras da história em 2026

Sim, eu reclamei do  frio prolongado que tivemos em 2025. Quem vive em Santa Catarina, na altura do mar, como eu, certamente estranhou o inverno atípico com longos períodos de frio intenso. Mas se por aqui, o atraso do verão pode ter sido ruim, na serra catarinense foi motivo de comemoração. As condições climáticas dos últimos meses animaram produtores e prometem uma das melhores safras de vinhos finos da história de Santa Catarina. 

O frio prolongado favoreceu a dormência das videiras, a primavera foi equilibrada e o verão tem oferecido dias ensolarados e noites frias – a famosa amplitude térmica tão importante para as uvas que crescem na altitude. 

“Essas condições contribuem para uma maturação lenta e uniforme das uvas, excelente concentração de compostos fenólicos, boa acidez natural e aromas mais intensos e elegantes”, explica Thaís Gaudio, diretora de marketing da Associação Vinhos de Altitude de Santa Catarina, que reúne os principais produtores da região. A expectativa é de vinhos mais estruturados, frescos e com potencial de guarda.

Hoje, os produtores de altitude catarinenses somam uma produção anual próxima de 1 milhão de garrafas, com crescimento gradual impulsionado pela entrada de novos vinhedos em produção e pelo amadurecimento de áreas jovens.

É hora de colher uvas

Dentro de poucos dias, quando a maioria de nós estiver retomando o ritmo da vida pós-carnaval, uma movimentação intensa terá tomado conta das regiões produtoras de vinho. É o início da vindima, período de colheita das uvas que vão dar origem à safra 2026.

Na serra catarinense, o ciclo da vindima se estende até maio, variando conforme altitude, tipo de uva e estilo de vinho. É um período decisivo para quem produz, quando o trabalho de um ciclo inteiro passa pelo teste final.

Na Vinícola Thera, em Bom Retiro, o planejamento já está afinado. “Devemos iniciar a colher dentro de uns dez dias, começando pelas variedades brancas destinadas aos espumantes”, explica Abner Zeus de Freitas, CEO da vinícola. A colheita deve se estender até o fim de março ou início de abril, com Montepulciano e Cabernet Franc fechando o ciclo.

A colheita das uvas para vinhos finos no Oeste de Santa Catarina também ocorre entre fevereiro e março. Estefânia Panceri, diretora-geral da vinícola Panceri, de Tangará, explica que, por lá, as condições do clima no último ano também foram favoráveis e o volume de uva será maior do que o dos anos anteriores.

Crédito: Divulgação/Vinícola Thera

Colheita manual e pressão por tempo

Apesar dos avanços tecnológicos na vitivinicultura, a colheita na Serra Catarinense segue sendo majoritariamente manual. Colher à mão permite selecionar os cachos no ponto ideal de maturação, preservar a sanidade das uvas e garantir que só a melhor matéria-prima chegue à vinícola. Esse cuidado, porém, tem custo alto e exige planejamento preciso.

Na Vinícola Monte Agudo, em São Joaquim, além da mão de obra especializada, há todo um cuidado físico com a uva. A colheita é feita em caixas plásticas de no máximo 13 quilos, para evitar que as bagas se amassem no transporte. Agora imagine colher cerca de 7 toneladas por hectare (o volume esperado pela vinícola para esta safra) usando caixas desse tamanho. É um trabalho intenso, repetitivo e que precisa acontecer rapidamente.

As janelas de colheita são curtas e qualquer atraso pode comprometer a qualidade do vinho. Por isso, não basta ter pessoas especializadas, é preciso ter gente suficiente no momento certo.

Na Monte Agudo, o modelo é misto: equipes fixas são reforçadas por trabalhadores temporários durante a vindima. E a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada é um desafio: “Cada dia fica mais difícil encontrar gente para a colheita”, relata Carolina Ferraz, enóloga responsável. 

Já a Vinícola Thera, em Bom Retiro, opta por trabalhar exclusivamente com equipe interna, que acompanha o vinhedo ao longo de todo o ano. “Isso garante mais consistência no manejo, preservação do conhecimento técnico e menor dependência de contratações sazonais”, afirma Abner.

Reconhecimento nem sempre chega até a taça

Apesar do crescimento do interesse por vinhos brasileiros e do avanço do enoturismo no estado, o trabalho de quem está na lavoura ainda é pouco percebido pelo consumidor final.

Estefânia Panceri explica a complexidade do trabalho que envolve diversos setores: “atuamos no setor primário, com o cultivo das uvas, no secundário com a indústria, e no terciário com a prestação de serviços de turismo. Todos os dias temos que nos desdobrar muito para fazer tudo acontecer”, destaca.  

Carolina Ferraz, da Monte Agudo, concorda: “Grande parte das pessoas não faz ideia do trabalho que existe até o vinho chegar engarrafado. E por não conhecer o processo, acaba achando que o vinho é caro”. 

Abner, da Vinícola Thera, destaca que aproximar o consumidor da realidade da produção é essencial. “A qualidade final do vinho começa no cuidado diário com a terra e com as uvas. Sem isso, nada acontece na adega”. 

Vindima reforça o valor do vinho

Além de ser o período mais intenso do ano no campo, a vindima se tornou também um momento estratégico para essa aproximação entre consumidores e produtores. É o momento em que amantes de vinho podem ter experiências especiais nas vinícolas, observando de perto detalhes do processo produtivo. 

Entre fevereiro e maio, diversas vinícolas da Serra Catarinense oferecem programação especial, com experiências que vão além da simples degustação. Há passeios pelos vinhedos, refeições harmonizadas, atrações musicais e picnic junto aos vinhedos, dias inteiros de programação. 

A Associação Vinhos de Altitude de Santa Catarina também promove o Festiva Vinho e Arte onde produtores de 22 vinícolas da região colocam seus vinhos para degustação em um grande pavilhão festivo.

A lista das vinícolas que oferecem programação especial e a programação do Festival Vinho e Arte estão no Instagram da Associação

“A vindima cumpre múltiplos papéis, aproxima o público das vinícolas, gera mídia espontânea, fortalece a marca regional, amplia vendas diretas e posiciona Santa Catarina como origem de vinhos finos de clima frio”, aponta a diretora de marketing da Associação, Thaís Gaudio.

Estefânia Panceri aponta ainda um excelente argumento para atrair os visitantes na época da vindima: “ É quando podemos ver a uva no pé e ainda nos deliciar com o cheirinho que elas deixam no ar, é maravilhoso!”

Com certeza, não há melhor período e cenário mais bonito para degustar um bom vinho e se encher de orgulho da nossa produção local. 

Tim, tim!

Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram

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