Sim, eu reclamei do frio prolongado que tivemos em 2025. Quem vive em Santa Catarina, na altura do mar, como eu, certamente estranhou o inverno atípico com longos períodos de frio intenso. Mas se por aqui, o atraso do verão pode ter sido ruim, na serra catarinense foi motivo de comemoração. As condições climáticas dos últimos meses animaram produtores e prometem uma das melhores safras de vinhos finos da história de Santa Catarina.
O frio prolongado favoreceu a dormência das videiras, a primavera foi equilibrada e o verão tem oferecido dias ensolarados e noites frias – a famosa amplitude térmica tão importante para as uvas que crescem na altitude.
“Essas condições contribuem para uma maturação lenta e uniforme das uvas, excelente concentração de compostos fenólicos, boa acidez natural e aromas mais intensos e elegantes”, explica Thaís Gaudio, diretora de marketing da Associação Vinhos de Altitude de Santa Catarina, que reúne os principais produtores da região. A expectativa é de vinhos mais estruturados, frescos e com potencial de guarda.
Hoje, os produtores de altitude catarinenses somam uma produção anual próxima de 1 milhão de garrafas, com crescimento gradual impulsionado pela entrada de novos vinhedos em produção e pelo amadurecimento de áreas jovens.
É hora de colher uvas
Dentro de poucos dias, quando a maioria de nós estiver retomando o ritmo da vida pós-carnaval, uma movimentação intensa terá tomado conta das regiões produtoras de vinho. É o início da vindima, período de colheita das uvas que vão dar origem à safra 2026.
Na serra catarinense, o ciclo da vindima se estende até maio, variando conforme altitude, tipo de uva e estilo de vinho. É um período decisivo para quem produz, quando o trabalho de um ciclo inteiro passa pelo teste final.
Na Vinícola Thera, em Bom Retiro, o planejamento já está afinado. “Devemos iniciar a colher dentro de uns dez dias, começando pelas variedades brancas destinadas aos espumantes”, explica Abner Zeus de Freitas, CEO da vinícola. A colheita deve se estender até o fim de março ou início de abril, com Montepulciano e Cabernet Franc fechando o ciclo.
A colheita das uvas para vinhos finos no Oeste de Santa Catarina também ocorre entre fevereiro e março. Estefânia Panceri, diretora-geral da vinícola Panceri, de Tangará, explica que, por lá, as condições do clima no último ano também foram favoráveis e o volume de uva será maior do que o dos anos anteriores.

Colheita manual e pressão por tempo
Apesar dos avanços tecnológicos na vitivinicultura, a colheita na Serra Catarinense segue sendo majoritariamente manual. Colher à mão permite selecionar os cachos no ponto ideal de maturação, preservar a sanidade das uvas e garantir que só a melhor matéria-prima chegue à vinícola. Esse cuidado, porém, tem custo alto e exige planejamento preciso.
Na Vinícola Monte Agudo, em São Joaquim, além da mão de obra especializada, há todo um cuidado físico com a uva. A colheita é feita em caixas plásticas de no máximo 13 quilos, para evitar que as bagas se amassem no transporte. Agora imagine colher cerca de 7 toneladas por hectare (o volume esperado pela vinícola para esta safra) usando caixas desse tamanho. É um trabalho intenso, repetitivo e que precisa acontecer rapidamente.
As janelas de colheita são curtas e qualquer atraso pode comprometer a qualidade do vinho. Por isso, não basta ter pessoas especializadas, é preciso ter gente suficiente no momento certo.
Na Monte Agudo, o modelo é misto: equipes fixas são reforçadas por trabalhadores temporários durante a vindima. E a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada é um desafio: “Cada dia fica mais difícil encontrar gente para a colheita”, relata Carolina Ferraz, enóloga responsável.
Já a Vinícola Thera, em Bom Retiro, opta por trabalhar exclusivamente com equipe interna, que acompanha o vinhedo ao longo de todo o ano. “Isso garante mais consistência no manejo, preservação do conhecimento técnico e menor dependência de contratações sazonais”, afirma Abner.
Reconhecimento nem sempre chega até a taça
Apesar do crescimento do interesse por vinhos brasileiros e do avanço do enoturismo no estado, o trabalho de quem está na lavoura ainda é pouco percebido pelo consumidor final.
Estefânia Panceri explica a complexidade do trabalho que envolve diversos setores: “atuamos no setor primário, com o cultivo das uvas, no secundário com a indústria, e no terciário com a prestação de serviços de turismo. Todos os dias temos que nos desdobrar muito para fazer tudo acontecer”, destaca.
Carolina Ferraz, da Monte Agudo, concorda: “Grande parte das pessoas não faz ideia do trabalho que existe até o vinho chegar engarrafado. E por não conhecer o processo, acaba achando que o vinho é caro”.
Abner, da Vinícola Thera, destaca que aproximar o consumidor da realidade da produção é essencial. “A qualidade final do vinho começa no cuidado diário com a terra e com as uvas. Sem isso, nada acontece na adega”.
Vindima reforça o valor do vinho
Além de ser o período mais intenso do ano no campo, a vindima se tornou também um momento estratégico para essa aproximação entre consumidores e produtores. É o momento em que amantes de vinho podem ter experiências especiais nas vinícolas, observando de perto detalhes do processo produtivo.
Entre fevereiro e maio, diversas vinícolas da Serra Catarinense oferecem programação especial, com experiências que vão além da simples degustação. Há passeios pelos vinhedos, refeições harmonizadas, atrações musicais e picnic junto aos vinhedos, dias inteiros de programação.
A Associação Vinhos de Altitude de Santa Catarina também promove o Festiva Vinho e Arte onde produtores de 22 vinícolas da região colocam seus vinhos para degustação em um grande pavilhão festivo.
“A vindima cumpre múltiplos papéis, aproxima o público das vinícolas, gera mídia espontânea, fortalece a marca regional, amplia vendas diretas e posiciona Santa Catarina como origem de vinhos finos de clima frio”, aponta a diretora de marketing da Associação, Thaís Gaudio.
Estefânia Panceri aponta ainda um excelente argumento para atrair os visitantes na época da vindima: “ É quando podemos ver a uva no pé e ainda nos deliciar com o cheirinho que elas deixam no ar, é maravilhoso!”
Com certeza, não há melhor período e cenário mais bonito para degustar um bom vinho e se encher de orgulho da nossa produção local.
Tim, tim!
Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram





