
Pode confessar: você já ouviu falar em Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Pinot Noir…
Mas Goethe?
A maioria das pessoas nem sabe que isso é nome de uva. Muito menos que é uma variedade que produz vinhos que Santa Catarina pode ostentar como produto exclusivo. E talvez , justamente por isso, este seja o melhor momento para conhecê-la.
A safra 2025/2026 marca a primeira colheita da história sob a Denominação de Origem Vales da Uva Goethe, a primeira DO para vinhos de Santa Catarina, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Traduzindo: os vinhos produzidos naquela área delimitada do sul catarinense – que inclui Urussanga, Pedras Grandes, Morro da Fumaça, Cocal do Sul, Treze de Maio, Orleans, Nova Veneza e Içara – carregam um selo que atesta: este vinho, com esta uva, com estas características, só tem aqui.
É identidade reconhecida.
Vamos ao que interessa: a Goethe na taça
É um vinho diferente, sim. No nariz, costuma ser intensamente aromático. Fruta amarela madura, toques cítricos e uma presença marcante de flores brancas que lembram um verdadeiro buquê. (E vale reforçar: estamos falando de uma uva branca.)
Na boca, a história muda um pouco. E aqui está o ponto mais delicado de explicar.
O final pode trazer aquela lembrança do chamado “vinho colonial”. Mas atenção: não no sentido técnico de defeito ou simplicidade. É um traço afetivo, uma memória gustativa (quem está comigo nessa lembrança?). Algo que conversa com a história da imigração italiana no sul catarinense e com a tradição de vinhos feitos para a mesa, não para concursos e pontuações.
Talvez a melhor forma de explicar seja assim: a Goethe não tenta imitar um Sauvignon Blanc neozelandês nem um Riesling alemão. Ela não quer ser outra coisa. Ela tem um perfil aromático exuberante e um final que entrega identidade regional.

Produtores comemoram o sucesso da safra
E a estreia da DO não poderia ter vindo em um ciclo mais simbólico.
A colheita da Goethe costuma acontecer mais cedo do que nas regiões de altitude da Serra Catarinense, geralmente em janeiro. Neste ano, por conta de um inverno mais intenso e prolongado, o ciclo se estendeu um pouco além do habitual, chegando a fevereiro. Mas o atraso não significou problema. Pelo contrário.
O inverno rigoroso foi altamente favorável para as videiras. “Tivemos uma colheita mais tardia, mas isso não interferiu na qualidade do fruto, já que janeiro não foi um mês chuvoso”, destaca Patrícia Mazon, presidente da Progoethe.
Para Antônio Bianco, da Vinícola Bianco de Orleans, a expectativa inicial de um ano desafiador foi superada. “No início parecia que seria uma safra complicada, mas acabou sendo tranquila e muito boa de trabalhar. Tivemos um período de colheita relativamente enxuto, com pouca chuva, o que garantiu uma boa concentração de açúcar.” Segundo ele, o perfil sensorial da safra 2025/2026 deve evidenciar ainda mais o caráter aromático da Goethe, com destaque para maracujá, frutas cítricas e as tradicionais notas florais.
Em resumo? Primeira safra com DO, clima colaborando e preços bastante convidativos. Se era para escolher um momento para provar Goethe pela primeira vez, talvez seja este.
Enquanto escrevo este texto, estou degustando o Augusta Seco, safra 2025, da Vinícola Mazon (R$ 40 no site da vinícola. Sim, você leu certo).
Para saber mais sobre Goethe, acesse aqui.
Tim tim.
Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram





