31/03/2026

Ganhadores da Grande Prova Vinhos do Brasil apontam para um novo mapa da produção nacional

A 11ª edição da Grande Prova Vinhos do Brasil acaba de divulgar sua lista de ganhadores com um número que chama atenção: 1.291 amostras avaliadas, de dez estados brasileiros.

É a maior degustação às cegas de vinhos brasileiros e, na prática, uma espécie de “ranking” que muita gente usa como guia na hora de escolher o que beber.

Mas antes de sair procurando os rótulos premiados, vale entender como esses resultados são construídos. Porque, por trás das medalhas, existe um processo rigoroso que diz bastante sobre o momento do vinho brasileiro.

Conversei com Rossela Ceni, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC) que integrou o corpo de jurados desta edição, para entender os bastidores por trás da escolha dos premiados.

Vinho bom é vinho premiado?

Na Grande Prova, cada rótulo foi degustado às cegas por um júri formado por 28 especialistas, que tinham acesso apenas à uva e à safra, sem qualquer informação sobre produtor ou região.

Sem o peso do rótulo ou da reputação da vinícola, o vinho precisa se sustentar sozinho na taça. “Foi um exercício de humildade”, resume Rossela. “Dependíamos exclusivamente dos critérios estabelecidos, do nosso conhecimento e da nossa capacidade crítica.”

O esquema do concurso é simples: divididos em 62 categorias, os vinhos são avaliados por uma série de critérios e recebem uma pontuação final. Aqueles que superam 91 pontos ganham medalhas (entre 91 e 92 pontos, medalha ouro. Acima de 93 pontos, medalha duplo ouro). O que tiver a melhor nota em cada categoria, é considerado campeão.

Mas a pergunta que fica, depois que as medalhas são distribuídas: o que significa ser um dos “melhores vinhos do Brasil”?

Rossela é direta: concursos sérios ajudam, sim, o consumidor. Criam um recorte confiável, baseado em avaliação técnica e ética. Mas não contam a história inteira. “Não podemos reduzir o universo do vinho brasileiro só àqueles que participam de concursos, porque muitos não estão ali”, explica.

Os jurados, divididos em grupos, na sala de avaliações.


Um novo mapa do vinho brasileiro

O resultado da prova revela que o Rio Grande do Sul segue como principal polo da produção nacional, concentrando tanto o maior número de amostras quanto de premiações.

Mas o que chama a atenção é o avanço consistente de regiões fora do eixo tradicional. Minas Gerais (7 premiados), São Paulo (5), Paraná (3), Distrito Federal (2) e Bahia (1) aparecem no radar — um cenário que até poucos anos atrás parecia improvável.

Santa Catarina também mantém posição de destaque com seus vinhos de altitude, com três campeões:

  • Malbec – Kranz Malbec 2012 – Vinícola Kranz 
  • Montepulciano – Mastino 2021 – Vinícola Leone Di Venezia
  • Super Premium – Kranz Fabulosum 2010 – Vinícola Kranz

Segundo Rossela, esse movimento não é pontual. “Aumentamos o volume, diversificamos as regiões e os estilos do vinho brasileiro. A degustação às cegas comprovou que temos vinhos de excelente qualidade feitos em regiões completamente fora do eixo tradicional.”

E aqui entra um ponto que merece atenção: muitas dessas novas fronteiras não nasceram por acaso. São, nas palavras dela, “filhas da ciência”. Técnicas como a dupla poda — que inverte o ciclo da videira para colher uvas no inverno — vêm permitindo que regiões antes improváveis entreguem vinhos de alto nível.

 “Tenho certeza de que esse reconhecimento expressivo é fruto de consistência, e não apenas de casos pontuais”, afirma.


Para conhecer, por onde começar?

Para quem quer começar (ou recomeçar) a explorar o vinho brasileiro, Rossela sugere um caminho sem frescura: 

Primeiro, deixar o preconceito de lado no que diz respeito ao espumante Moscatel – um estilo doce, porém com perfil leve e aromático que pode oferecer experiências ótimas quando bem harmonizado.

Segundo: atenção aos blends (vinhos feitos com mais de uma uva) tintos, que vêm mostrando resultados interessantes e, em alguns casos, potencial de guarda.

Outra dica é prestar atenção em uvas que já se adaptaram muito bem ao Brasil, especialmente Merlot e Cabernet Franc, que hoje apresentam boa consistência de qualidade em diferentes regiões.

Entre os vinhos catarinenses Rossela destaca: rótulos feitos com as uvas italianas Sangiovese e Montepulciano estão se destacando. Vale a pena ficar de olho. 

Para quem gosta de descobrir novidades, fica a dica da Lorena, uma uva híbrida que estreou em uma categoria no concurso e chamou a atenção: “vinhos delicados, aromáticos com qualidade muito regular”.

Por fim, um detalhe que pode surpreender: “não ignore os sucos de uva. Pode parecer estranho, mas eles também chamaram a atenção dos jurados pela qualidade”, conclui.

Confira a lista dos campeões, por estado:

Catarinenses que receberam meldalhas:

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