
A 11ª edição da Grande Prova Vinhos do Brasil acaba de divulgar sua lista de ganhadores com um número que chama atenção: 1.291 amostras avaliadas, de dez estados brasileiros.
É a maior degustação às cegas de vinhos brasileiros e, na prática, uma espécie de “ranking” que muita gente usa como guia na hora de escolher o que beber.
Mas antes de sair procurando os rótulos premiados, vale entender como esses resultados são construídos. Porque, por trás das medalhas, existe um processo rigoroso que diz bastante sobre o momento do vinho brasileiro.
Conversei com Rossela Ceni, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC) que integrou o corpo de jurados desta edição, para entender os bastidores por trás da escolha dos premiados.
Vinho bom é vinho premiado?
Na Grande Prova, cada rótulo foi degustado às cegas por um júri formado por 28 especialistas, que tinham acesso apenas à uva e à safra, sem qualquer informação sobre produtor ou região.
Sem o peso do rótulo ou da reputação da vinícola, o vinho precisa se sustentar sozinho na taça. “Foi um exercício de humildade”, resume Rossela. “Dependíamos exclusivamente dos critérios estabelecidos, do nosso conhecimento e da nossa capacidade crítica.”



O esquema do concurso é simples: divididos em 62 categorias, os vinhos são avaliados por uma série de critérios e recebem uma pontuação final. Aqueles que superam 91 pontos ganham medalhas (entre 91 e 92 pontos, medalha ouro. Acima de 93 pontos, medalha duplo ouro). O que tiver a melhor nota em cada categoria, é considerado campeão.
Mas a pergunta que fica, depois que as medalhas são distribuídas: o que significa ser um dos “melhores vinhos do Brasil”?
Rossela é direta: concursos sérios ajudam, sim, o consumidor. Criam um recorte confiável, baseado em avaliação técnica e ética. Mas não contam a história inteira. “Não podemos reduzir o universo do vinho brasileiro só àqueles que participam de concursos, porque muitos não estão ali”, explica.

Um novo mapa do vinho brasileiro
O resultado da prova revela que o Rio Grande do Sul segue como principal polo da produção nacional, concentrando tanto o maior número de amostras quanto de premiações.
Mas o que chama a atenção é o avanço consistente de regiões fora do eixo tradicional. Minas Gerais (7 premiados), São Paulo (5), Paraná (3), Distrito Federal (2) e Bahia (1) aparecem no radar — um cenário que até poucos anos atrás parecia improvável.
Santa Catarina também mantém posição de destaque com seus vinhos de altitude, com três campeões:
- Malbec – Kranz Malbec 2012 – Vinícola Kranz
- Montepulciano – Mastino 2021 – Vinícola Leone Di Venezia
- Super Premium – Kranz Fabulosum 2010 – Vinícola Kranz



Segundo Rossela, esse movimento não é pontual. “Aumentamos o volume, diversificamos as regiões e os estilos do vinho brasileiro. A degustação às cegas comprovou que temos vinhos de excelente qualidade feitos em regiões completamente fora do eixo tradicional.”
E aqui entra um ponto que merece atenção: muitas dessas novas fronteiras não nasceram por acaso. São, nas palavras dela, “filhas da ciência”. Técnicas como a dupla poda — que inverte o ciclo da videira para colher uvas no inverno — vêm permitindo que regiões antes improváveis entreguem vinhos de alto nível.
“Tenho certeza de que esse reconhecimento expressivo é fruto de consistência, e não apenas de casos pontuais”, afirma.
Para conhecer, por onde começar?
Para quem quer começar (ou recomeçar) a explorar o vinho brasileiro, Rossela sugere um caminho sem frescura:
Primeiro, deixar o preconceito de lado no que diz respeito ao espumante Moscatel – um estilo doce, porém com perfil leve e aromático que pode oferecer experiências ótimas quando bem harmonizado.
Segundo: atenção aos blends (vinhos feitos com mais de uma uva) tintos, que vêm mostrando resultados interessantes e, em alguns casos, potencial de guarda.
Outra dica é prestar atenção em uvas que já se adaptaram muito bem ao Brasil, especialmente Merlot e Cabernet Franc, que hoje apresentam boa consistência de qualidade em diferentes regiões.
Entre os vinhos catarinenses Rossela destaca: rótulos feitos com as uvas italianas Sangiovese e Montepulciano estão se destacando. Vale a pena ficar de olho.
Para quem gosta de descobrir novidades, fica a dica da Lorena, uma uva híbrida que estreou em uma categoria no concurso e chamou a atenção: “vinhos delicados, aromáticos com qualidade muito regular”.
Por fim, um detalhe que pode surpreender: “não ignore os sucos de uva. Pode parecer estranho, mas eles também chamaram a atenção dos jurados pela qualidade”, conclui.
Confira a lista dos campeões, por estado:


Catarinenses que receberam meldalhas:





