
Quando o assunto é vinho, muitas vezes a experiência fala mais alto do que o conteúdo da taça. Aliás, a experiência tem o poder de transformar completamente a percepção sobre o vinho, para o bem e para o mal.
Foi com essa sensação que deixei a Vinícola Thera, em Bom Retiro, após um almoço harmonizado em seis etapas, uma das experiências oferecidas pela casa.
É daqueles programas que a gente recomenda sem pensar duas vezes, mas que merece uma leitura um pouco mais atenta. Porque, ali, o vinho não é exatamente o protagonista absoluto. Ele divide a cena com tudo o que acontece ao redor.
O almoço começou com um brioche servido com manteiga de tomates assados, pó de tomates defumados e flor de sal. Na taça, o rosé da casa que, confesso, já conhecia e sempre achei pouco memorável. Ali, no contexto, ele ganhou outra dimensão. A acidez apareceu mais vibrante, o conjunto fez sentido. Harmonização bem pensada reorganiza completamente a percepção do vinho.
Ao longo do menu, a cozinha assume protagonismo. O chef Luan Honorato, com passagem pelo restaurante Lasai (duas estrelas Michelin), conduz os pratos com inteligência, valorizando ingredientes da serra — truta, defumados e queijo de ovelha aparecem em diferentes preparos, sempre com boa execução. Merece destaque também o serviço atento e muito seguro da equipe do salão.
Entre os vinhos, dois momentos se destacaram.
O Auguri Brut Rosé, servido com entradas como patê de truta defumada e steak tartar, ótima acidez e textura em boca. Já o Chardonnay, harmonizado com um ravioli de queijos e limão siciliano, casou bem com a manteiga de sálvia que envolvia o prato.






Depois do prato principal (costela bovina assada com frégola, tomates, cebola e gorgonzola, harmonizado com o blend Madai) veio a grande surpresa.
A primeira sobremesa, uma mousse de queijo de ovelha com geleia de goiaba, foi servida com o Thera Anima Merlot. Combinação nada óbvia, já que vinhos secos raramente funcionam com preparações doces. Mas ali, com o apoio do queijo ralado em abundância sobre a mousse, a harmonização encontrou equilíbrio e funcionou melhor do que se poderia esperar.
A refeição termina com uma choux recheada com doce de leite de ovelha e castanhas, acompanhada por ganache de chocolate e pelo espumante Auguri Brut.
Inegavelmente, os vinhos crescem dentro do menu e são mais interessantes ali do que isoladamente. E esse parece ser exatamente o foco da Thera: talvez não entregar vinhos memoráveis por si só, mas construir uma experiência consistente e envolvente na serra catarinense. E isso é difícil de ignorar.
Logo após o almoço, conversei com Abner Zeus de Freitas, o jovem CEO da vinícola, para entender melhor essa proposta.

Um projeto maior que o vinho
A vinícola Thera carrega no DNA um capítulo importante da vitivinicultura catarinense. Abner é neto de Adilor Freitas, pioneiro da viticultura na serra e fundador da Villa Francioni.
Desde que assumiu a liderança do negócio, Abner estruturou um plano claro: criar um ecossistema em torno do vinho. Nas palavras dele, “o vinho é a âncora de uma proposta mais ampla, que envolve gastronomia, turismo, arte e hospitalidade”.
A Thera fica em Bom Retiro, a cerca de 900 metros de altitude, estrategicamente no caminho de quem segue para a rota das vinícolas de São Joaquim. Em fevereiro de 2024, após um incêndio consumir a antiga estrutura, foi inaugurada uma nova sede que abriga o Thera Wine Bar e o bistrô, com vista panorâmica para os vinhedos e para a área de produção.
Ali estão 33 tanques de inox e 124 barricas de carvalho francês. O complexo inclui ainda a Pousada Fazenda Bom Retiro e um condomínio com experiências exclusivas para proprietários.
Uma operação como essa cria oportunidades e leva o nome da Serra Catarinense para diferentes mercados. Atualmente, o grupo inclui 175 profissionais, sendo 64 diretamente envolvidos no trabalho da vinícola, entre trabalhadores do campo, da produção e do receptivo. Os rótulos da Thera aparecem em cartas de restaurantes reconhecidos no cenário nacional como Fasano e Rosewood, além dos estrelados pela Michelin Evvai, Tuju e Tangará Jean-Georges — o que nem sempre é um reflexo direto do que está na taça, mas demonstra a capacidade de construir uma boa narrativa em torno dela.



Quem sabe contar, vende
Em conversa comigo durante a visita, Abner resumiu bem o posicionamento da vinícola ao dizer que a inovação da Thera não está necessariamente na produção dos vinhos, mas em tudo o que acontece ao redor deles, da forma de comunicar até a experiência entregue ao visitante.
Mais do que comunicar rótulos específicos, o objetivo é formar repertório e ensinar o público a experimentar, a harmonizar, a entender o vinho dentro de um contexto.
Aqui entra uma camada interessante da análise.
Recentemente, sete vinhos da Thera foram premiados (cinco deles espumantes) na Grande Prova de Vinhos do Brasil, que avaliou cerca de 1300 rótulos nacionais. Afinal, nem tudo se resume a marketing. O reconhecimento existe e aponta para um caminho técnico que a vinícola vem construindo, especialmente nos estilos em que a Serra Catarinense costuma se expressar melhor.
Falei sobre os ganhadores da Grande Prova de Vinhos do Brasil aqui, lembra?
No fim das contas, a visita à Thera talvez não seja sobre encontrar o melhor vinho da sua vida. Mas é, sem dúvida, sobre entender como o vinho pode ir muito além da taça.
E isso, pra quem presta atenção, diz muito.
Tim tim.
Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram





