Artigo de Por Antídio Aleixo Lunelli, deputado estadual

Há um risco silencioso rondando Santa Catarina e o Brasil. Não é apenas o risco das denúncias, das prisões, das operações policiais, das relações nada republicanas entre poder público e interesses privados. O risco maior é ainda pior: o de a população perder a esperança.
Quando o cidadão trabalha, paga imposto, cumpre a lei, acorda cedo e vê, dia após dia, novos escândalos envolvendo dinheiro público, a indignação vai dando lugar ao cansaço. E o cansaço é perigoso. Porque um povo cansado da política começa a acreditar que nada muda, que todos são iguais, que honestidade virou ingenuidade e que o Brasil está condenado a desperdiçar suas oportunidades.
Não está. Mas, para mudar esse rumo, precisamos ter coragem de dizer o óbvio: ética e moral não podem ser bandeira de direita ou de esquerda. Deveriam ser o ponto de partida de qualquer pessoa que se disponha a ocupar um cargo público.
O debate entre direita e esquerda, conservadores e progressistas, liberais e estatistas, deveria estar em outro patamar: qual modelo é mais eficiente para fazer o Brasil crescer, gerar empregos, atrair investimentos, melhorar a educação, reduzir a pobreza e garantir dignidade às famílias? Esse é o debate legítimo. O que não pode ser admitido é transformar a vida pública em balcão de negócios, aparelhamento, favorecimento e impunidade.
O Brasil já perdeu tempo demais. Enquanto países sérios discutem produtividade, inovação, infraestrutura, educação técnica, segurança jurídica e ambiente de negócios, nós ainda somos obrigados a assistir a escândalos que consomem energia, dinheiro e confiança. A Transparência Internacional apontou que o Brasil ficou na 107ª posição entre 182 países no Índice de Percepção da Corrupção de 2025, com 35 pontos em uma escala de 0 a 100. É uma fotografia dura da desconfiança que ainda pesa sobre nossas instituições.
E corrupção não é um problema abstrato. Corrupção tira ambulância da estrada, remédio da farmácia, vaga da creche, asfalto da comunidade, segurança da família e competitividade da empresa que trabalha corretamente. O próprio Banco Mundial já alertou que fraude e corrupção enfraquecem as bases institucionais do crescimento, solapam o desenvolvimento e aprofundam a pobreza.
Santa Catarina, que sempre foi referência em trabalho, empreendedorismo e responsabilidade, também precisa olhar para esse cenário com seriedade. Operações recentes, como investigações envolvendo estruturas públicas municipais e estaduais, mostram que nenhum lugar – e nenhum partido – está imune quando faltam controle, transparência e respeito ao dinheiro do contribuinte.
E quem veio da iniciativa privada sabe: sem confiança, nada se sustenta. Nenhuma empresa cresce se o cliente não confia. Nenhum investimento vem se o ambiente é inseguro. Nenhum trabalhador prospera se a economia está travada pela burocracia, pelo desperdício e pela má gestão. Na vida pública é igual. Sem confiança, o Estado perde autoridade. Sem autoridade, perde capacidade de liderar. E sem liderança, o país perde futuro.
O Brasil não precisa de salvadores da pátria, não precisa de discursos vazios, hipócritas e de gente que só quer “lacrar” na internet. O Brasil precisa de seriedade. Precisa de gestão. Precisa de transparência. Precisa de punição para quem erra e valorização de quem trabalha certo. Como eu digo: “meteu a mão no dinheiro público: é cana”. Não importa se é de direita, de esquerda, político, servidor ou empresário.
Precisamos parar de tratar o dinheiro público como se ele não tivesse dono. Tem dono, sim: é o cidadão.
Também é preciso dizer que indignação sozinha não constrói nação. O que constrói é exemplo, cobrança, fiscalização e compromisso com resultados. É votar melhor sem se deixar levar por teorias fáceis de redes sociais. E não aceitar que a política seja reduzida a discurso bonito enquanto a prática segue velha.
A direita defende menos Estado, mais liberdade econômica, segurança jurídica, respeito à família, propriedade privada e responsabilidade fiscal. Esses valores são fundamentais para o desenvolvimento. Mas nenhum modelo econômico, por melhor que seja, sobrevive se a moral pública estiver apodrecida. Da mesma forma, nenhum discurso social se sustenta quando o dinheiro que deveria chegar ao povo se perde pelo caminho.
O Brasil tem tudo para dar certo. Tem gente trabalhadora, setor produtivo forte, recursos naturais, criatividade, empreendedores corajosos e famílias que ainda acreditam no valor do esforço. O que falta é o poder público atrapalhar menos, roubar nunca e servir mais. E quando eu falo em poder público, falo de todos os poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. E em todos os níveis: Município, Estado e União.
A esperança do brasileiro não pode ser tratada como algo descartável. Ela é um patrimônio nacional. Quando o povo deixa de acreditar, o país para. Quando o povo volta a confiar, o país anda.
Por isso, mais do que nunca, é hora de recuperar a decência como fundamento da vida pública. Antes de discutir ideologia, precisamos discutir caráter. Antes de prometer futuro, precisamos respeitar o presente de quem paga a conta.




