Artigo de Zeca Pires, cineastra e um dos criadores da Cinemateca Catarinense

Por volta de 1985, quando cursava Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, uma paixão uniu boa parte dos alunos da turma: o cinema. Foi essa paixão que nos levou a pesquisar a história da sétima arte, ainda pouco conhecida e praticada em Santa Catarina naquele período.
Com o apoio de professores como José Gatti, Gilka Girardello, Aglair Bernardo, Sônia Maluf, Sérgio Mattos e Mauro Pommer, promovemos uma pequena revolução dentro do curso. Mergulhamos na pesquisa — essência de toda cinemateca — para descobrir se Santa Catarina possuía, de fato, uma história cinematográfica.
O resultado foi a publicação de nossa pesquisa sobre o cinema catarinense, viabilizada pela Embrafilme e pela Editora da UFSC. Apesar da amnésia de muitos historiadores, o estado viveu importantes surtos de produção audiovisual ao longo do século XX, com nomes como Alfredo Baumgarten e José Julianelli, nas décadas de 1920 e 1930; Edla von Wangenheim, nos anos 1930 e 1940; José Poli, nas décadas de 1940 e 1950; o Grupo Sul, nos anos 1950 e 1960; e o Grupo Universitário de Cinema Amador, entre as décadas de 1960 e 1970. Era um cinema feito em ciclos, mas que registrou paisagens, cidades e modos de vida hoje profundamente transformados.
Grande parte desse acervo ainda resiste sem o tratamento adequado. Os governos, em geral, nunca reconheceram plenamente o trabalho da Cinemateca e, sem recursos, a preservação da memória audiovisual catarinense segue dependendo de iniciativas isoladas e persistentes.
Viajamos ao Festival de Cinema de Gramado, fotografamos e entrevistamos personalidades que, até então, pareciam distantes do nosso cotidiano: Chico Buarque, Tom Jobim, Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto, Sylvio Back, Luiz Carlos Lacerda, Leon Hirszman, entre tantos outros.

O movimento foi acolhido pela comunidade cultural catarinense, por intelectuais e pela imprensa. Organizamos mostras de filmes de Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Marcos Farias e Sylvio Back; realizamos oficinas com apoio da Funarte e participação de nomes como Leopoldo Serran, Hélio Silva, Assunção Hernandes, Chico Botelho, Pedro Farkas, David Tygel, Sérgio Sanz e Bigode.
Vieram os curtas-metragens, e nossa geração colocou Santa Catarina no mapa do cinema nacional. Com o surgimento de festivais e de cursos superiores de cinema, novas gerações passaram a ocupar esse espaço, fazendo com que a produção audiovisual se espalhasse por todas as regiões e estilos. A atividade cinematográfica tornou-se irreversível em Santa Catarina.
O Edital de Cinema — único suspiro consistente de política pública para o audiovisual no estado — nasceu da iniciativa da Cinemateca Catarinense.
No dia 19 de maio completam-se 40 anos da assinatura da ata de criação da Cinemateca Catarinense, redigida pelo hoje procurador da República João Brandão, na cozinha da Igrejinha da UFSC.
Quatro décadas depois, a Cinemateca se renova sob a liderança de uma diretoria formada, em sua maioria, por mulheres competentes, que não medem esforços para preservar a memória do cinema catarinense e escrever um novo capítulo para a mais antiga instituição cinematográfica do estado.
É a volta às origens.





