18/06/2026

As eleições presidenciais da Colômbia em 2026. Por Marcelo Ramos Peregrino Ferreira

Artigo de Marcelo Ramos Peregrino Ferreira, Advogado, Doutor em Direito, Diretor da Transparencia Electoral America Latina

As eleições presidenciais da Colômbia no ano de 2026 estão sendo um marco. A bem da verdade, a mais antiga democracia do continente tem caminhado na direção de um inexorável aprimoramento de seu regime, desde o Acordo de Paz (2016) em que o grupo guerrilheiro Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) aderiu ao compromisso de baixar as armas e se inserir no processo democrático.

O clima das eleições em 2018 era de imensa tensão. Militares cercavam a entrada do prédio do hotel, cães farejadores perpassavam os observadores ao entrarem no lobby e batedores abriam os caminhos para cada seção eleitoral. Havia temor sobre o sucesso do Acordo de Paz e receio de algum incidente durante o processo eleitoral, o que não se confirmou.

Em 2026, por coincidência, no mesmo hotel o clima foi outro, porque a “liberdade caça jeito” como água que corre entre as pedras, como disse Manoel de Barros: uma esperança e congraçamento na maior missão de observação eleitoral da história da Colômbia, país já conhecido pela importância que atribui a esse instrumento de qualificação da democracia.

Neste cenário de regozijo e saudável embate democrático é que a Transparência Electoral America Latina, liderada por Leandro Querido, pode contribuir, mais uma vez, trazendo acadêmicos, juízes, advogados e servidores da Justiça Eleitoral brasileira e de outros países.

Como se sabe, as missões de observação são instrumento de cooperação técnica entre organismos eleitorais, governos e organizações internacionais, com vistas à melhoria de gestão eleitoral, compartilhamento de experiências e promoção de práticas que fortaleçam os sistemas democráticos na região.

O país conta com missão de observação nacional composta por universidades, sociedade civil e cidadãos e a missão de observação internacional integrada por missões, organismos internacionais, experts de outros países e convidados especiais do Conselho Nacional Eleitoral para participarem das eleições com o respectivos cadastramento e acreditação, podendo participar de todas as etapas do processo eleitoral da preparação, jornada eleitoral até o escrutínio final.

A missão tem como objetivo e propósito a verificação do desenvolvimento do processo de votação e dos resultados divulgados, para garantir a transparência e legitimidade do processo eleitoral. Por evidente, a manutenção de uma conduta neutra com abstenção de qualquer interferência na dinâmica eleitoral vem com a própria natureza da função.

Nessas eleições a Colômbia trouxe 1.333 observadores internacionais e 13.872 observadores nacionais o que dá a dimensão da relevância das missões no país.

No sistema eleitoral colombiano há dois órgãos que dividem a responsabilidade de organização da eleição. O Consejo Nacional Electoral (CNE) inspeciona e vela pela organização eleitoral, conhecendo e decidindo, de forma definitiva os recursos interpostos sobre os escrutínios, revisa os escrutínios e documentos de qualquer etapa do procedimento. O CNE cuida também dos partidos políticos, movimentos e grupos significativos de cidadãos e de suas campanhas e financiamento. A Registradoria Nacional do Estado Civil (RNEC), de seu turno, organiza os processos eleitorais e os mecanismos de participação cidadã e registro da vida civil dos colombianos (registro civil e identificação).

A eleição tem cédula de papel, a contagem dos votos é manual e se dá em cada mesa com a presença dos delegados dos partidos e mesários. Uma vez atingido o resultado, é lavrada a ata da mesa, uma planilha com os resultados que passam por digitalização para a contagem por meio eletrônico. Todos os documentos eleitorais são preservados para conferência posterior, caso haja necessidade.

Uma hipótese interessante é o “nivelamento da mesa”, isto é, quando o número de votos depositados na urna supera o número de votantes registrados. Neste caso, os votos em excesso são extraídos da urna, de forma aleatória, sem serem desdobrados e destruídos, tudo constando do formulário específico para registro. 

Neste ano, Ivan Cepeda (Pacto Histórico), candidato do Presidente Petro Urrego disputa com Abelardo Espriella (Defensores da Pátria) a liderança das eleições.

Filósófo, mestre em direito internacional, o atual senador Ivan Cepeda é o herdeiro do atual Pres. Petro Urrego e tem raízes na história política e da esquerda da Colômbia. A morte de seu pai foi caso tratado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos que sancionou os responsáveis pela sua execução extrajudicial (Caso Manuel Cepeda Vargas vs. Colômbia, 2010[1]).

Abelardo de la Espriella é advogado e empresário e representa uma novidade do cenário político, podendo bem ser definido como um outsider e um candidato antissistema disposto a “derrotar os de sempre”, sendo líder do movimento Defensores da Pátria[2]. Diminuição do Estado e dos impostos estão são parte de suas propostas.

As pesquisas eleitorais indicavam a vitória de Ivan Cepeda com larga margem sobre Abelardo Espriella no primeiro turno. Para surpresa, Abelardo Espriella, “El Tigre”, venceu o primeiro turno com 43,78 % dos votos contra 40,98 % de Ivan Cepeda. Ambos decidirão as eleições no dia 21 de junho próximo.

O primeiro turno transcorreu de forma tranquila e com recorde de participação popular o que indica a vitalidade da democracia colombiana.

O segundo turno está claramente polarizado com candidatos de antagônica coloração ideológica e já se tem notícia de incidentes, sem maiores repercussões, na sede do partido Salvador Nacional, apoiador de Abelardo de la Espriella e na sede de Ivan Cepeda, em Medellín, conforme notícia do El Espectador de 5 de junho de 2026.

Um dado digno de nota foi a qualidade das informações disponíveis sobre as propostas dos candidatos realizado pela imprensa colombiana. O El Tiempo e o Espectador trouxeram tabelas comparativas sobre as propostas, histórico de cada um dos candidatos e a sua posição sobre temas candentes para a população, qualificando o debate das eleições com informação de qualidade.

Há muito mais que aprender com a Colômbia do que se imagina.

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