26/06/2026

Vinhos que eu beberia todo dia se tivesse dinheiro infinito

Uma das perguntas que mais recebo é: “Bea, qual é seu vinho preferido?” Minha resposta costuma decepcionar um pouco: não tenho um vinho preferido. Meu maior prazer no universo dos vinhos está justamente em experimentar rótulos novos.

Mas, pensando bem… depois de anos experimentando bons vinhos, estudando e enchendo cadernos de anotações, cheguei à conclusão de que conseguiria viver feliz numa ilha deserta com apenas cinco estilos de vinho.

Quando falo em dinheiro infinito, não estou pensando em ostentação, mas considerando a liberdade de repetir, sem culpa, aqueles vinhos que me arrepiam logo no primeiro gole. 

E, atenção: se o vinho causa arrepio, ele merece seu carinho. 

Eis minha lista dos sonhos: 

Riesling da Alemanha

Já falei nesta coluna que acidez é qualidade, não defeito. Os grandes exemplares de Riesling são quase uma aula sobre isso, especialmente os da região do Mosel. 

A Riesling é uma uva branca que tem como característica a capacidade de manter altos níveis de açúcares e, ao mesmo tempo, altíssima acidez. Inclusive, os riesling alemães são muito conhecidos pelos vinhos doces. 

Mas sua melhor versão está nos secos (para diferenciá-los, procure pela palavra “trocken” no rótulo). 

No nariz aparecem notas florais, frutas cítricas e, em muitos exemplares, aquele famoso aroma que muita gente associa ao petróleo. Parece estranho? Sim. Mas basta experimentar para entender por que tanta gente se apaixona por ele.

Na boca, a experiência é maravilhosa. Por um instante você imagina que vem um vinho macio, quase adocicado. No segundo seguinte, a acidez toma conta da boca, faz você salivar muito e imediatamente querer outro gole. 

> Bons exemplares começam em R$300 e chegam facilmente aos 4 dígitos. 

Pouilly-Fumé

É um estilo produzido no Vale do Loire, na França, exclusivamente com a uva Sauvignon Blanc. Mas não é aquela Sauvignon Blanc que estamos acostumados a encontrar por aí. É a uva levada ao limite da elegância.

Descobri isso numa degustação às cegas, experimentando três diferentes rótulos. Minha primeira impressão foi curiosa: parecia um branco com estrutura de tinto. Tinha volume e muita complexidade, mas não só isso.

Chamam atenção os aromas minerais, que lembram pedra molhada e um leve defumado, são muito marcantes (característica que dá origem ao nome fumé). Quase dá um nó na cabeça e desafia tudo o que você imagina sobre Sauvignon Blanc.

É daqueles vinhos que pedem uma tarde com amigas, uma tábua de queijos — especialmente queijo de cabra — e nenhuma pressa.

>> Bons rótulos começam na faixa dos R$ 300.

Pinot Noir da Borgonha

Aqui a brincadeira começa a ficar mais cara. Porque um clássico é um clássico.

A Borgonha produz alguns dos rótulos de Pinot Noir mais admirados do planeta e, nesse caso, eu me rendo completamente.

Quando vou apresentar a pinot noir para amigos, costumo dizer que, se essa uva fosse uma mulher, seria aquela elegante que chega sozinha ao restaurante usando um vestido preto, pede uma taça de vinho e parece perfeitamente feliz na própria companhia. Não precisa chamar atenção, porque naturalmente atrai os olhares.

Assim também são os grandes Pinot Noir da Borgonha. Elegantes sem fazer esforço, trazem uma complexidade de aromas  –  frutas vermelhas, flores, especiarias, notas terrosas e de cogumelos – que não encontrei em outros rótulos, produzidos com a mesma uva em outras regiões do mundo. É a expressão do que chamamos de terroir, na sua melhor versão. 

>> A partir de R$500, o céu é o limite.

Shiraz de Barossa

Nem só de delicadeza vive uma pessoa. Há dias em que quero um vinho que entre na sala sem pedir licença. E nesses dias, eu quero um bom Shiraz do Vale de Barossa, na Austrália.

São vinhos intensos, concentrados e generosos, cheios de ameixas maduras, frutas negras, chocolate, especiarias e aquela pimenta-preta característica da Syrah — ou Shiraz, como preferem os australianos.

É o vinho que eu escolheria para aqueles churrascos em noites frias, com conversas que podem atravessar a madrugada.

>> Bons exemplares custam a partir de R$400

Amarone della Valpolicella

Por fim, o vinho que talvez melhor represente a palavra luxo nesta lista.

É o estilo que costumamos chamar de vinho de meditação, porque convida a desacelerar. É uma taça para ser apreciada sem pressa, no silêncio do fim do dia.

Para mim, o cenário perfeito é uma poltrona confortável, um bom livro, silêncio e uma taça (ou várias) de Amarone. 

O Amarone nasce de um processo chamado appassimento. Depois da colheita, as uvas passam meses desidratando em esteiras ou caixas ventiladas, perdendo água e concentrando açúcares e compostos aromáticos. Ficam muito próximas da ideia de uma uva-passa — e é justamente essa concentração que dá origem ao estilo.

O resultado são vinhos profundos, com aromas de frutas secas, frutas maduras, figos, tâmaras, especiarias doces, cacau e, muitas vezes, um delicado toque de tabaco.

>> Bons rótulos, com 24 meses de amadurecimento em média, costumam custar entre R$ 600 e R$ 900. 

Qual seria a sua lista?

Propositalmente, minha lista não inclui os vinhos mais caros do mundo. Não tem Romanée-Conti, não tem Petrus, ou Chateauneuf du Pape. Embora, pensando bem… eu jamais recusaria uma boa garrafa desse último.

Os vinhos que moram na minha lista de favoritos ganharam esse lugar porque me fazem ficar pensando sobre eles por dias depois que experimento uma taça. 

Ainda assim, não duvido que essa lista mude em breve. O vinho tem esse defeito maravilhoso de nos fazer mudar de ideia. Basta conhecer um produtor novo, provar uma safra diferente ou descobrir uma região que nunca tinha chamado atenção para uma paixão antiga perder espaço para outra.

É justamente isso que mais me encanta no mundo do vinho: a sensação permanente de que a próxima grande descoberta pode estar escondida na garrafa seguinte.

Agora deixo o desafio para você: quais vinhos você beberia com frequência se dinheiro realmente não fosse um problema?


Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram

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