Artigo de Marlene Fengler, Secretária-geral da Alesc

Há algumas semanas, a cantora Maraísa usou as redes sociais para falar sobre a alopecia, uma condição que provoca a queda de cabelo e afeta milhões de pessoas em todo o mundo. O relato ganhou repercussão nacional, mobilizou mensagens de apoio e abriu espaço para uma discussão que vai muito além de um problema de saúde. O que mais chamou minha atenção não foi a doença, mas o fato de uma mulher sentir que precisava explicar publicamente por que sua aparência havia mudado, quase como se isso fosse uma obrigação ou um pedido de desculpas.
Essa reflexão também me toca por uma experiência pessoal. Durante muitos anos alisei o cabelo porque não me sentia parte do padrão de beleza que via ao meu redor. Eu raramente encontrava mulheres assumindo seus crespos naturais e, de alguma forma, aquilo me fazia acreditar que o meu cabelo precisava ser diferente. Os tempos eram outros, não existia rede social e nem era preciso explicações, como Maraísa precisou fazer agora, mas era uma questão que me incomodava profundamente. Até que, em determinado momento da vida, decidi simplesmente deixar meu cabelo ser como ele é. Parece algo pequeno, mas pra mim foi uma escolha importante de aceitação e uma sensação de liberdade que durante muitos anos eu não senti.
A repercussão do caso me fez refletir sobre um fenômeno cada vez mais presente: a obrigação da beleza feminina, independentemente da carga emocional ou física que essa mulher esteja vivendo. Houve um tempo em que a busca era pela saúde. Hoje, ser saudável já não parece suficiente. Envelhecer, então, nem se fala. Deixar os cabelos brancos ou assumir as marcas do tempo parece até pecado. É como se fosse preciso esconder os sinais de uma vida que a ciência tem conseguido prolongar cada vez mais. Não basta viver bem; é preciso demonstrar isso em fotos, vídeos e publicações que vemos diariamente nas redes sociais.
É claro que essa cobrança também afeta os homens, mas é impossível ignorar que ela recai com muito mais intensidade sobre as mulheres. Basta observar como a sociedade costuma reagir ao envelhecimento de cada um. Nos homens, muitas vezes os cabelos grisalhos e as marcas do tempo são associados à experiência e à maturidade. Já para as mulheres, essas mesmas características ainda costumam ser tratadas como algo que precisa ser corrigido ou combatido.
Talvez não seja mera coincidência que o Brasil tenha se transformado em uma potência mundial da indústria da estética. Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética mostram que o país lidera o ranking global de cirurgias plásticas, com cerca de 2,35 milhões de procedimentos realizados em 2024. Somados aos procedimentos não cirúrgicos, como aplicações de toxina botulínica, preenchimentos e tratamentos a laser, o número ultrapassa 3 milhões de intervenções em apenas um ano.
Não vejo qualquer problema em buscar procedimentos que contribuam para a autoestima e o bem-estar. Eu mesma me submeto a alguns. O problema surge quando a liberdade de escolha dá lugar à pressão social e quando o que deveria ser uma decisão individual passa a ser visto como uma exigência para que alguém seja aceito pela sociedade.
O impacto dessa cultura vai muito além da aparência, e há muitos estudos comprovando os danos que esse tipo de pressão causa à saúde mental. Pesquisas desenvolvidas em diversos países apontam uma relação crescente entre a exposição contínua a padrões estéticos inalcançáveis e o aumento de quadros de ansiedade, insatisfação corporal e sofrimento emocional, especialmente entre mulheres e adolescentes. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil olhar no espelho e nos enxergar com orgulho e carinho.
Tenho refletido muito sobre isso nos encontros do Movimento Mulheres, um projeto que nasceu justamente da percepção de que existem questões importantes da vida feminina que raramente encontram espaço para uma conversa franca. Em nossos encontros — e já realizamos cinco edições — falamos sobre longevidade, menopausa, mercado de trabalho, propósito, autoestima e qualidade de vida. Temas diferentes, mas que se conectam por uma mesma pergunta: até que ponto estamos vivendo para nós mesmas e até que ponto estamos tentando atender às expectativas impostas pelos outros?
A história de Maraísa me tocou porque acredito que encontrou eco em tantas pessoas justamente por revelar algo que muita gente sente, mas nem sempre consegue dizer ou tem coragem de expor diante das críticas alheias. Existe um cansaço crescente diante da obrigação de parecer perfeita o tempo todo. Um cansaço que não nasce apenas das rugas, dos cabelos brancos ou das mudanças naturais do corpo, mas da sensação permanente de estar sendo avaliada não pelas conquistas e realizações de uma vida inteira, e sim por não caber em um padrão imposto pela sociedade.
Talvez esteja na hora de lembrarmos que a vida acontece no mundo real e que maturidade, experiência, saúde e felicidade não deveriam ser medidas pela aparência de alguém. Afinal, quando uma mulher sente que precisa justificar uma condição de saúde por causa da reação das pessoas ao seu visual, para mim fica evidente que nunca foi apenas sobre cabelo.





