Há noites em que o futebol cabe num copo de chope morno, daqueles que a gente esquece na mesa de tanto pensar. A estreia do Brasil foi assim. Assistimos ao jogo contra Marrocos com o gosto amargo de quem viu pouco do muito que esperava.

Amanhã a Seleção entra em campo com a missão de responder à pergunta que tira o sono do torcedor: foi só o peso da primeira partida ou essa é a nossa realidade mesmo? Quero ser otimista. O coração pede. Mas o lado que raciocina, esse teimoso que mora na cabeça de todo chato, balança a cabeça e duvida.
Escrevo triste isso. Porque tenho essa sensação pelo que vi, não pelo que desejei antes do Mundial. Os primeiros trinta minutos contra os marroquinos foram um terror. Os piores de uma Copa desde aquela tarde de Belo Horizonte, quando a Alemanha nos passou sete a um e a gente aprendeu que a dor também joga.
O Brasil estava perdido. Aquele time que parece que nunca se viu antes, que se cumprimenta no vestiário feito quem conhece o outro só de vista. Espaçado, nervoso, pequeno diante de uma equipe africana que sabe jogar. E olha que Marrocos não é cachorro morto, longe disso, mas também não é a França. Mesmo assim, mandou em nós.
Se não rodamos de vez, foi pelo improviso do Vini Júnior que pegou a bola e lembrou todo mundo de que o Brasil, quando quer, ainda é o Brasil. O resto da história, melhor apagar.
Igor Thiago, Paquetá, Ibañez, Casemiro. Com todo o respeito aos familiares, não dá para sustentar nenhum deles entre os onze. Nem contra o Haiti. Mais difícil ainda é imaginar o Endrick atrás na lista de preferências.
Eu defendi o técnico estrangeiro. Defendi com fé. Acreditei que viria gente de fora justamente para acabar com a panela, com a pressão de bastidores, com o telefonema que dobra a espinha de qualquer treinador carimbado. A convocação do Neymar me provou o contrário. O italiano cedeu.
De que adianta reclamar agora? Copa não espera ninguém. É olhar para frente. Torço para que Ancelotti corte na própria carne, mexa no que precisa, machuque quem tiver de machucar. Que monte uma formação de verdade, com liga, com alma, para chegar inteiro ao mata-mata.
Se não fizer isso, vem mais uma decepção em duas décadas, e a conta começa a pesar. Porque, sejamos honestos na mesa do bar: se não fosse o nome famoso de Ancelotti no banco, o brasileiro já gritava por demissão no meio da Copa. São treze jogos. Nove milhões por mês. E quase nada de evolução para mostrar.
Está difícil, Seleção. Bem difícil. Mas o torcedor é feito de teimosia e de esperança. Amanhã eu visto a camisa de novo. Colo a razão no bolso, feito quem cola um esparadrapo numa ferida velha, e torço. Sempre torço. Porque, no fundo, no fundo, a gente nunca aprende a desistir do Brasil.




