04/06/2026

El Niño coloca o Brasil em alerta. Entenda o fenômeno e por que ele preocupa

O avanço das previsões indicando a possível formação de um episódio de El Niño em 2026 levou o governo federal a reforçar sua estrutura de monitoramento climático. A medida ocorre em meio à preocupação com o aumento de eventos extremos e possíveis reflexos em setores estratégicos da economia, incluindo a geração de energia elétrica.

Órgãos do governo federal e instituições de pesquisa vão passar a se reunir semanalmente para acompanhar os impactos do El Niño.
Órgãos do governo federal e instituições de pesquisa vão passar a se reunir semanalmente para acompanhar os impactos do El Niño. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Segundo informações divulgadas pelo Ministério do Meio Ambiente, especialistas de diferentes instituições passaram a realizar reuniões semanais para acompanhar a evolução do fenômeno e seus potenciais impactos sobre o território brasileiro.

Governo intensifica monitoramento do El Niño

O grupo reúne representantes do Ministério do Meio Ambiente (MMA), do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Até então, os encontros aconteciam aproximadamente a cada 45 dias. Com a elevação da probabilidade de desenvolvimento do fenômeno, o monitoramento passou a ser semanal.

O objetivo é ampliar a capacidade de planejamento e resposta diante de possíveis eventos extremos, como enchentes, estiagens, ondas de calor e incêndios florestais. Além disso, o governo federal retomou a Sala de Situação sobre Incêndios Florestais, estrutura que reúne 13 ministérios e nove autarquias federais para monitoramento e coordenação de ações emergenciais.

O que é o El Niño e por que ele preocupa?

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica os padrões de circulação atmosférica e influencia o comportamento das chuvas e das temperaturas em várias partes do mundo.

No Brasil, os efeitos mais conhecidos costumam incluir aumento das chuvas na Região Sul e redução das precipitações em áreas das regiões Norte e Nordeste. Também é comum a ocorrência de temperaturas acima da média em diversas localidades.

Segundo projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a probabilidade de formação do fenômeno supera 80% durante os próximos meses.

O desafio não é apenas climático

Especialistas alertam que os impactos dos desastres não dependem exclusivamente da intensidade do fenômeno.

O pesquisador Enner Alcântara, da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e colaborador do Cemaden, destaca que eventos como enchentes, secas e ondas de calor tendem a produzir consequências mais severas em locais onde existem vulnerabilidades estruturais, como ocupação irregular do solo, drenagem insuficiente e baixa capacidade de adaptação.

Em outras palavras, o tamanho do problema não depende apenas da chuva ou da temperatura, mas também do grau de preparação das cidades.

Por que o setor elétrico acompanha o fenômeno com atenção?

Entre os setores que monitoram a possível chegada do El Niño está o sistema elétrico brasileiro. A matriz energética nacional possui forte dependência das hidrelétricas. Quando determinadas regiões registram menos chuva, a disponibilidade hídrica pode ser reduzida, afetando a geração de energia.

Ao mesmo tempo, temperaturas mais elevadas costumam aumentar o consumo de eletricidade devido ao uso mais frequente de aparelhos de refrigeração. Essa combinação cria uma situação de pressão simultânea sobre oferta e demanda.

Com El Niño afetando o regime de chuvas e elevando as temperaturas, a perspectiva é de maior frequência de bandeiras vermelhas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Com El Niño afetando o regime de chuvas e elevando as temperaturas, a perspectiva é de maior frequência de bandeiras vermelhas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Um estudo divulgado pela consultoria meteorológica Nottus aponta que o Centro-Oeste e o Sudeste podem registrar mais ondas de calor no segundo semestre, enquanto o Norte e o Nordeste podem enfrentar redução das chuvas e pressão sobre recursos hídricos importantes para a geração elétrica.

O El Niño pode encarecer a conta de luz?

Existe essa possibilidade, mas não uma certeza. Caso o sistema precise recorrer com maior frequência às usinas termelétricas para garantir o abastecimento, os custos de geração tendem a aumentar. Isso pode elevar a probabilidade de acionamento das bandeiras tarifárias previstas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

O resultado pode ser sentido diretamente pelos consumidores e também pela economia, já que a energia elétrica possui peso relevante nos índices de inflação. Ainda assim, o comportamento dos reservatórios, a intensidade do fenômeno e as estratégias operacionais adotadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) serão determinantes para definir os impactos reais sobre as tarifas.

O Brasil está preparado para enfrentar os impactos do El Niño?

A criação de um grupo permanente de monitoramento mostra que o possível retorno do El Niño deixou de ser apenas um tema da meteorologia.

A criação de um grupo permanente de monitoramento mostra que o possível retorno do El Niño deixou de ser apenas um tema da meteorologia.
Pesquisadora Eliana Vale apresenta a Sala de Situação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), no Parque de Inovação Tecnológica (PIT). Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Hoje, o fenômeno é acompanhado por órgãos de defesa civil, gestores de recursos hídricos, operadores do sistema elétrico, produtores rurais e autoridades ambientais. Isso acontece porque seus efeitos podem influenciar desde a ocorrência de desastres naturais até o preço dos alimentos e da energia.

Em um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos mais frequentes, a capacidade de antecipação passa a ser uma das ferramentas mais importantes para reduzir riscos e aumentar a resiliência do país.

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