
Pequena no mapa, gigante no Agro
Enquanto boa parte do debate nacional sobre agronegócio gira em torno das grandes áreas agrícolas do Centro-Oeste, Santa Catarina segue construindo um caminho próprio.
O Mapa do Agro Catarinense 2026, divulgado pela Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (FACISC), confirma aquilo que o setor produtivo repete há anos: o Estado é uma potência agropecuária muito além do tamanho do seu território.
O levantamento mostra que o agronegócio responde por 35% da economia catarinense, movimenta R$ 144 bilhões por ano, reúne aproximadamente 470 mil empresas, emprega 1,6 milhão de pessoas e gera R$ 12 bilhões em arrecadação estadual. Os números colocam Santa Catarina como o quinto maior agronegócio do Brasil e líder nacional em agroindustrialização entre os grandes estados produtores.
Mais do que produzir, Santa Catarina industrializa, exporta, desenvolve tecnologia e agrega valor ao que sai da propriedade rural. É justamente essa característica que diferencia o modelo catarinense do restante do país.
O Estado que transformou agroindústria em vantagem competitiva
O dado mais emblemático do estudo talvez seja a participação da agroindústria na economia rural catarinense. Enquanto em muitos estados a força do agro está concentrada na produção primária, em Santa Catarina cerca de 40% da atividade está ligada diretamente à indústria.
Isso significa que a riqueza não fica apenas na porteira. Ela passa pelo processamento, pela transformação industrial, pela logística, pela exportação e pelos serviços.
Segundo o diretor de Agronegócio e Ferrovias da FACISC, Lenoir Broch, o estado construiu uma lógica própria dentro da economia rural brasileira, baseada em pequenas propriedades altamente produtivas conectadas a cadeias industriais robustas.
“O estado não apenas produz, mas industrializa, exporta, desenvolve tecnologia e gera empregos em toda a cadeia produtiva. Isso torna o agro catarinense mais diversificado e resiliente”, destacou Broch.
O resultado é um agro mais resiliente, menos dependente de uma única commodity e capaz de atravessar crises de mercado com mais estabilidade.
Liderança nacional em 12 setores mostra força da diversificação
Os dados da FACISC revelam um protagonismo que vai muito além da proteína animal.
Santa Catarina responde por metade de toda a maçã produzida no Brasil, concentra 23% da produção nacional de carne suína e impressiona na maricultura, sendo responsável por 86% da produção brasileira de ostras, vieiras e mexilhões. O estado também lidera em conservas de peixe, processamento têxtil, ovos de codorna, alevinos e diversas cadeias de alto valor agregado.
A diversificação aparece como uma das maiores fortalezas catarinenses. Enquanto outras regiões dependem fortemente de uma ou duas culturas, Santa Catarina distribui sua força entre agropecuária, indústria, pesca, maricultura, tecnologia e exportação.
Exportações batem recorde e reforçam papel estratégico do Estado
Mesmo diante de um cenário internacional marcado por tensões comerciais, embargos sanitários e aumento da concorrência global, o agronegócio catarinense registrou em 2025 o maior volume de exportações da sua história.
Foram US$ 8,4 bilhões embarcados para o exterior, consolidando Santa Catarina como o oitavo maior exportador do agro brasileiro e um dos cinco maiores exportadores agroindustriais do país.
O desempenho reforça a capacidade catarinense de atender mercados exigentes e diversificar destinos comerciais, reduzindo riscos em períodos de instabilidade internacional.
Tecnologia ajuda a explicar o sucesso catarinense
Outro destaque do estudo é o avanço da inovação.
Santa Catarina abriga atualmente 85 startups voltadas ao agronegócio e ocupa a sétima posição nacional entre os ecossistemas de agtechs. Quando o assunto é software para o campo, o estado sobe para a quarta colocação brasileira.
O dado ajuda a explicar por que uma área territorial relativamente pequena consegue competir com estados que possuem dezenas de vezes mais terras agricultáveis.
A tecnologia deixou de ser diferencial para se tornar parte da identidade do agro catarinense.
Tilápia escapa de classificação e setor ganha tempo para reagir
Depois de semanas de mobilização do setor produtivo, a Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) decidiu adiar qualquer definição sobre a possível classificação da tilápia como espécie exótica invasora. Em vez de votar a inclusão imediata, o órgão criou um grupo de trabalho que terá 90 dias para discutir critérios técnicos e científicos relacionados ao tema.
A decisão foi recebida com alívio pela cadeia produtiva.
A tilápia representa aproximadamente 70% da produção aquícola brasileira e responde por mais de 85% das exportações nacionais da piscicultura. Segundo estimativas da Peixe BR, uma classificação precipitada poderia gerar perdas superiores a US$ 38 milhões apenas nas exportações.
O debate está longe de terminar, mas o adiamento foi interpretado como uma vitória temporária do setor produtivo.
Brasil se prepara para auditoria decisiva da União Europeia
Entre os dias 8 e 19 de junho, o Brasil receberá uma nova auditoria da União Europeia que poderá abrir caminho para a retomada das exportações de pescado ao bloco europeu, suspensas desde 2017.
A missão inclui inspeções em Santa Catarina e no Rio Grande do Norte e vai avaliar condições sanitárias, rastreabilidade, fiscalização e controle da cadeia produtiva.
O governo federal trata a visita como estratégica. O setor produtivo também.
Para a indústria pesqueira brasileira, a reabertura do mercado europeu significaria recuperar acesso a um dos mercados mais importantes e exigentes do mundo.
Nova lei valoriza pesca artesanal
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que cria a Semana Nacional de Promoção da Pesca Artesanal, que será celebrada anualmente na semana do dia 29 de junho.
A iniciativa tem como objetivo ampliar a valorização da atividade, incentivar políticas públicas para o setor e promover o debate sobre a importância econômica, cultural e social da pesca artesanal brasileira.
A escolha da data faz referência a São Pedro, considerado pela tradição católica o padroeiro dos pescadores.
Santa Catarina mostra que o futuro do agro não está na terra infinita
O Mapa do Agro Catarinense ajuda a explicar por que Santa Catarina ocupa uma posição tão singular dentro do agronegócio brasileiro. O estado não disputa liderança pela quantidade de terra disponível, mas pela capacidade de transformar produção em valor agregado, emprego, tecnologia e exportação.
Num momento em que o agro nacional debate crédito, endividamento, infraestrutura e competitividade internacional, os números apresentados pela FACISC mostram que o modelo catarinense continua sendo uma das experiências mais bem-sucedidas do país.
O desafio agora é garantir que logística, inovação e segurança regulatória acompanhem a velocidade de um setor que segue crescendo acima da média brasileira.





