Artigo de Marcia Sardá Espíndola, reitora da FURB e Presidente da ACAFE

O Brasil vive uma contradição silenciosa. Ao mesmo tempo em que milhões de jovens ainda encontram dificuldades para acessar e permanecer no ensino superior, diversos setores da economia já enfrentam escassez de profissionais qualificados. Faltam professores, enfermeiros, profissionais da tecnologia, engenheiros, técnicos especializados e mão de obra preparada para acompanhar as transformações do mercado e da sociedade.
O problema já deixou de ser uma projeção para se tornar realidade econômica. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a falta de trabalhadores qualificados se tornou um dos principais gargalos da indústria brasileira. Antes da pandemia, o tema aparecia entre as preocupações de cerca de 5% do setor. Hoje, ultrapassa 23% e já figura entre os maiores entraves ao crescimento da economia nacional.
O alerta se intensifica diante de outro dado importante: o Brasil encerrou 2025 com a menor taxa de desemprego da série histórica do IBGE, chegando a cerca de 5%. Isso significa que o país começa a viver um cenário diferente daquele debatido durante décadas. O desafio já não é apenas gerar empregos. O grande desafio agora é formar pessoas preparadas para ocupá-los.
E os próximos anos tendem a aumentar ainda mais essa pressão. O Mapa do Trabalho Industrial, elaborado pelo SENAI, estima que o Brasil precisará qualificar mais de 9,4 milhões de trabalhadores até 2028 para atender às demandas da economia. Somente na área de tecnologia, estudos da Brasscom apontam necessidade de quase 800 mil novos profissionais. Na engenharia, o país já enfrenta déficit estimado de 75 mil engenheiros, enquanto o número de ingressantes nos cursos da área caiu nos últimos anos.
Na saúde e na educação, o cenário também preocupa. O envelhecimento populacional, o aumento da expectativa de vida e as novas demandas sociais devem ampliar ainda mais a necessidade de profissionais qualificados nas próximas décadas. Relatórios internacionais já apontam as áreas de saúde, educação e tecnologia entre as profissões mais demandadas do futuro.
Santa Catarina, no entanto, parece ter entendido esse movimento antes de grande parte do país.
Enquanto muitos estados ainda discutem como enfrentar evasão escolar, falta de acesso à universidade e apagão de profissionais, Santa Catarina decidiu agir de forma estruturada, transformando a educação superior em uma política estratégica de desenvolvimento econômico e social.
O programa Universidade Gratuita, aliado ao sistema comunitário de ensino superior representado pela ACAFE, talvez seja hoje uma das iniciativas mais inteligentes e visionárias do Brasil quando o assunto é formação de capital humano.
Mais do que ampliar vagas nas universidades, Santa Catarina está construindo uma política pública capaz de formar os profissionais que irão sustentar o desenvolvimento do estado nas próximas décadas.
Os números ajudam a compreender a dimensão dessa transformação. Atualmente, cerca de 67 mil estudantes são beneficiados pelos programas Universidade Gratuita em Santa Catarina. Destes, 82% vieram da escola pública e 85% conciliam estudo e trabalho. É uma política que alcança justamente quem historicamente esteve mais distante da universidade.
Mas existe um aspecto ainda mais estratégico nessa discussão: permanência.
Durante muitos anos, o Brasil concentrou esforços apenas no acesso ao ensino superior. O desafio agora é outro. Não basta entrar na universidade. É preciso permanecer nela, concluir a formação e transformar conhecimento em oportunidade real de vida e desenvolvimento econômico.
E isso possui impacto direto na competitividade dos estados.
Santa Catarina vive hoje um dos mercados mais aquecidos do Brasil. O estado possui uma das menores taxas de desemprego do país, próxima do pleno emprego, com índices entre 2% e 3%. A indústria cresce, o setor de tecnologia se expande, a construção civil avança, a saúde demanda profissionais e os serviços especializados se multiplicam.
Sem mão de obra qualificada, esse crescimento encontra limites.
É justamente nesse ponto que Santa Catarina sai na frente do restante do Brasil.
Enquanto muitos estados ainda enfrentam dificuldade para estruturar políticas permanentes de formação profissional, Santa Catarina constrói uma estratégia integrada entre governo, universidades comunitárias e desenvolvimento regional.
O diferencial do sistema ACAFE está justamente na sua presença em todas as regiões catarinenses, conectado às necessidades locais e às vocações econômicas de cada território. Isso significa formar profissionais onde eles realmente são necessários.
É o enfermeiro que permanece no interior. O professor que retorna para sua comunidade. O engenheiro que ajuda a desenvolver sua região. O profissional da tecnologia que fortalece ecossistemas de inovação fora dos grandes centros.
Essa lógica possui impacto direto na economia catarinense porque evita concentração de oportunidades apenas nas capitais e ajuda a distribuir desenvolvimento, renda e qualificação profissional por todo o estado.
Existe ainda outro diferencial importante: a contrapartida social.
O Universidade Gratuita criou um modelo em que o estudante também devolve à sociedade parte desse investimento por meio de serviços e atuação comunitária. Na prática, isso já representa milhares de acadêmicos contribuindo em hospitais, unidades de saúde, escolas, projetos sociais, assistência jurídica e ações comunitárias em diversas regiões catarinenses.
Ou seja: a sociedade investe na formação e recebe esse retorno ainda durante o processo universitário.
O debate sobre ensino superior precisa deixar de ser tratado apenas como despesa pública. Países desenvolvidos compreenderam há muito tempo que investir em educação é investir em produtividade, inovação, competitividade, renda e crescimento sustentável.
E Santa Catarina parece ter compreendido isso antes da maior parte do Brasil.
O futuro das economias mais fortes do mundo será definido menos pela quantidade de recursos naturais e muito mais pela capacidade de formar pessoas preparadas para lidar com os desafios da nova economia.
Nesse cenário, talvez o maior diferencial competitivo de Santa Catarina não esteja apenas em sua indústria forte, no agronegócio eficiente ou nos índices econômicos positivos.
Talvez esteja justamente nas pessoas que o estado está formando hoje.





