Artigo de Sílvia Medeiros, jornalista e mãe trabalhadora

Sair de casa com os filhos ainda dormindo, enfrentar mais de uma hora no trânsito, contar com a ajuda de amigos, vizinhos e parentes para levar e buscar as crianças na escola e na creche. Chegar em casa à noite sem quase conviver com os filhos e ter apenas o domingo para lavar roupa, organizar a casa e, se ainda restar alguma energia, passar um pouco de tempo ao lado da família e dos amigos antes que a rotina inicie na semana seguinte.
Essa é a realidade de milhares de mães trabalhadoras brasileiras. Em um país onde 51,7% dos lares são chefiados por mulheres, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do IBGE, milhões delas enfrentam diariamente uma dupla e muitas vezes tripla jornada. Além do trabalho formal, acumulam responsabilidades domésticas e de cuidado, dedicando cerca de cinco horas semanais a mais do que os homens às tarefas da casa. Nas grandes cidades, a situação se agrava com a falta de mobilidade urbana e a moradia distante do trabalho, com longas horas de deslocamento.
Por isso, o debate sobre o fim da escala 6×1 tem relação direta com a qualidade de vida das mães trabalhadoras e de suas famílias. De acordo com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cerca de 14,8 milhões de trabalhadores, o equivalente a 33,2% dos ocupados no país, estão submetidos a jornadas de seis dias de trabalho para apenas um de descanso. Os estudos não identificam quem desta força de trabalho são homens ou mulheres, mas se avaliarmos as categorias que são as mais predominantes com esta escala, identificamos grupos de serviços, característicos por empregar mais mulheres do que homens, como a área do comércio (42,2%), o alojamento (52%) e os serviços de alimentação (47,1%).
Reduzir a jornada de trabalho é um avanço civilizatório que o Brasil ainda não acompanhou, mesmo com o crescimento do uso de tecnologias e dos ganhos de produtividade, as jornadas continuam exaustivas, provocando adoecimento físico e mental. E, mais uma vez, são as mulheres as mais afetadas. A rotina pesada, somada ao desgaste do deslocamento diário e às responsabilidades domésticas, impede mães de acompanharem o crescimento dos filhos e afeta diretamente toda uma geração.
Em uma sociedade que já sobrecarrega as mães com cobranças e responsabilidades desiguais, mantê-las submetidas a jornadas exaustivas sob o argumento de proteger a economia é aprofundar ainda mais o adoecimento social. Os discursos de entidades empresariais que se opõem ao fim da escala, que falam em desemprego e caos econômico, não se sustentam diante das experiências já realizadas em diferentes lugares do mundo e até no Brasil. Empresas que reduziram jornadas registraram aumento de produtividade e melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores. Um exemplo recente é o da rede de supermercados Pague Menos, do interior de São Paulo, que iniciou um projeto piloto de escala 5×2 e passou a atrair mais trabalhadores para suas vagas.
O debate está no foco do Congresso Nacional. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho está pronta para votação na Câmara dos Deputados e possivelmente irá para votação nesta última semana de maio. Em Santa Catarina, porém, dos 16 deputados federais, 14 assinaram emendas propondo adiar o fim da escala por dez anos. O principal argumento apresentado pelos parlamentares catarinenses é de que a proposta teria caráter eleitoreiro e, portanto, não seria urgente.
Mas, enquanto o debate político se arrasta, a vida real segue impondo sacrifícios diários às mães trabalhadoras. Filhos continuam crescendo longe de suas mães, mulheres seguem saindo de casa antes do amanhecer e retornando tarde da noite para garantir o sustento da família.
A aprovação do fim da escala 6×1 representa uma dívida histórica com as trabalhadoras brasileiras. O último grande debate sobre jornada de trabalho ocorreu na Constituição de 1988. Desde então, a participação feminina no mercado de trabalho cresceu de cerca de 35% para mais de 50% da força de trabalho do país, sem que houvesse uma atualização proporcional das condições de vida e trabalho dessas mulheres.
Garantir uma jornada menor não é apenas discutir economia ou produtividade, é discutir dignidade, saúde, convivência familiar e qualidade de vida. É permitir que mães possam estar presentes na vida de seus filhos e é reconhecer que trabalho não pode significar ausência permanente, exaustão e adoecimento.
Portanto, defender o fim da escala 6×1 é, acima de tudo, defender a família e as mães trabalhadoras!





