Em abril de 2002 Roseana Sarney, então governadora do Maranhão, despontava nas pesquisas de opinião como pré-candidata à Presidência da República, na sucessão de Fernando Henrique Cardoso. A Polícia Federal deflagrou a Operação Lunus e apreendeu uma grande quantidade em dinheiro na empresa onde o marido de Roseana era sócio.

Sua candidatura, naquele dia foi por água baixo. José Serra (PSDB) perdeu para Lula, que após três tentativas teve sua primeira vitória.
Diferente do que ocorreu em 2002, o caso Master não deve arrancar um único voto do bolsonarismo raiz. Não existe a menor chance de um eleitor cristalizado da família Bolsonaro abandonar o barco porque o senador Flávio Bolsonaro recebeu uma bolada do Banco Master, de Daniel Vorcaro, para financiar um filme sobre o pai.
O áudio divulgado pelo Intercept, no qual Flávio chama Vorcaro de “irmão” e afirma que “está junto para sempre”, simplesmente não atravessa a blindagem emocional desse eleitorado. Para essa turma, bastou a explicação divulgada na quarta-feira: era apenas um filho buscando recursos privados para fazer um filme sobre o pai. Caso encerrado.
O problema mora em outro lugar. Numa nesga do eleitorado que aparece nas pesquisas entre os independentes — nem lulistas, nem bolsonaristas, nem militantes profissionais de rede social. É justamente esse grupo que decidiu a eleição de 2022 e tende a decidir a de 2026.
Esse eleitor talvez não veja crime no episódio. Mas pode enxergar promiscuidade. E isso basta.
Parte daqueles que cogitavam votar em Flávio Bolsonaro apenas como instrumento para derrotar Lula pode começar a procurar alternativas menos contaminadas. Nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado agradecem.
Pesquisas já mostravam reação de Lula
A crise surgiu justamente quando Luiz Inácio Lula da Silva ensaia uma pequena recuperação nas pesquisas.
Levantamento da Quest divulgado na terça mostrou melhora discreta tanto na aprovação do governo quanto na disposição do eleitor em reelegê-lo.
A reação estaria ligada ao lançamento de medidas econômicas anunciadas na semana passada e também à conversa de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Aliás, Trump vai se consolidando como um improvável cabo eleitoral de Lula. Para desespero do bolsonarismo, cada gesto intempestivo do americano ajuda o petista a posar de adulto responsável na sala.
A próxima rodada de pesquisas deverá medir o estrago do episódio Flávio Bolsonaro/Daniel Vorcaro/Banco Master. No dia 19 sai nova pesquisa Atlas/Intel.
Zema constrange aliados em Santa Catarina
Romeu Zema desembarca em Santa Catarina neste fim de semana para agendas com o Novo, partido que no Estado virou puxadinho eleitoral do PL, inclusive indicando Adriano Silva como vice de Jorginho Mello.
Mas Zema chegou chutando a porta.
Na quarta-feira, mal o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro havia explodido, o mineiro já tratava de ornamentar o caixão político do aliado. Disse que o áudio era “um tapa na cara do brasileiro de bem” e classificou o episódio como “imperdoável”.
Os bolsonaristas catarinenses esperavam solidariedade. Receberam uma entrada estilo Júnior Baiano em final de campeonato.
O constrangimento na aliança foi imediato. Lideranças do Novo em Santa Catarina já correram para tentar amortecer a fala do presidenciável.
A visita de Zema coincide com a passagem recente de Flávio Bolsonaro pelo Estado. Vai ser interessante observar como a militância bolsonarista receberá alguém que ousou fazer aquilo que eles mais detestam: criticar um Bolsonaro em público.
Com previsão de frio no fim de semana, Zema talvez descubra que o clima político catarinense consegue ser ainda mais congelante.





