Minha homenagem aos 100 anos da Ponte Hercílio Luz neste dia 13 de maio de 2026 é um resgate. Um dos maiores orgulhos que tenho nos 20 anos de carreira que completo este ano foi a série de reportagens sobre Victor Konder e Ruth Ramos, cujo noivado desfeito faz parte da gênese da maior rivalidade política da histórica de Santa Catarina.
A Ponte Hercílio Luz surgiu imponente em meio à apuração dessa história e da trajetória das famílias Konder Bornhausen e Ramos. Victor Konder foi secretário de Fazenda, Viação e Obras Públicas durante praticamente todo o processo de construção – de outubro de 1922 a março de 1926. Deixou o cargo 43 dias antes da inauguração para concorrer a deputado federal. Assim como o então governador Antonio Pereira Oliveira, que também se desincompatibilizou para concorrer ao Senado, perdeu o nome na placa.
Curiosamente, Victor Konder pouco viveu o mandato de deputado federal. Foi escolhido pelo presidente Washington Luiz para ser seu ministro de Viação e Obras Públicas, cargo que ocupou até a Revolução de 1930 depor aquele governo e toda a chamada República Velha para dar início à Era Vargas.
Faço aqui o resgate do trecho de um dos capítulos da série de reportagens “Victor e Ruth: o romance que moldou a política catarinense” para celebrar os 100 anos da Ponte Hercílio Luz e do impacto que ela causou e causa até hoje. Também para resgatar a figura de Victor Konder, que perdeu a placa por conta de prazos eleitorais. Aproveito, ainda, para parabenizar o Diário Catarinense pelos seus 40 anos, completados no último dia 5 de maio.

Ponte Hercílio Luz leva Victor Konder para o ministério
Era junho de 1926, o Brasil vivia o final do conturbado governo do presidente Arthur Bernardes e já tinha um sucessor eleito – Washington Luiz, escolhido sem real disputa. No ciclo “café com leite”, depois do mineiro Bernardes, era a vez do então governador paulista. Entre a eleição em março e a posse em setembro, Washington viajou o Brasil, incluindo no roteiro as cidades catarinenses de Joinville, Blumenau e Florianópolis.
Os blumenauenses prepararam um banquete e colocaram Victor Konder para discursar ao presidente eleito. Washington lembrou-se dele, da época em que despontou como promessa na Faculdade de Direito paulista. Victor fez jus à fama e brilhou em seu discurso.
Narrou ao presidente eleito como um grupo de colonizadores alemães transformou Blumenau em uma bela e ordeira cidade de 93 mil habitantes e 30 mil quilômetros de estradas internas, que conseguia a proeza de investir 80,5% de tudo que arrecadava.
Washington ficou impressionado. Ficaria ainda mais com o que veria no dia seguinte, em Florianópolis.
O orgulho dos catarinenses pela Ponte Hercílio Luz, recém-inaugurada, era tão grande que a festa para receber o presidente foi feita na cabeceira continental. Quando ele chegou, por volta do meio-dia, estavam lá as autoridades, com direito a banda de música e participação popular.
Washington não conseguiu esconder o entusiasmo pela nova ponte. Recebido no Palácio do Governo pelo governador Antonio Pereira e Oliveira, lembrou em seu discurso que seu mote era “governar é construir estradas”. Via o futuro sob as rodas dos automóveis.
Depois de mais alguns discursos e visitas, Washington decidiu voltar para à Ponte Hercílio Luz em que fora recebido para uma visita mais detalhada. Desceu do carro e contemplou as várias peças que formavam a maravilhosa estrutura metálica da quinta maior ponte pênsil do planeta. A bengala, sempre a mão, deve ter sido utilizada para pequenas batidas no metal.
O presidente ainda olhou demoradamente para a vista das duas baías da Ilha de Santa Catarina, tão exuberantes quanto a construção. Voltou de carro para o Palácio, onde seguiu a programação de discursos e banquetes. Embarcou para o Rio Grande do Sul por volta das 23h, novamente com direito a banda de música. Levou de Florianópolis aquela imagem e uma surpreendente ideia na cabeça.
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Era 13 de outubro de 1926, quatro meses depois da visita do presidente eleito Washington Luiz. Florianópolis acordou com um boato, que no início da tarde vira rumor e se confirma como notícia antes do anoitecer: um telegrama do Rio de Janeiro confirmava que o catarinense Victor Konder seria o novo ministro de Viação e Obras Públicas.
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“Mas quem é Victor Konder?”
A pergunta era recorrente no Rio de Janeiro naquele outubro de 1926. Washington Luiz havia escolhido um desconhecido para ser ministro de Viação e Obras Públicas.
Mesmo entre parlamentares aliados, o desconhecimento era amplo. “É um notável engenheiro”, garantiu o senador Francisco da Cunha Machado, do Maranhão, em uma roda de políticos – ignorando que o catarinense era advogado. Para outro grupo, o senador João Lyra, do Rio Grande do Norte, chegou a dizer que Victor era o “Rui Barbosa de Santa Catarina”. Ouviu, de pronto, a resposta e a gargalhada geral:
– Mas que epidemia de Ruis tem aparecido.
A curiosidade seria saciada em 5 de novembro, com a posse de Victor na Câmara dos Deputados. A expectativa foi tratada de maneira jocosa no Correio da Manhã (“mal correu a nova de que ele se achava na casa, foi um reboliço medonho”) e no A Manhã (“até parecia o menino Deus entre os doutores”).
O catarinense não era o único ministro a chamar atenção e ser alvo de ironias. O jornalista Mário Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, apelidou o grupo de “o ministério das negações espontâneas”, especulando que o presidente escolhia auxiliares fracos para mandar sem intermediários.
Além de Victor, estava na mira a escolha de um obscuro deputado federal gaúcho para o Ministério da Fazenda. Seu nome era Getúlio Vargas.
Esse é um trecho dos capítulos três e quatro dos textos originais, não editados, da série “Victor e Ruth: romance que moldou a política catarinense”, publicada no Diário Catarinense entre 19 e 25 de janeiro de 2014. Em breve o texto completo, revisado e ampliado, terá uma nova edição.





