07/05/2026

Quando a imprensa decidia quase tudo

Nesta semana, fui convidada a conversar com estudantes de jornalismo e um deles me questionou sobre a crise de imagem mais marcante da minha trajetória profissional. E me dei conta de que ela aconteceu muito antes de algoritmos, cancelamentos e redes sociais transformarem a reputação em um campo de batalha permanente.

No início dos anos 2000, Florianópolis acompanhou uma disputa pública envolvendo dois grandes empreendimentos comerciais. A imprensa estava no centro da crise. Era ela quem pautava o debate, amplificava versões e influenciava diretamente a percepção da sociedade.

Lembro da sensação de entrar na sede do principal jornal do estado carregando documentos, argumentos técnicos e a versão do cliente, na tentativa de equilibrar uma cobertura que nos parecia desfavorável. Havia Ministério Público, Judiciário, empresários, políticos e interesses econômicos em disputa. Mas havia também algo que eu entenderia melhor anos depois: crises raramente são vencidas apenas nos fatos.

Na época, eu ainda acreditava que informações organizadas com clareza seriam suficientes para reorganizar uma crise. Não eram.

Olhando para trás, percebo que aquela experiência antecipava algo que hoje se tornou ainda mais evidente: versões emocionalmente simples costumam ocupar mais espaço na memória coletiva do que explicações complexas.

A dinâmica da cobertura favorecia quem conseguia ocupar espaço público com mais rapidez, disponibilidade e capacidade de síntese. Enquanto isso, nossa atuação era frequentemente reativa, tentando responder a interpretações que já começavam a se consolidar.

E interpretações consolidadas têm enorme capacidade de permanência.

Muita gente acredita que a radicalização reputacional nasceu com as redes sociais. Não nasceu. O que as plataformas fizeram foi acelerar, descentralizar e ampliar um fenômeno que já existia: a necessidade de transformar temas complexos em mensagens rápidas, emocionais e facilmente compartilháveis.

A diferença é que, naquela época, perder espaço na imprensa significava perder quase toda a arena pública. Hoje o ambiente é fragmentado, veloz e permanente. Há mais vozes, mais contrapontos e mais possibilidades de reação. Mas também há menos mediação e menos tempo para contextualização.

A tecnologia mudou profundamente a circulação das crises. Mas olhando para trás, percebo que a essência continua parecida. Reputação nunca foi construída apenas com fatos. Sempre dependeu da capacidade de dar sentido a eles.

Quer colaborar com a coluna? Mande sua sugestão para [email protected] 

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.