
A JBS virou alvo nos Estados Unidos por suspeita de concentração no mercado de carnes. Enquanto isso, no Brasil, o produtor rural tenta renegociar dívida para ganhar prazo mas sem comprometer o acesso ao crédito.
É o retrato de um agro que aparece grande no mundo, mas continua espremido dentro de casa. Lá fora, o Brasil incomoda pelo tamanho. Aqui dentro, o produtor ainda briga para conseguir financiar a próxima safra.
Desenrola Rural volta à mesa, mas dívida, juros e pressão externa seguem no centro do agro
O governo decidiu agir onde a crise já está instalada.
A nova fase do Desenrola Rural, anunciada pelo Governo Federal, retoma um dos principais instrumentos de reorganização financeira do campo com um objetivo claro: tirar o produtor da inadimplência e recolocá-lo no sistema de crédito. A medida amplia o alcance do programa, reabre o prazo de adesão até dezembro de 2026 e tenta responder a um cenário que se agravou ao longo dos últimos dois anos.
Mais de R$ 23 bilhões já foram renegociados desde a criação do programa, beneficiando cerca de 500 mil produtores. Agora, a meta oficial é ampliar esse número para mais de 800 mil agricultores familiares, dentro de um universo estimado em 1,3 milhão de pessoas.
A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, afirma que a nova etapa chega com condições mais amplas, incluindo novos públicos e instrumentos de renegociação.
O programa permite parcelamentos de até dez anos, com descontos e possibilidade de liquidação conforme o perfil da dívida. Agricultores familiares, assentados da reforma agrária, pescadores artesanais e cooperativas podem aderir, desde que tenham débitos em atraso há mais de um ano.
A medida, no entanto, vem acompanhada de um ponto que ainda gera cautela no setor: o governo não detalhou completamente as novas condições de crédito que acompanharão a renegociação. Na prática, isso mantém uma dúvida recorrente no campo: a de que limpar o nome não garante, necessariamente, acesso a financiamento sustentável na sequência.
Entidades como a Contag apontam que há um contingente significativo de produtores fora das linhas tradicionais, especialmente aqueles que não se enquadram no Pronaf ou nos fundos constitucionais. Para esse grupo, o risco permanece: sair da inadimplência sem uma porta de crédito viável pode significar apenas adiar o problema.
Plano Safra cresce no papel, mas esbarra no custo do dinheiro
O debate sobre crédito ganha outra dimensão quando se olha para o próximo Plano Safra.
A proposta em construção no Ministério da Agricultura pode superar R$ 600 bilhões, com projeções que chegam a R$ 625 bilhões um salto relevante em relação aos R$ 516 bilhões do ciclo anterior. No entanto, o volume anunciado não resolve, por si só, o principal gargalo apontado pelo setor: o custo do financiamento.
O próprio ministro André de Paula reconhece que o desafio está na equalização das taxas. Em um ambiente de juros elevados e maior rigor nas exigências para liberação de crédito, parte dos produtores já evita novas operações, mesmo diante da necessidade de investimento.
A discussão dentro do setor mudou de tom. O foco deixou de ser expansão e passou a ser sobrevivência financeira. Alongamento de dívidas, securitização e revisão de regras passaram a dominar o debate, enquanto novas exigências ambientais para concessão de crédito aumentam a percepção de insegurança.
Terras raras entram na pauta e reposicionam o Brasil no tabuleiro global
No Congresso, a semana também avança sobre um tema estratégico que vai além do agro, mas que impacta diretamente o setor: a política para minerais críticos e estratégicos.
O projeto relatado pelo deputado Arnaldo Jardim deve ser votado ainda nesta semana e propõe uma mudança relevante na forma como o Brasil se posiciona nesse mercado. A ideia é limitar a exportação de matéria-prima bruta e incentivar o processamento interno, agregando valor à produção.
O texto prevê incentivos fiscais, criação de um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões e maior controle sobre investimentos e operações no setor, incluindo a participação de capital estrangeiro. Minerais como lítio, cobalto e nióbio, essenciais para a transição energética e tecnologias de ponta, entram no centro dessa estratégia.
A proposta sinaliza uma mudança de postura: o país tenta sair da condição de exportador de commodities minerais para assumir um papel mais relevante na cadeia global de valor.
Viagem aos Estados Unidos coloca o agro no centro da agenda diplomática
A política externa também está no radar do agro nesta semana.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca hoje, 6, para os Estados Unidos em um momento delicado das relações comerciais. O vice-presidente Geraldo Alckmin aposta em uma agenda baseada no diálogo, destacando a importância da relação bilateral para investimentos e comércio.
O encontro ocorre em meio a uma investigação aberta pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre possíveis práticas anticoncorrenciais na indústria de carnes. Empresas brasileiras, como a JBS, estão entre os alvos da apuração, que também envolve grandes grupos internacionais.
A repercussão internacional adiciona pressão sobre o setor e reforça a necessidade de alinhamento entre política externa e interesses econômicos do agro brasileiro.
Santa Catarina amplia investimento e reforça modelo de proximidade com o produtor
Enquanto Brasília ajusta políticas e negocia soluções, Santa Catarina mantém o foco na execução.
O governo do estado anunciou um pacote de medidas que inclui a entrega de 56 equipamentos agrícolas para 40 municípios, totalizando R$ 10,8 milhões em investimentos. A iniciativa envolve desde tratores e implementos até equipamentos para apoio direto à produção.
O governador Jorginho Mello destacou o caráter prático das ações:
“Estamos colocando as coisas para acontecer lá na ponta, onde o produtor precisa. É equipamento chegando, programa novo saindo do papel e apoio direto para melhorar a vida no campo.”
Além disso, o estado regulamentou a compra de alimentos da agricultura familiar, garantindo que pelo menos 30% das aquisições públicas sejam feitas junto a produtores locais. A medida fortalece a renda no campo e amplia o acesso ao mercado institucional.
Outro destaque é o lançamento do Programa Estadual de Controle dos Borrachudos, com investimento superior a R$ 2 milhões e previsão de atendimento a até 135 municípios. A ação combina controle biológico, capacitação e monitoramento, com impacto direto na qualidade de vida das comunidades rurais.
O secretário Admir Dalla Cort reforçou o alcance das medidas:
“Essas ações chegam diretamente ao produtor rural e às comunidades, com mais estrutura no campo, ampliação de mercados para a agricultura familiar e melhoria da qualidade de vida.”
Na área educacional, o projeto Hortas do Saber prevê a distribuição de 100 mil kits de sementes para escolas públicas, integrando educação alimentar, sustentabilidade e formação prática.
A secretária de Educação, Luciane Bisognin Ceretta, também destacou o impacto da iniciativa:
“Ao implantar hortas pedagógicas, estamos promovendo não apenas o conhecimento sobre o meio ambiente, mas também incentivando hábitos alimentares mais saudáveis desde a infância.”





