06/05/2026

O voto além do rótulo. Por Maurício Locks

Artigo de Maurício Locks, jornalista.

A política adora ironias. E poucas são tão evidentes, e ao mesmo tempo pouco exploradas, quanto a que se desenha em Santa Catarina.

Um partido conservador, frequentemente associado a uma visão mais tradicional de sociedade, deve protagonizar um dos movimentos mais interessantes deste ciclo eleitoral. O Partido Liberal deve levar três mulheres ao topo das urnas em diferentes disputas nas eleições desse ano.

Caroline de Toni ao Senado, Júlia Zanatta à Câmara Federal e Ana Campagnolo à Assembleia Legislativa aparecem como protagonistas dessa disputa. Pelos números de pesquisas e pelo desempenho nas redes sociais, as três têm potencial real de liderar suas respectivas votações.

Há, aqui, uma primeira aparente contradição. Como um campo político acusado de restringir pautas femininas se torna, na prática, um dos principais vetores de protagonismo feminino nas urnas? O método mostra o que o rótulo não mostra.

As três trajetórias têm pontos em comum que ajudam a explicar esse fenômeno. Há trabalho de base consistente e, principalmente, domínio da comunicação direta com o eleitor.

Não dependem de estruturas partidárias tradicionais. E falam com o público de forma clara, com narrativas e posicionamento.

Isso desloca o eixo da análise.
Não se trata de concessão de espaço, mas de conquista. Não é uma pauta identitária clássica, mas uma ocupação prática de espaço político via voto.

E isso revela uma segunda camada da contradição: enquanto parte do debate público ainda discute representação feminina a partir de mecanismos formais ou cotas, o eleitorado, na prática, já legitima lideranças que conseguem estabelecer conexão, independentemente do campo ideológico.

Outro ponto relevante é o papel do digital. As três candidatas operam com eficiência em redes sociais, transformando engajamento em capital político. Em um ambiente onde atenção virou moeda, isso pesa muito. A comunicação deixou de ser acessório e passou a fazer parte da estrutura de poder.

Esse fator também ajuda a explicar por que nomes com forte presença digital conseguem furar bolhas, mobilizar bases e disputar protagonismo com mais intensidade.

No fim, o que se observa em Santa Catarina é um retrato das transformações em curso na política brasileira. As categorias tradicionais, como esquerda, direita, conservador e progressista, seguem relevantes, mas já não explicam tudo.
Há dinâmicas novas em jogo. E, muitas vezes, elas aparecem justamente nas contradições.

Porque, na política, não raro, é o improvável que revela o que realmente está mudando.

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