Artigo de Ana Luiza Ciscato, pedagoga, arteeducadora e professora de dança

Nesta quarta-feira, 29 de abril, celebramos o Dia Mundial da Dança. Mais do que uma data festiva, é um momento para refletirmos sobre o corpo como território de expressão e, acima de tudo, como ferramenta de inclusão social. Ao longo da minha trajetória, aprendi que desenvolver um trabalho inclusivo exige abraçar uma visão de mundo onde as inteligências e capacidades diferentes não são obstáculos, mas a própria essência que agrega novas possibilidades à sociedade.
Como bem provocou Simone de Beauvoir: “Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite; que a liberdade seja nossa própria substância”. Na dança, essa liberdade se materializa quando desconstruímos o olhar “normatizado”. Segundo Vigotsky, a deficiência afeta, primordialmente, as relações sociais. O “defeito orgânico” muitas vezes é lido como uma mudança de status, gerando segregação. A arte surge, então, como o caminho para a compensação social, transformando não a deficiência, mas o olhar do outro.
Em minha experiência à frente da Lápis de Seda – Cia de Dança Inclusiva, em Florianópolis, percebo que a dança é o fio condutor para o resgate da identidade. O ponto de partida é o afeto – no conceito de Henry Wallon -, ou seja, a capacidade de ser afetado pelo mundo. Ao removermos momentaneamente a etiqueta da deficiência para observar o ser humano, estabelecemos pilares de autoestima. É no corpo que se é o que se é; é nele que a individualidade se apresenta.
A trajetória da Cia Lápis de Seda é a prova viva dessa evolução. O que começou em 2004, com o grupo APAE Dança, amadureceu e ganhou o mundo. Um marco divisor foi a participação nas Olimpíadas de Londres em 2012, no espetáculo Breathe – Battle of the Winds. Ali, vi que a inclusão plena é possível: profissionais com e sem deficiência ocupando cargos de alta responsabilidade artística, movidos pelo rigor e pelo talento.
Desde 2014, a Lápis de Seda consolidou-se como uma companhia profissional. Nossos bailarinos não buscam apenas “terapia”; eles ocupam o palco como autores de suas histórias, remunerados e conscientes de seu papel. Em mais de sete espetáculos da companhia, convidamos o público a enxergar não o limite, mas o espaço que existe além dele. Que a dança continue sendo este convite: um mergulho no ser humano profundo, onde todos têm o direito de criar, expressar e, finalmente, libertar-se.





