16/04/2026

O agro bate à porta e Brasília não pode fingir que não ouviu

A semana não começou com discurso. Começou com cobrança.

A reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária foi direta ao ponto: o agro brasileiro entrou em uma zona de risco e não dá mais para empurrar.

Com crédito travado, endividamento crescente e margens comprimidas, a bancada recebeu o novo ministro André de Paula com uma missão clara:
transformar diálogo em resposta.

E a jornalista Ketrin Raitz, parceira desta coluna, estava lá, acompanhando tudo de perto.

FPA entrega a conta e lista completa de reivindicações

Nada de recado indireto.

A bancada entregou ao ministro um ofício com 15 pontos objetivos, que desenham o que hoje é prioridade para o setor:

  1. Revisão das resoluções do Conselho Monetário Nacional (CMN) que restringem o crédito rural com base exclusiva no Prodes;
  2. Garantia de que o Pronara tenha caráter apenas consultivo, sem sobreposição ao Ministério da Agricultura;
  3. Definição de cronograma para regulamentações das leis de pesticidas, autocontrole e bioinsumos;
  4. Ampliação do Plano Safra, com mais acesso ao crédito para pequenos e médios produtores;
  5. Construção de soluções estruturantes para o endividamento rural;
  6. Publicação de lista complementar de insumos com redução de 60% nas alíquotas de IBS e CBS;
  7. Participação ativa na atualização da lista de espécies exóticas invasoras;
  8. Revisão da portaria sobre classificação e comercialização de morangos;
  9. Atuação nas negociações do regulamento europeu de desmatamento (EUDR);
  10. Maior participação do setor produtivo em acordos comerciais;
  11. Esclarecimentos sobre rastreabilidade de pesticidas;
  12. Revisão da norma de certificação de grãos, mantendo caráter opcional;
  13. Cronograma para o sistema eletrônico SISPA;
  14. Regulamentação do uso de drones na agropecuária;
  15. Solução para compensação de auditores fiscais agropecuários.

Não é uma pauta. É um diagnóstico completo do setor.

Endividamento vira eixo central e R$ 30 bilhões já não bastam

O tom da reunião deixou claro: o problema é maior do que o previsto.

A aposta da bancada é o PL 5.122/2023, que pode liberar cerca de R$ 30 bilhões para repactuação.

Mas nem isso é suficiente.

O presidente da FPA, Pedro Lupion, foi direto:

“Os R$ 30 bilhões previstos já são completamente insuficientes para o tamanho do problema enfrentado.”

Tradução: não é ajuste, é socorro.

Pressão aumenta e o recado vem de todos os lados

A reunião foi além do formal. Virou um desabafo coletivo.

Lupion cobrou ação e o deputado Rafael Pezenti (MDB-SC) puxou um dos pontos mais sensíveis:

“As novas regras do Prodes precisam ser revistas com urgência. É uma medida contraditória que dificulta o acesso ao crédito.”

Outros parlamentares reforçaram o cenário:

  • produtores endividados
  • dificuldade de acesso ao crédito
  • risco de não conseguir plantar a próxima safra

O diagnóstico é unânime: o agro está produzindo, mas não está conseguindo financiar.

Ministro fala em reaproximação e promete diálogo

Diante da pressão, o ministro André de Paula adotou o tom esperado:

“Tenho disposição para construir essa relação e avançar no diálogo com a bancada.”

A proposta é retomar reuniões periódicas com a FPA e ampliar a participação do setor nas decisões.

Agora, o setor espera mais do que conversa: espera execução.

Alho cobra isonomia e exige ação imediata

Entre as pautas mais urgentes, o alho ganhou protagonismo.

Presente na reunião e em entrevista exclusiva à Ketrin Raitz, o presidente da Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa), Rafael Jorge Corsino, foi claro: elogiou o ministro, mas cobrou ação.

“É um ministro de diálogo, mas agora esperamos medidas concretas.”

Na mesa, duas prioridades:

  • investigação antidumping contra o alho argentino
  • revisão do compromisso de preço do alho chinês

O diagnóstico do setor:

  • aumento acelerado das importações
  • práticas comerciais desleais
  • irregularidades operacionais

O pedido é direto: isonomia.

Se há restrição ao produto chinês, o setor quer o mesmo tratamento ao argentino.

E mais: há denúncias de descumprimento das regras já existentes, o que agrava ainda mais a concorrência.

No campo, a leitura é simples: não é só comércio. É sobrevivência.

Santa Catarina aposta em inovação e amplia competitividade

Enquanto Brasília discute regras, Santa Catarina segue inovando.

O Ministério da Agricultura e Pecuária registrou uma nova variedade de banana desenvolvida no estado: a SCS455 banana Clarinha.

Resultado de mutação natural identificada pela Epagri, a cultivar apresenta:

  • menor escurecimento
  • melhor conservação
  • potencial comercial ampliado

Ou seja, é mais valor na prateleira.

O agro falou e agora é a vez de Brasília agir

A reunião da FPA não deixou dúvida.

O agro não está pedindo incentivo.
Está pedindo condição de continuar existindo.

O crédito travou.
O custo subiu.
O mercado pressionou.

E agora, o setor bate à porta com uma lista clara do que precisa.

Porque, no fim, o maior risco do agro hoje não está na produção, está no tempo da resposta.

E o campo, já sabemos, não espera.

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