
O Carnaval de Florianópolis já começa a desenhar suas próximas histórias, e uma delas promete ser carregada de emoção, memória e representatividade. A Os Protegidos da Princesa anunciou que levará para a Passarela Nego Quirido, em 2027, um enredo em homenagem à arte-educadora, atriz, escritora e ativista Solange Adão, uma das principais vozes da luta da mulher negra em Santa Catarina.
A escolha foi construída de forma colegiada pela escola do Mocotó e carrega um simbolismo ainda mais forte por sua conexão com o último desfile da agremiação. Em 2026, a Protegidos apresentou o enredo “14 de maio: o dia que ainda não acabou”, que contou com a colaboração de Solange. Agora, a artista passa dos bastidores para o centro da narrativa.
O convite oficial foi realizado no dia 7 de abril, em um momento marcado por emoção e reconhecimento. Em entrevista exclusiva à coluna Ponte Cultural, Solange revelou que ainda está assimilando a dimensão da homenagem.

“Só quem vive a cultura do samba, do carnaval, tem a real dimensão do que significa ser um enredo vivo de uma escola de samba. Ainda mais uma escola como a Protegidos da Princesa, que mora no meu coração. Eu já fiz de tudo por essa comunidade, sem esperar reconhecimento. E, de repente, ser enredo… é como fechar um ciclo”, afirmou.
A relação da artista com a escola é antiga e construída dentro da comunidade do Mocotó. Ao longo dos anos, Solange atuou em diferentes funções, da harmonia à organização estrutural da escola, sempre ligada diretamente ao cotidiano da agremiação.
“Colei, cortei, bordei, gritei, briguei, chorei por essa comunidade. Somos Protegidos, somos Mocotó. É amor verdadeiro”, resumiu.
Carnaval como narrativa e formação
Questionada pela coluna sobre o papel do carnaval como instrumento cultural e político, Solange foi direta ao destacar a potência das escolas de samba como espaços de formação e construção de consciência.
“A escola de samba é escola de fato. Ela ensina, alfabetiza, agrega, desenvolve. E quando traz uma mulher negra como enredo, reafirma o protagonismo do povo negro na sua própria história. A escola de samba conta a história que a história não conta”, destacou.
A escolha do enredo reforça uma tendência cada vez mais presente no nosso carnaval: a valorização de trajetórias que dialogam com identidade, ancestralidade e resistência.
Da vida para a avenida
Ao ser questionada sobre como imagina sua trajetória sendo levada para a avenida, Solange recorre à linguagem que atravessa sua vida: o teatro.
“Imagino como uma grande cena teatral. Minha vida e o carnaval se entrelaçam. É emoção, luta, arte, educação, militância, identidade. O carnaval é o maior espetáculo da Terra, e esperamos fazer um grande desfile”, completou.
Com mais de 35 anos dedicados à educação e à arte, Solange é referência na valorização da cultura afro-brasileira em Santa Catarina. Fundadora do Movimento de Atores Negros (MAN) e do Coletivo de Mulheres Negras Pegada Nagô, também coordena a Feira Afro Artesanal, a primeira feira preta da capital.
Atuação na LIESF e bastidores do carnaval
Além da trajetória artística, Solange também atua como diretora cultural e de matrizes africanas da Liga das Escolas de Samba de Florianópolis. Ao ser questionada sobre sua atuação recente, ela destacou avanços importantes, mesmo em pouco tempo de trabalho.

“Foi um período de muita dedicação. Conseguimos avançar em ações importantes, como a reformulação do Prêmio Carlos Magno e a ampliação da Benção da Passarela Nego Quirido, fortalecendo esse compromisso ancestral de pedir licença antes da folia. Ainda há muito a ser feito”, afirmou.
Emoção, representatividade e legado
Se na avenida o desfile ainda está sendo construído, nos bastidores a emoção já é presente. Ao falar sobre o impacto pessoal de se tornar enredo, Solange não esconde o sentimento.
“Ainda estou digerindo. Estou em lágrimas com tanta honraria. O corpo fala, a ansiedade aflora. Ser enredo de uma escola tão grande, de uma comunidade que eu amo, mexe comigo profundamente”, revelou.
Para ela, a mensagem que será levada à avenida vai além do espetáculo.
“É uma mensagem de luta e superação, de representatividade e resistência. De valorização da mulher negra, da educação pública, da arte para todos. De mostrar que os sonhos são possíveis quando estamos juntos.”
Em 2027, a Nego Quirido não verá apenas um desfile. Iremos assistir de perto à trajetória de uma mulher que ajudou a abrir caminhos sendo transformada em samba-enredo, história e resistência; exatamente no lugar onde sempre esteve: no coração do carnaval. Solange Adão é sinônimo de força, luta e representatividade. E é também um acerto simbólico da diretoria da Os Protegidos da Princesa homenageá-la em vida, reconhecendo uma das maiores referências do carnaval de Florianópolis e uma trajetória que ajudou e ajuda a fortalecer a cultura da cidade.
Confira abaixo um acervo fotográfico pessoal de Solange Adão, que ajuda a contar, em imagens, a trajetória de uma vida dedicada à arte, à educação e ao carnaval:













