Fechado o prazo para filiações e trocas partidárias, inicia-se a etapa decisiva de montagem das nominatas para a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa. Com exceção pontual do PL —impulsionado pela máquina governamental e com nomes em abundância—, a regra segue a mesma de sempre: partidos enfrentam dificuldades para cumprir a cota de gênero em suas chapas.

A legislação é objetiva: a cada dois homens, uma mulher. E não há mais espaço para candidaturas fictícias. A Justiça Eleitoral já consolidou entendimento —com diversos casos transitados em julgado— de cassação de chapas inteiras, especialmente em Câmaras de Vereadores, por uso de candidaturas femininas de fachada.
Nesse cenário, o MDB —que elegeu duas deputadas estaduais em 2014, Ada de Luca e Dirce Heiderscheidt— volta a se movimentar para estruturar sua nominata feminina à Alesc. Entre os nomes mais visíveis até aqui estão Andressa Pera e Leatrice Bez.
Embora carreguem sobrenomes politicamente relevantes —Andressa é casada com o prefeito reeleito de Balneário Piçarras, Thiago Blat, e Leatrice é filha do ex-deputado federal Edinho Bez—, reduzi-las a esse ponto de partida seria uma leitura apressada.
É inegável que ambas partem de posições privilegiadas. Esses vínculos oferecem estrutura, capilaridade e reconhecimento —ativos relevantes em qualquer disputa proporcional. O que chama atenção, no entanto, é o esforço consistente para construir identidade própria, para além do capital político herdado.
Andressa, empresária, busca traduzir sua experiência em discurso político, conectando gestão, empreendedorismo e presença territorial. Já Leatrice, advogada com trajetória consolidada, estrutura uma pré-campanha com viés técnico e forte articulação jurídica, procurando se posicionar não apenas como voz da representatividade feminina, mas também como defensora das demandas do sul do Estado —e não como mera extensão de um sobrenome conhecido.
Ambas parecem ter assimilado um ponto central da política contemporânea: o sobrenome abre portas, mas não sustenta campanhas competitivas por si só. É preciso ocupar espaço, gerar conteúdo político e construir densidade eleitoral.
Ao intensificarem agendas, dialogarem com segmentos e apresentarem credenciais profissionais consistentes, Andressa e Leatrice tentam justamente escapar do rótulo simplista de “nepobabies”. Mais do que herdeiras, buscam se afirmar como agentes políticas com identidade própria —condição que deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico de viabilidade eleitoral.
Movimento histórico
Esse movimento, aliás, não é novo dentro do MDB catarinense. O partido já levou à Assembleia duas deputadas com trajetórias ancoradas em ambientes familiares politicamente ativos: Dirce Heiderscheidt e Ada de Luca.
Dirce, casada com o ex-prefeito de Palhoça Ronério Heiderscheidt, construiu sua atuação com forte vínculo em causas sociais e hoje preside o MDB Mulher. Ada, por sua vez, sempre esteve inserida na política, tendo inclusive sido candidata a vice-governadora do Distrito Federal em 1989.
A origem familiar calçada na política, não impediu que ambas imprimissem identidades próprias em suas carreiras e ocupassem seus espaços, com resultados, muito além dos sobrenomes.
O que se observa, portanto, é menos uma ruptura e mais uma continuidade adaptada aos novos tempos. Andressa e Leatrice atualizam esse modelo em um contexto de maior pressão institucional e social por participação feminina. O desafio permanece: transformar visibilidade inicial e lastro familiar em densidade eleitoral própria.





