24/03/2026

Feminicídios: Por que, apesar dos esforços, seguimos falhando

As histórias de Ana Kemilli, Mônica, Eveline e Catarina, relatadas na websérie apresentada, não estavam no radar do Estado. Não havia registro de que poderiam ser mortas. E, ainda assim, foram. Foto: Cristiano Andujar/MPSC

O que o MPSC revela sobre as falhas no combate ao feminicídio

Pela primeira vez, em uma pauta sobre enfrentamento à violência contra a mulher e feminicídio, saí com a sensação de que há um caminho possível, ainda que longo e duro, para avançar na proteção às mulheres.

O pré-lançamento da websérie “Ausências, as histórias por trás do mapa do feminicídio”, realizado nesta terça-feira (24) pelo Ministério Público de Santa Catarina, foi além do relato das histórias das vítimas e de suas famílias. Trouxe elementos concretos para entender por que, apesar dos esforços, seguimos falhando.

Ao ir além das estatísticas, o Ministério Público busca respostas que, até agora, não estavam sendo plenamente consideradas pelas políticas públicas. E o que começa a aparecer ajuda a explicar por que os resultados ainda são insuficientes.

O trabalho, que será aprofundado com o lançamento do Mapa do Feminicídio na próxima semana, compromisso assumido pela procuradora-geral de Justiça do MPSC, Vanessa Cavallazzi, no dia de sua posse,  revela um problema estrutural: a violência muitas vezes não chega a ser formalizada e, sem registro, não entra no radar do Estado.

Um dos dados mais relevantes aponta que 68,9% das vítimas tinham histórico de violência. Ainda assim, cerca de 90% não possuíam boletim de ocorrência. Ou seja, a maioria dessas mulheres não estava nas estatísticas antes de ser assassinada.

Esse descompasso ajuda a explicar parte da falha. Políticas públicas são, em grande medida, construídas a partir de dados. Quando os dados são incompletos, a resposta também é.

Outro ponto que chama atenção é a ausência de políticas estruturadas para os filhos das vítimas. Segundo a própria procuradora-geral, não há hoje protocolos específicos para crianças órfãs do feminicídio,  um vazio que amplia o impacto da violência para além da vítima direta.

A websérie também reforça que os casos não são isolados. Há padrões de repetição nas trajetórias das vítimas, o que indica que o problema não está apenas no episódio final, mas em uma sequência de falhas ao longo do caminho.

É justamente nesse ponto que o trabalho do Ministério Público se torna relevante. Ao cruzar informações de processos, ouvir familiares e incorporar o que não aparece nos registros formais, a instituição amplia a compreensão do fenômeno e oferece subsídios mais consistentes para a formulação de políticas públicas.

A oscilação recente nos números,  com queda em 2024 e nova alta em 2025, mostra que ainda não há espaço para leituras otimistas. A redução pontual não representa, necessariamente, uma mudança estrutural.

“Comemorar cedo demais não é otimismo, é distração”, afirmou Vanessa Cavallazzi durante a apresentação.

Sem entender o que está fora das estatísticas, qualquer avanço tende a ser limitado. O que a websérie e o Mapa do Feminicídio colocam em evidência é que o enfrentamento à violência contra a mulher ainda depende de um passo anterior: compreender melhor o problema em sua totalidade.

E isso inclui olhar para o que não foi registrado, para o que não foi atendido e para o que não foi prevenido.

Ao fazer esse movimento, o Ministério Público não resolve o problema, mas contribui para qualificar o debate e traz um reconhecimento necessário: estamos falhando enquanto sociedade e instituições. Isso inclui jornalistas como eu.

As histórias de Ana Kemilli, Mônica, Eveline e Catarina, relatadas na websérie apresentada, não estavam no radar do Estado. Não havia registro de que poderiam ser mortas. E, ainda assim, foram.

Hoje, no auditório, ouviu-se mais do que se questionou. A cada história contada, o silêncio se impôs, não apenas pela dor dos relatos, mas pelo confronto com uma realidade que, desta vez, pareceu muito próxima. Foi um choro silencioso, coletivo, de quem entendeu que essas histórias não estão distantes. Estão entre nós.

Assista a websérie – clique aqui

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