25/03/2026

Mais crédito no papel, guerra no custo e uma praga no campo: o agro sob pressão total

O agro brasileiro começa a semana com uma contradição clássica de Brasília:

no papel, mais crédito.
na prática, mais risco.

A nova lei que amplia as garantias do Pronaf entra em vigor prometendo destravar financiamento para a agricultura familiar.

Ao mesmo tempo, a guerra no Oriente Médio encarece fertilizante, trava a queda dos juros e já complica o desenho do Plano Safra 2026/27.

E, no campo, Santa Catarina acende um alerta que não depende de mercado nem de política: praga nova, resposta imediata.

Pronaf ganha reforço e crédito tenta chegar onde antes travava

Entrou em vigor a Lei nº 15.356/2026, que permite ao Fundo Garantidor de Operações (FGO) garantir financiamentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Na prática, o governo liberou até R$ 500 milhões do fundo para ampliar as garantias de crédito.

O objetivo é direto:

Reduzir o risco para os bancos
Ampliar o acesso ao crédito
Incluir produtores que não têm garantias tradicionais

Como explicou o autor do projeto, senador Jaques Wagner (PT-BA):

“O uso do FGO reduz o risco percebido pelas instituições financeiras e amplia o acesso ao crédito.”

Também há outro ponto importante:

Não haverá cobrança de taxa pelo uso da garantia

Ou seja, o crédito tende a ficar mais barato e mais acessível.

No papel, é avanço.

Na prática, o desafio continua sendo o mesmo: transformar crédito disponível em crédito acessível.

Mercosul–UE começa a rodar e agro entra em novo jogo global

O acordo entre Mercosul e União Europeia começa a ser aplicado provisoriamente a partir de 1º de maio.

Depois de mais de 25 anos de negociação, o tratado entra em fase prática mesmo com resistências dentro da Europa.

O impacto é grande:

  • acesso a um mercado de 451 milhões de consumidores
  • redução de tarifas
  • regras comuns de comércio

Mas o acordo já nasce tensionado.

A França lidera a resistência, temendo impacto sobre seu setor agrícola, enquanto países como Alemanha e Espanha defendem a abertura.

Na prática, o agro brasileiro entra em um novo cenário:

Mais mercado

Mais concorrência
Mais exigência

China afrouxa regra da soja e embarque brasileiro respira

Depois de dias de tensão, a soja brasileira ganhou um alívio.

A China aceitou flexibilizar a exigência de tolerância zero para presença de plantas daninhas nos carregamentos.

Na prática:

  • cargas travadas poderão seguir
  • certificados voltam a ser emitidos
  • e o fluxo de exportação é normalizado

O episódio escancarou um ponto importante: o problema não era a soja.

Era o papel.

E, no auge da safra, burocracia vira gargalo logístico.

Plano Safra já nasce pressionado e juros viram obstáculo

Se o presente já preocupa, o futuro chegou mais difícil.

O Plano Safra 2026/27 ainda nem foi lançado e já enfrenta um cenário adverso:

  • Selic em 14,75%
  • custo de captação elevado
  • guerra pressionando insumos
  • endividamento crescente no campo

A estimativa é de:

  • R$ 865 bilhões de demanda por custeio
  • mais de R$ 200 bilhões para investimento

Mas o caixa público não acompanha.

A saída, como sempre, deve vir de:

Engenharia financeira

Instrumentos privados
Mais garantias

Ou seja:

o plano vai existir.

A dúvida é: a que custo?

Praga no campo: SC reage rápido ao caruru-gigante

Se Brasília discute crédito, Santa Catarina age no campo.

A Cidasc (Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina) confirmou um foco de Amaranthus palmeri, o caruru-gigante, em Campo Erê, no Oeste do estado.

Trata-se de uma das plantas daninhas mais agressivas da agricultura.

Os números assustam:

  • crescimento de até 3 cm por dia
  • produção de até 1 milhão de sementes por planta
  • resistência a herbicidas como glifosato

A resposta foi imediata:

  • interdição da área
  • erradicação das plantas
  • monitoramento no entorno

A presidente da Cidasc, Celles Regina de Matos, foi direta:

“Nosso trabalho é célere e estratégico para proteger a produção agrícola, aplicando o protocolo de controle e erradicação da praga.”

O secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Admir Dalla Cort, reforçou:

“A atuação conjunta entre governo, órgãos de defesa e produtores é decisiva para conter o foco e preservar a competitividade.”

78 anos de FAESC e um papel que segue central no agro catarinense

Na terça-feira (24), a FAESC (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina) completou 78 anos de atuação.

A entidade é uma das principais vozes do setor produtivo no estado, com papel histórico na defesa dos produtores, na articulação política e na construção de políticas públicas para o campo.

Ao longo da trajetória, ajudou a consolidar:

  • representação institucional do agro
  • capacitação e assistência ao produtor
  • fortalecimento das cadeias produtivas

Mais do que história, a FAESC segue sendo peça ativa em um momento em que o agro precisa cada vez mais de organização, voz e estratégia.

Mais crédito, mais risco e SC mostra como se reage no campo

A semana demonstra uma síntese clara.

O agro brasileiro segue entre oportunidades e pressões com mais crédito disponível, novos mercados se abrindo e desafios que não dão trégua.

Mas também reforça um ponto essencial: quando há organização, resposta técnica e representação forte, o campo não fica à deriva.

A atuação da Cidasc, diante de uma praga de alto risco, e a trajetória da FAESC, há 78 anos ao lado do produtor, mostram que estrutura e coordenação seguem sendo os maiores ativos do agro catarinense.

E, em tempos de instabilidade,
é isso que separa reação de resultado.

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