As reiteradas demonstrações de desprezo pela democracia ao não concordar com resultados das urnas— somadas à defesa contumaz dos atos de ataques de 8 de janeiro de 2023 — tornam quase impraticável, para qualquer democrata, sair em defesa de Esperidião Amin.

Mas há casos em que a defesa de um político não decorre de simpatia, mas de contraste. Não que essa defesa mude algo no atual cenário .
Por isso, é possível, e talvez necessário, fazer uma defesa do político Amin. Especialmente quando ele passa a ser preterido, numa coligação governista, para dar lugar ao ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro como candidato ao Senado, pelo PL de Santa Catarina.
No critério mais elementar, o da experiência, a comparação chega a ser constrangedora.
Carlos Bolsonaro soma sete mandatos como vereador no Rio de Janeiro e tem no currículo iniciativas como o “Dia do Orgulho Hétero” e o “Dia do Conservadorismo”.
Amin, por sua vez, foi prefeito de Florianópolis, deputado federal, duas vezes governador e cumpre o segundo mandato de senador. Não se trata de juízo de valor. É aritmética política.
Mas o contraste recente vai além do currículo e entra no terreno simbólico.
Na semana passada, Amin assumiu formalmente o comando do Progressistas em Santa Catarina, com a chancela do presidente nacional Ciro Nogueira, consolidando um poder que já exercia nos bastidores. Agora ele manda de fato e de direito.
E, mais relevante, capitalizou politicamente a devolução, pelo Governo Lula, de R$ 384 milhões ao Estado — valores investidos pelo governo de Carlos Moisés em obras federais na BR-470. Ressarcimento viabilizado por projeto de sua autoria.
De outro, Carlos Bolsonaro —seu oponente na direita catarinense— ocupa o noticiário não por articulação política, mas por uma incursão verbal que oscila entre o enigmático e o constrangedor, ou entre o erótico e o escatológico.
Nesta semana que passou, além de visitar o pai doente (uma obrigação de filho) ele tratou de temas como “engravatado vagabundo”, “calcinha” e “bumbum guloso”, sem contexto claro e com utilidade pública nula.
Sem dizer a quem se referia, Carluxo escreveu em suas redes: “Então surge na sala o engravatado vagabundo, achando que todo mundo quer arrancar sua calcinha para traçar seu bumbum guloso!”.
Imagino que seus eleitores catarinenses saibam do quem se trata essa mensagem enigmática.
A comparação pode parecer simplista. Em certa medida, é mesmo. Mas também é reveladora. Ela expõe, com uma clareza incômoda, o tipo de oferta política que começa a se desenhar para o Senado em Santa Catarina: de um lado, a política tradicional, com seus vícios e entregas concretas; de outro, a política da performance, onde o ruído substitui o conteúdo.
E se ainda restava alguma dúvida sobre os riscos dessa escolha, basta lembrar o precedente de outro carioca, o Jorge Seif — um senador que já utilizou a tribuna para se explicar por ter ido a um show da Madonna.
Talvez não tenha sido suficiente.






