24/03/2026

Fim da escala 6×1: um descanso de mentira para o brasileiro cansado. Por Manu Vieira

Artigo de Manu Vieira, vereadora de Florianópolis pelo PL

E bota cansado nisso. Até aquele sorriso insistente de quem insiste em “ser feliz no simples”está desaparecendo. Isso porque se torna cada dia mais difícil sorrir dormindo tarde e acordando cedo, pegando filas quilométricas para ir e voltar do trabalho diário, precisando da renda extra fazendo Uber no final de semana ou bico de entregador por aplicativo e vivendo de aluguel, num sonho cada vez mais longínquo de comprar o imóvel próprio. Adicione tarefas domésticas diárias e uma aposentadoria distante, e temos um povo cujo cansaço grita por uma pausa.

Talvez esse seja o sentimento que domina o debate do fim da escala 6×1. Lamentavelmente, como todo problema complexo, a solução simples está longe de resolver algo, e pode, inclusive, atrapalhar.

A PEC 148/2015, do senador Paulo Paim (PT-RS), tem mais de 10 anos de circulação e, curiosamente, quase nenhum estudo de impacto orçamentário, contudo, ganhou fôlego renovado ao encontrar eco na proposta de PEC ainda mais arriscada de Érika Hilton (PSOL/SP), apensada a outra proposta de PEC protocolada anteriormente do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que exigem a redução de jornada para 36h. O que está passando com apoio do governo hoje, é a redução da jornada semanal de 44h para 40h semanais, acrescido de um período de transição de até 4 anos para 36h. Tudo com a manutenção do salário, claro.

Apesar de buscar a simpatia do trabalhador exausto, a ideia de que haverá mais descanso é distante quando se olha pra realidade. O brasileiro trabalha em média 41h semanais (RAIS-MTE/24), considerando a média de jornada do agro, indústria, comércio e serviços. Na Coreia do Sul, que aprendeu o que é eficiência mais cedo, a média é de 37,29h semanais. Uma correlação interessante é perceber que o PIB per capita no Brasil é de US$10.6mil, enquanto na Coreia supera os US$36mil. E talvez falar do quanto custa o descanso do brasileiro seja o real debate.

Uma manutenção salarial sem elevar produtividade da empresa significará, muito provavelmente, um maior números de horas extras, redução da mão-de-obra e, com isso, demissões. Para aqueles que terão jornada reduzida, caso não tenham seu custo de vida atendido pelo salário que será mantido, provavelmente farão o “bico”, aquela renda extra que já não é extra, mas necessária para sobrevivência da família. Isso porque os custos dessa manobra política irão impactar a cadeia do produto que chega ao consumidor. Poucos fizeram os estudos sobre o impacto orçamentário, mas há quem tenha feito o dever de casa e, na projeção de redução de 44 para 40h semanais, a FIESC estima um impacto de quase 11,4% nos custos do trabalho para as empresas catarinenses, chegando num aumento de preço do produto final de 2,64%. Se parece um percentual pequeno, é importante ressaltar que os 3 setores que sofrem o maior impacto são moradia, comida e o que vestir, imediatamente ficarão mais caros.

Vivemos hoje um recorde histórico de endividamento dos lares brasileiros onde 80,2% relatam algum tipo de dívida em 2026. Esse diagnóstico de cansaço crônico , talvez venha muito mais da falta do poder de compra e um custo de vida incompatível com a média salarial do que da jornada de trabalho. E isso não se resolve por decreto. Resolver exige escolhas mais difíceis e menos populares. Mas vamos combinar, é muito mais difícil enxugar a máquina estatal, investir em inovação, pesquisa e educação do que fazer um projetinho de 2 artigos travestido de solução.

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