23/03/2026

Florianópolis: a cidade que brilha na vitrine, mas exclui quem a constrói. Por Carla Ayres

Artigo de Carla Ayres, vereadora de Florianópolis e ex-deputada Federal

Florianópolis chega a mais um aniversário reafirmando sua beleza, sua potência cultural e sua capacidade de encantar quem vive aqui e quem nos visita. Mas celebrar a cidade também exige coragem para olhar seus desafios de frente. Não podemos mais pensar a capital como uma ilha isolada, desconectada da realidade metropolitana e das urgências de quem nela habita. Mobilidade, moradia e desigualdade social ultrapassam fronteiras e exigem soluções articuladas em toda a região.

O custo da imobilidade

Hoje, a capital já ultrapassa meio milhão de habitantes, enquanto a Grande Florianópolis soma mais de 1,5 milhão. É uma das regiões que mais crescem no país, mas sem o devido acompanhamento de investimentos estruturantes. Um dos principais reflexos disso está na mobilidade urbana. Com uma das passagens de ônibus mais caras do Brasil (R$ 7,70), penalizamos o trabalhador que compromete uma parcela significativa da sua renda, enquanto o transporte individual segue priorizado. 

Nesse cenário, propostas como a tarifa zero, apontam para um novo modelo de cidade, em que o transporte público deixa de ser mercadoria e passa a ser tratado como um direito. Mais do que aliviar o bolso das pessoas, a medida contribui para reduzir desigualdades, estimular o uso do transporte coletivo e reequilibrar a lógica de ocupação urbana.

A região demanda corredores exclusivos e transporte coletivo de melhor qualidade. No entanto, a população se depara com a lentidão dos congestionamentos e uma rotina exaustiva, perdendo qualidade de vida e o direito de circular com dignidade. É inadmissível que o PLAMUS, um estudo de R$ 10 milhões concluído em 2014 para integrar a Grande Florianópolis, siga engavetado. Sem corredores exclusivos e integração intermunicipal, as soluções apenas enxugam o gelo e a fila aumenta cada vez mais.  

Entre a especulação e a exclusão

A dignidade passa, necessariamente, pelo teto. Florianópolis vive uma crise habitacional profunda, com o segundo aluguel mais caro do país. Nos últimos oito anos, o custo da moradia subiu 58% acima do salário mínimo regional.

A cidade se valoriza para o mercado, mas expulsa seus moradores históricos. Enquanto imóveis são tratados meramente como ativos financeiros, apenas 17,42% da área urbana é destinada à Habitação de Interesse Social.

Para muita gente, morar na capital virou um sonho impossível. Não por falta de imóveis, mas porque eles são usados cada vez mais como investimentos, e não como moradia. Precisamos enfrentar a especulação imobiliária: uma cidade que não abriga quem a constrói é uma cidade que falhou em sua função social.

Assistência social não é caso de Polícia

Essa exclusão se reflete cruelmente nas ruas. Florianópolis registra quase 4 mil pessoas em situação de vulnerabilidade extrema, um aumento de 60% em dois anos. A resposta do poder público, contudo, tem flertado com a xenofobia e o controle higienista, como vimos nas abordagens na rodoviária e na falta de transparência sobre internações compulsórias.

Essa questão não se encerra nas pontes. São José, Palhoça e Biguaçu figuram entre as cidades com os maiores registros de pessoas em situação de rua no CadÚnico em 2025.  No entanto, o que vemos é um abismo entre a realidade das ruas e a estrutura de suporte. Um mapeamento do Ministério Público revela que seja em Florianópolis ou nas demais cidades da região, faltam serviços básicos de saúde e assistência específica para essa população.

Não se resolve a questão social de uma região “devolvendo” as pessoas de uma prefeitura para outra ou com repressão. Sem uma rede metropolitana de acolhimento, as políticas públicas tornam-se fragmentadas e ineficazes. A rua não pode ser destino. O desmonte da assistência social e a rede de acolhimento insuficiente são escolhas políticas que precisam ser revertidas. A solução exige investimento em saúde, trabalho e acolhimento humanizado, e não táticas que buscam apenas invisibilizar a pobreza.

Compromisso com o futuro

Neste aniversário, o meu convite é para reafirmarmos compromissos. Queremos uma capital que planeje seu futuro de forma integrada, enfrente suas desigualdades com coragem e que coloque as pessoas no centro das decisões.

Isso passa pela valorização da cultura, não apenas como identidade e patrimônio, mas como trabalho. É fundamental reconhecer e apoiar as trabalhadoras e trabalhadores da cultura, que produzem, mantêm vivas as tradições e movimentam a economia criativa da cidade. Sem eles, Florianópolis perde parte essencial da sua alma.

Da mesma forma, é preciso reconhecer a força da migração na construção da cidade. A capital catarinense também é constituída por quem chega: pessoas de diferentes regiões e países que trazem saberes, histórias, sotaques e formas de viver que ampliam horizontes e enriquecem o tecido social. Longe de serem um problema, migrantes são parte da solução e contribuem para o nosso desenvolvimento econômico, cultural e humano.

Também é indispensável pensar a partir da perspectiva das mulheres. Garantir segurança, combater a violência de gênero e assegurar o direito de ir e vir,  seja no transporte público, nas ruas ou nos espaços de convivência, é parte central de qualquer projeto de cidade justa. Uma Florianópolis verdadeiramente inclusiva precisa ser um lugar onde as mulheres possam viver sem medo.

O verdadeiro orgulho de viver aqui não deve estar apenas na paisagem, mas na construção de uma cidade que não deixa ninguém para trás. Uma Florianópolis mais justa, solidária e humana é possível — e urgente. 

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