
Quinta é dia de #TBT, mas, no agro catarinense, a crise da cebola nem virou passado. Continua sendo presente e urgência.
A crise da cebola saiu da lavoura e virou pauta política constante por aqui.
Na noite de segunda-feira (16), em Ituporanga Capital Nacional da Cebola, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina reuniu produtores, prefeitos, vereadores e lideranças do setor em uma audiência pública que escancarou o tamanho do problema: produção recorde, qualidade alta e renda em colapso.
A audiência foi proposta pelo deputado Mário Motta (PSD), por meio da Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural, e aconteceu na Câmara Municipal.
Mas o retrato mais direto da crise veio da ponta.
Em entrevista à jornalista e parceira da coluna, Ketrin Raitz, o prefeito Geison Kurtz (PP) resumiu o impacto:
“Cerca de 20% da economia do município depende da cebola. Quando o preço não cobre nem metade do custo, o comércio, a arrecadação e o planejamento regional também são afetados.”
Assista à entrevista completa com o prefeito Geison Kurtz no canal Política e Agro no YouTube e entenda por que o problema já não é mais só do produtor.
É do município inteiro.
Recorde no campo, prejuízo na conta
Santa Catarina deve colher cerca de 610 mil toneladas de cebola, com produtividade média entre 35 e 36 toneladas por hectare, segundo a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina).
Em Ituporanga, são 160 mil toneladas também um recorde.
Mas a matemática não fecha.
- custo por hectare: cerca de R$ 50 mil
- custo por quilo: entre R$ 1,30 e R$ 1,40
- preço de venda: abaixo disso em vários momentos
Resultado: produção histórica com prejuízo histórico.
A crise não é só da cebola
O alerta não ficou restrito a uma cultura.
O deputado Oscar Gutz (PL) ampliou o diagnóstico:
“Não é só a cebola. O leite, o arroz e várias outras culturas também enfrentam dificuldades.”
O problema é estrutural:
- excesso de oferta
- falta de política de mercado
- e baixa capacidade de defesa do produtor
Importação no pico da safra vira alvo
Outro ponto sensível: a entrada de cebola importada, especialmente de Argentina e Uruguai, justamente no momento de maior oferta interna.
Na prática, o produtor planta sem proteção e vende competindo com produto externo no pior momento possível.
Armazenar virou estratégia de sobrevivência
Para o presidente da Comissão de Agricultura, deputado Altair Silva (PP), o caminho passa por estrutura.
“Precisamos avançar na tecnologia de armazenagem para que o produtor consiga segurar o produto e vender de forma escalonada.”
Segundo ele, a volatilidade recente escancarou um gargalo antigo: o produtor é obrigado a vender no pico da oferta e paga o preço por isso.
As 4 medidas que saem da audiência
A audiência não ficou só no diagnóstico. Saiu com encaminhamentos claros e pressão política organizada.
Entre as propostas:
1. Prorrogação dos financiamentos
Sem perda de acesso a novas linhas de crédito.
2. Fiscalização da classificação por bitola
Padronização para evitar distorções na comercialização.
3. Controle da importação no pico da safra
Avaliação de mecanismos para evitar desequilíbrio de preços.
4. Ajuste no calendário do crédito rural
Vencimentos entre maio e junho, alinhados ao ciclo da cultura.
O pacote será formalizado em documento ao governo federal e ao Banco Central.
Agora, sai de Ituporanga e entra em Brasília.
Apesar da crise que pressiona, a festa celebra
O contraste é inevitável.
Entre os dias 7 e 12 de abril, Ituporanga realiza a 28ª Festa Nacional da Cebola, com programação técnica e cultural, incluindo o tradicional Seminário Nacional da Cebola (Senace).
Enquanto a festa celebra produtividade, tecnologia e tradição, a audiência pública escancarou o outro lado: o produtor produz mais e ganha menos.
Imposto de Renda: novo limite para o produtor rural
A semana também trouxe mudança relevante no campo tributário.
A Receita Federal ampliou o limite de obrigatoriedade de declaração para produtores rurais.
Agora, deve declarar quem teve receita bruta acima de:
R$ 177.920 (antes: R$ 169.440)
O prazo começa em 23 de março e vai até 29 de maio.
A mudança acompanha a atualização da faixa geral de rendimentos e amplia o universo de contribuintes no radar do Fisco.
Funrural sobe em abril e exige planejamento
Outra mudança já tem data marcada: 1º de abril de 2026.
A Lei Complementar nº 224/2025 reajusta as alíquotas do Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural):
- pessoa física: de 1,50% para 1,63%
- pessoa jurídica: de 2,05% para 2,23%
O aumento médio é de 8,7%.
Pode parecer pequeno.
Mas, em grandes volumes de comercialização, vira custo relevante.
E abre uma janela estratégica: vender em março ou abril pode fazer diferença no caixa.
Produz muito, protege pouco
A semana deixa uma síntese incômoda.
Santa Catarina produz bem.
Bate recorde.
Entrega volume.
Mas ainda opera:
- sem proteção de mercado
- com crédito desalinhado
- e exposta à concorrência externa
A cebola só antecipou o problema.
Outras cadeias já estão na fila.
Se a crise já virou #TBT recorrente, o problema não está na cebola. Está na ausência de solução.
Alô, Brasília?






