15/03/2026

Coluna Literária: De Bulgákov a Tchello d’Barros, com passagem pela Ilíria de Bruna Schmitz

Nesta edição da Coluna Literária, Carlos Stegemann destaca a trajetória global do artista visual catarinense Tchello d’Barros e apresenta uma seleção de lançamentos e sugestões que passam pela sátira política de Bruna Schmitz e o pensamento de Ortega y Gasset. A edição traz ainda uma entrevista com Juliano Zimmermann sobre o cenário crítico das bibliotecas escolares em Santa Catarina e as recomendações de leitura de Luciene Coelho, encerrando com as boas perspectivas para os festivais literários no estado este ano.


Epígrafe

“Manuscritos não ardem”.

Frase do ucraniano Mikhail Bulgákov (1891-1940), no livro “O Mestre e Margarida”, de múltipla interpretação e muito contemporânea no Brasil, quando governantes e gestores de educação ousam censurar ou banir livros.


A multilinguagem de Tchello d’Barros

Tchello d’Barros saiu de Blumenau (SC), onde brotou sua vocação — que converge as artes visuais e a literatura — para se tornar um artista global, presente em mais de vinte exposições em vinte países. No início de fevereiro passou pela Biblioteca Pública do Estado, em Florianópolis, relançando “Palavrório – poemetos & idiossincrasias não escandidadas” (Desconcertos Editora) e exibindo o que pode ser considerado apenas como um fragmento de sua extensa e intricada obra. 

Os ideogramas e as construções geométricas encontram uma poesia sintética e que flerta como o concretismo, demandando não apenas tempo, mas uma profunda reflexão de quem aprecia. Diante da inevitável necessidade de defini-lo, talvez o epíteto ‘poeta visual’ seja o que melhor lhe caiba, considerando que também trafega nos audiovisuais. 

“Em Tchello, verbo-som-imagem são fusões de uma grande argamassa fermentadas em um caldeirão onde o poema se processa em fragmentos amorosos de um discurso poético em alta voltagem (…)” enuncia o poeta e ator carioca Artur Gomes. Ou, como abreviou o português Fernando Aguiar: “Diria que o que mais me impressiona na poética de Tchello d’Barros é: (o) tudo”. 

Tudo, é o que temos para descobrir em Tchello.


O olhar de Luciano Martins


Lançamentos

O jardim que nos ensina a olhar
Karoline Käuffer Schvambach
Carbo Editora

Vem de Taquaras, encantador distrito de Rancho Queimado, na serra catarinense, a delicada produção infantil da pedagoga Karoline Käuffer Schvambach, com as ilustrações de Matheus Furtado. A obra é uma inspiração a olhar muito além do jardim*, dirigida a educadores, pais e psicólogos, para que enxerguem a educação como como um caminho transformador, fundamentado no amor e na criatividade. O título já está disponível em e-book na Amazon e a versão impressa tem lançamento previsto para abril. 

* Título da versão brasileira do filme ‘Being There’ (1979) dirigido por Hal Asdby e estrelado por Peter Sellers.

A um passo da chance: O acontecimento – pessoa em Ortega Y Gasset
José Paulo Teixeira
Editora Cidade Futura

O espanhol Ortega y Gasset (1883-1955) foi um dos mais célebres e influentes filósofos do século XX, um pensador que, segundo Teixeira, “aproxima a filosofia da vida”. A obra é fruto da tese de doutorado do autor, na Universidade de Évora (Portugal), publicada em dois volumes. “Ortega é um dos raros filósofos que conversou diretamente, olho a olho, com os seus leitores e seus ouvintes. Essa relação e essa aproximação entre vida e filosofia é a sua grande contribuição, com essa máxima: se você prestar atenção nos assuntos da vida, você já está, de alguma forma, dentro do universo da filosofia”, resume José Paulo Teixeira.

Prestem atenção em…

A Viagem à Ilíria
Bruna Schmitz 
Editora Três Maçãs

Em sua obra de estreia, essa catarinense de 30 anos surpreende e oferece uma instigante sátira política, cujo enredo é a viagem do ex-presidente Jair Bolsonaro à Rússia, dez dias antes da invasão que deflagraria a Guerra da Ucrânia. Com um estilo ousado, provocativo e por vezes transgressor, Bruna exibe um arsenal de texto competente e, sobretudo, promissor, justificando tê-lo entre os doze finalistas de 2,4 mil inscritos do Prêmio Sesc de Literatura 2025. Nascida em Santo Amaro da Imperatriz e crescida em São José, é graduada em Letras-Português pela UFSC. Esperamos por mais… 

Eu recomendo

O Mestre e Margarida
Mikhail Bulgákov
Editora Alfaguara
tradução de Zoia Prestes

Esse livro é daqueles que nos perguntamos porque ainda não lemos — ou demoramos tanto a fazê-lo — quando finalmente o devoramos. Foi o que aconteceu quando tratei dele com a falecida Marina Colassanti, em meio a uma prosa sobre títulos que mais nos impactaram. A prolífera autora fez um gesto de inconformismo e admitiu que não lera, apesar de inúmeras recomendações. Ao longo das últimas oito décadas, a crítica só tem endossado essa obra como uma das maiores contribuições à literatura mundial. 

Mikhail Bulgákov foi um médico nascido em Kiev, capital da Ucrânia, mas que durante o regime soviético era parte do império comunista. Como todos os escritores que não aceitavam a censura e a burocratização do ofício de escrever, foi duramente perseguido pelo regime de Josef Stálin. Chegou a queimar uma versão inicial de sua obra-prima. Ditou suas revisões finais para a esposa (inspiração para o personagem Margarida), semanas antes de falecer, com apenas 49 anos. 

O Mestre e Margarida é uma releitura tão ácida quanto satírica de Fausto, de Goethe: em uma tarde primaveril, Satanás e seu séquito resolvem visitar Moscou. Encontram poetas, editores, burocratas e todo o tipo de pessoas tentando levar uma vida normal em meio ao regime stalinista. Mas nada será como antes: seu rastro de destruição e loucura mudará o destino de quem cruzá-lo. É o primeiro livro da minha seleta lista de imperdoáveis, se não lidos…


Duas perguntas para Juliano Zimmermann

Presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia (SC), graduado na Udesc (2007), e mestre em Gestão de Unidades de Informação, também pela Udesc, Zimmermann fala sobre o agudo estado das bibliotecas escolares no estado e as chances de torná-las espaços de inclusão.

Qual o diagnóstico das bibliotecas municipais de Santa Catarina, considerando os aspectos físicos, o acervo e a presença de um(a) profissional em biblioteconomia para a gestão desses espaços?

O aspecto físico geralmente atende apenas a requisitos mínimos, sem uma concepção planejada para promover leitura, inclusão e atividades educativas É uma conclusão a partir da experiência no cotidiano do Conselho, seja por meio da fiscalização ou da vivência de colegas que atuam diretamente em bibliotecas escolares. Poucas fogem dessa triste realidade, outras sequer existem. Geralmente possuem espaço físico básico, com muitas limitações quanto à organização adequada do acervo, áreas específicas de leitura ou espaços para atividades culturais. Por sua vez, aponta-se como uma das grandes mazelas, a ausência aguda de bibliotecários(as) no quadro escolar, ou seja, aquele profissional oriundo da universidade, dotado de competência para exercer a função que a formação lhe conferiu, não me referindo a outro profissional readaptado que costumeiramente é abandonado a própria sorte no ambiente da biblioteca escolar, sem qualquer capacitação para atuar na área. Essa ausência claramente compromete não apenas a organização técnica e funcional, mas também a capacidade desses espaços de atuarem como centros de informação, de apoio pedagógico e cultural da comunidade escolar. 

De acordo com dados da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), a frequência dos brasileiros em bibliotecas é baixíssima: apenas 18% das pessoas enxergam as bibliotecas como um espaço para emprestar livros, leitura e atividades afins. Como reverter esse cenário?

A reversão desse cenário exige a presença do poder público e da sociedade – aí me refiro ainda mais às famílias, que devem perceber a biblioteca escolar como um órgão auxiliar da escola, responsável direto na formação da criança como ser humano e cidadão. Isto é, é preciso consolidar a identidade da biblioteca como espaço cultural dinâmico, promovendo projetos de incentivo à leitura, ações formativas aliadas à tecnologia, que ampliem sua presença na comunidade escolar. Nenhuma sociedade vista como desenvolvida, se tornou assim sem essa concepção. Por fim, para que as bibliotecas sejam reconhecidas e valorizadas, é fundamental que estejam integradas às políticas públicas de educação e cultura, dispondo de recursos financeiros e estratégias de comunicação que ampliem sua visibilidade.


O que está lendo Luciene Coelho

A passagem secreta — porque os livros infantis são coisas muito sérias
Mac Barnett
Editora Nana Books

Pedagoga, com larga experiência em educação infantil, esta josefense tem a mão e o olhar sensíveis para a literatura infantil, conectada com a cultura local. “Ostrelinha”, sua personagem de três livros, é uma ostra curiosa e aventureira, que circula pela Ilha de Santa Catarina e São José, na companhia da amiga gaivota. No ano passado, lançou “Psiu! O gigante dormiu”, onde a proteção à natureza é o fio condutor da história. 

Uma leitura inesquecível, um convite para mergulhar no mundo infantil, refletindo sobre o verdadeiro papel da literatura para a criança. O autor é estadunidense, com mais de setenta títulos publicados e traduzidos para cerca de trinta idiomas. Com uma narrativa adulta, defende a ideia de que as obras infantis são livros de verdade e crianças são leitores reais e ideais, ressaltando a urgência de remover o didatismo das narrativas — o grande inimigo da boa literatura. Ao definir o livro infantil de forma ampla, Mac Barnett abre espaço para a diversidade de estilos, pontos de vista, imagens repletas de significados, priorizando sempre a qualidade estética e literária e defendendo a literatura infantil como uma arte séria e complexa.


Epílogo

Bons ventos bafejam a literatura nesse início de ano:

• Joinville promove o Festival Literário de Santa Catarina, de 21 a 31 de maio. O português Valter Hugo Mãe é uma das muitas atrações anunciadas.

• A Fundação Catarinense de Cultura definiu a realização da Maratona Literária e da Semana Literária em municípios do estado, eventos dedicados à promoção do livro e da leitura. 

• A genial revista ‘Francisca’ nos brinda com uma matéria especial (capa) sobre Alcides Buss, de verso e prosa e longeva trajetória em favor da cultura.

• “A literatura é ingrediente básico da cidadania” é uma das pérolas de seu depoimento. Confira aqui: http://revistafrancisca.com.br/edicoes 

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