
Com o Congresso em ritmo de marcha lenta e o diesel em modo bomba-relógio, a bancada do agro tenta transformar a Agenda Legislativa de 2026 em rota de proteção para quem produz. A coluna Política e Agro esteve no lançamento, na Câmara.
O agro entrega a pauta e cobra ação
Em plena quarta-feira, 11 de março, com ares de prévia para uma sexta-feira 13, nada supersticiosa e bastante concreta, o agro ocupou o plenário da Câmara dos Deputados para fazer o que Brasília anda esquecendo de fazer com frequência: falar de produção, previsibilidade, competitividade e segurança para quem sustenta boa parte da economia brasileira.
A coluna Política e Agro esteve no Congresso acompanhando in loco a sessão solene de lançamento da Agenda Legislativa do Agro 2026, documento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que reúne 100 proposições em tramitação e consideradas estratégicas para o setor.
Mais do que uma cerimônia protocolar, o ato serviu como recado político. O setor produtivo foi ao Parlamento não para posar na foto, mas para cobrar ação. E com razão.
O ambiente externo pesa: guerra, tensão geopolítica, pressão sobre combustíveis, fertilizantes e custos logísticos.
O ambiente interno tampouco ajuda: ano eleitoral, ruído institucional, sessões escassas e um Congresso que, quando deveria acelerar, parece especializado em perder tempo. No meio disso tudo, o campo segue fazendo o que Brasília adora discursar e nem sempre consegue compreender: produzir, apesar do caos.
Foi nesse contexto que o presidente da CNA, João Martins, entregou a agenda ao presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), à senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a parlamentares como o catarinense Rafael Pezenti (MDB-SC), entre outros nomes ligados à defesa do setor.
O gesto teve peso político e simbólico. Na prática, a CNA apresentou ao Congresso um mapa do que precisa andar e do que precisa parar de atrapalhar. João Martins resumiu o espírito da entrega ao defender a necessidade de um Congresso “comprometido com o agro”, lembrando que o setor precisa de apoio para continuar produzindo em um cenário de turbulência.
A agenda não é peça de vitrine
O documento consolida 100 propostas entre mais de 8,7 mil acompanhadas pela área institucional da CNA. Dessas, 62 contam com apoio integral da entidade, 24 recebem apoio com ressalvas e 14 enfrentam oposição da confederação.
A divisão em dois grandes eixos mostra que o agro não está olhando apenas para dentro da porteira: de um lado, estão segurança jurídica e estabilidade do ambiente de negócios; de outro, competitividade e presença no mercado internacional, incluindo infraestrutura, relações internacionais, produção, ciência e tecnologia.
Traduzindo para bom português: sem regra clara, sem logística, sem crédito, sem previsibilidade e sem custo minimamente administrável, não existe potência agropecuária que resista só de discurso bonito.
O agro entrega a pauta. Agora quer entrega de volta
No lançamento, João Martins foi direto ao ponto: a CNA não foi ao Congresso apenas celebrar mais uma edição da agenda, mas apresentar uma proposta concreta ao Parlamento, com críticas construtivas e indicativos do que funciona e do que precisa ser corrigido.
A fala tem endereço. Em Brasília, todo mundo gosta de dizer que o agro é motor do país. O problema é quando chega a hora de abastecer esse motor com segurança jurídica, crédito, seguro e logística.
A recepção da FPA foi de alinhamento total. Pedro Lupion afirmou que as prioridades da bancada são as mesmas da CNA e ressaltou a sintonia com o Instituto Pensar Agropecuária (IPA).
Mas fez o alerta que interessa: o problema não é falta de pauta, é o ambiente político contaminado, num ano eleitoral e de “bagunça institucional”, nas palavras dele, que trava o andamento dos temas relevantes.
Em outras palavras, o agro chegou com a lição pronta; agora quer saber se o Congresso vai trabalhar ou continuar em modo dispersão premium.
Lupion, Tereza e o recado incômodo: o problema já não cabe mais dentro da porteira
A sessão solene mostrou uma percepção comum entre as lideranças do setor: o cenário para 2026 é temeroso, tanto interna quanto externamente. Lupion reconheceu que a agenda é mais do que um guia legislativo é quase um inventário das dificuldades do dia a dia do campo. Endividamento crescente, escassez de crédito rural e seguro insuficiente seguem no centro da preocupação da bancada.
Já Tereza Cristina tratou do ponto que tende a dominar cada vez mais o debate: geopolítica e geoeconomia. Segundo a senadora, esses temas “vão estar na nossa mesa todos os dias”.
E vão mesmo. O impacto da tensão internacional não para no diesel: alcança fertilizantes nitrogenados, logística, comércio exterior e o custo final da produção. Quando Tereza diz que “o custo não vai fechar”, não é figura de linguagem é aviso de quem conhece a conta por dentro.
Pezenti dá o recado de SC: agenda não é enfeite de gabinete
Entre os discursos do lançamento, um dos mais diretos veio do deputado catarinense Rafael Pezenti (MDB-SC), que se auto definiu como “terrivelmente colono”.
E foi exatamente o tipo de fala que o produtor rural entende sem precisar de tradução simultânea de Brasília. Ao afirmar que o documento “não pode ficar empoeirado nos gabinetes” e precisa virar “missão de serviço” até o fim de 2026, Pezenti resumiu a cobrança que pairava no plenário: menos aplauso performático e mais entrega concreta.
A frase mais forte foi também a mais incômoda para quem gosta de fazer política em modo vitrine: “usar essa tribuna, discursar bonito e bater palma para o produtor não vale nada”. Vale o trabalho efetivo, disse o parlamentar, para garantir a sobrevivência de quem está na ponta.
Santa Catarina, que conhece bem o peso de logística cara, crédito apertado e custo de produção nas alturas, estava ali representada não apenas na foto, mas na cobrança.
Diesel vira emergência política e econômica
Se a geopolítica entrou de vez na pauta do agro, o diesel é hoje seu termômetro mais imediato. A CNA encaminhou ofícios ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e ao Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) pedindo a redução imediata e temporária de tributos incidentes sobre o diesel da importação à comercialização.
No pedido, a entidade mira a desoneração de PIS, Pasep, Cofins e ICMS.
A conta apresentada pela CNA ajuda a explicar a gravidade. Os tributos federais somam cerca de 10,5% do valor do diesel comercializado, enquanto os estaduais acrescentam, em média, 38,4% ao preço final. Em meio ao plantio e à colheita da segunda safra, o combustível deixa de ser apenas item de planilha e passa a ser fator de risco econômico.
A entidade sustenta que a redução temporária poderia aliviar custos de produção, moderar preços ao consumidor e até contribuir para um ambiente macroeconômico mais estável.
Em resumo: quando até a colheita começa a depender da geopolítica, Brasília já passou da hora de sair do comentário e entrar na solução.
Zé Trovão reage e apresenta quatro medidas contra a crise do diesel
O deputado Zé Trovão (PL-SC) levou o tema para o front legislativo e anunciou quatro iniciativas diante do risco de alta e desabastecimento de diesel.
- Projeto de Lei para criar mecanismos de estabilização de preços em momentos de crise internacional
- Indicação ao Governo Federal pedindo ação administrativa imediata
- Requerimento de Informação ao Ministério de Minas e Energia
- Solicitação de Audiência Pública com ministro e presidente da Petrobras
Zé Trovão resumiu o tom: o Brasil não pode ficar refém da instabilidade internacional nem deixar que o setor de transportes pague sozinho a conta da crise. “O Brasil precisa de segurança energética e respeito com quem carrega esse país nas costas.”
É a velha máxima atualizada: quando o combustível sobe, não é só o caminhão que sente é a cadeia inteira.
Infraestrutura rural avança
Na mesma quarta, a Comissão de Viação e Transportes aprovou o PL 4673/2024, que cria o Programa de Infraestrutura Rural Sustentável, de autoria do deputado Adriano do Baldy (PP-GO).
O programa prevê:
- construção de novas estradas vicinais
- manutenção permanente
- uso de tecnologias sustentáveis
O relator, Neto Carletto, destacou que estradas vicinais são o elo entre produção e consumo.
O projeto segue agora para a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR).
Ou seja: se Brasília quiser mesmo mostrar serviço ao campo, pode começar pelo básico que falta há décadas estrada que permita sair da porteira sem transformar logística em penitência.
Sorte ou pressão?
O agro lançou sua agenda em plenário cheio.
Mas o cenário não é trivial:
- guerra no radar
- diesel pressionado
- crédito restritivo
- ano eleitoral batendo à porta
A sexta-feira 13 do agro não é sobre superstição: é sobre urgência!
A Agenda Legislativa 2026 é uma tentativa clara de organizar prioridades antes que Brasília pare de uma vez para disputar votos.
Resta saber se o Congresso conseguirá entregar estabilidade em meio ao ruído político.
Porque, no campo, calendário eleitoral não adia plantio.






