Por Letícia Schlindwein da Agro Agência Catarina — direto de Brasília

Panorama da Semana
O agro atravessou a semana equilibrando três frentes ao mesmo tempo: comércio internacional, custo de produção e ambiente político doméstico. O avanço do acordo Mercosul–União Europeia e a regulamentação das salvaguardas comerciais reacenderam o debate sobre abertura de mercado com proteção para setores sensíveis.
No Congresso, Valdir Cobalchini assumiu a presidência da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, colocando Santa Catarina em posição estratégica num momento em que produção, preservação e licenciamento voltam a disputar espaço no debate nacional.
Ao mesmo tempo, a conta do setor seguiu pressionada. O debate sobre a mistura obrigatória de biodiesel trouxe de volta a discussão sobre segurança energética e competitividade, enquanto as exportações catarinenses ainda sentem os efeitos de barreiras comerciais externas.
No crédito, o ambiente ficou mais seletivo: o Plano Safra desacelerou, novas exigências ambientais passaram a pesar na liberação de financiamento e o número de recuperações judiciais no agro subiu mais de 50%, sinalizando o aperto que começa a aparecer nos balanços do campo.
Santa Catarina também apareceu na semana com protagonismo positivo. O Estado ampliou o sistema antigranizo, liberou R$ 260 milhões em investimentos para a agricultura, fortaleceu sua presença internacional ao apresentar seu modelo agropecuário a Ruanda e consolidou 488 Selos Arte, reforçando a força da agroindústria familiar. Mas o contraste não desapareceu: discussões regulatórias, como a portaria sobre classificação do morango, lembraram que decisões técnicas tomadas em Brasília continuam chegando à lavoura com impacto direto na produção.
O gesto político mais relevante da semana veio no plenário da Câmara. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) lançou a Agenda Legislativa do Agro 2026, documento que reúne 100 proposições consideradas estratégicas para o setor. Organizada em dois eixos — segurança jurídica e estabilidade do ambiente de negócios e competitividade e inserção internacional — a agenda foi entregue à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) como roteiro de trabalho para os próximos dois anos.
O diagnóstico da bancada foi direto: o cenário externo pesa, a geopolítica já entrou na conta do agro e o ambiente político interno segue lento demais para a urgência do setor.
No mesmo pacote, o diesel virou emergência econômica, levando a CNA a pedir redução temporária de tributos sobre o combustível.
No Congresso, o deputado catarinense Zé Trovão apresentou medidas para enfrentar o problema, enquanto a Comissão de Viação e Transportes aprovou o projeto que cria o Programa de Infraestrutura Rural Sustentável, lembrando que o agro depende menos de discursos e mais de estrada, logística e previsibilidade.
Agro em Alerta
Diesel vira crise econômica e política
A pressão internacional sobre o petróleo colocou o combustível no centro da agenda do agro. A CNA pediu desoneração temporária de tributos e o tema já chegou ao Congresso com projetos e pedidos de audiência pública.
Crédito mais técnico e mais difícil
Recuperações judiciais em alta, Plano Safra mais lento e exigências ambientais no financiamento indicam um ambiente de crédito mais seletivo para o produtor rural.
Santa Catarina entre investimento e pressão externa
O estado avançou em proteção climática, investimentos e agregação de valor com o Selo Arte, mas continua sentindo efeitos de barreiras comerciais e decisões regulatórias federais.
Agenda do agro vira cobrança política
O lançamento da Agenda Legislativa 2026 deixou claro que a pauta do setor está organizada. O desafio agora é transformar prioridade técnica em votação política.
Indicadores da Semana
PIB brasileiro (2025)
• Crescimento total: 2,3%
• Agropecuária: +11,7%
Exportações de Santa Catarina
• US$ 1,697 bilhão no primeiro bimestre de 2026
• Queda de 4,1% no período
Recuperações judiciais no agro
• 1.990 pedidos em 2025
• Alta de 56,4%
Selos Arte em Santa Catarina
• 488 registros
• Segundo maior número do país
Piso salarial rural em SC
• Nova faixa inicial: R$ 1.842
Radar do Agro
Semana de 16 a 20 de março
Congresso Nacional
A Frente Parlamentar da Agropecuária deve iniciar articulações para apresentar a Agenda Legislativa do Agro 2026 aos presidentes das Casas e tentar acelerar temas considerados prioritários ainda no primeiro semestre.
Câmara dos Deputados
A Comissão de Agricultura tende a voltar ao centro do debate sobre crédito rural, seguro e endividamento. O projeto que cria o Programa de Infraestrutura Rural Sustentável também deve avançar na tramitação.
Executivo e ministérios
O diesel permanece no radar do Ministério da Fazenda, do Confaz e do Ministério de Minas e Energia, após o pedido da CNA por redução de tributos. No campo da agricultura familiar, o Ministério do Desenvolvimento Agrário terá vitrine na Feira de Máquinas da Agricultura Familiar, em Campinas.
Santa Catarina
O estado segue monitorando o impacto das medidas federais sobre crédito e exportações, enquanto o setor produtivo se mobiliza para a Mercoagro, em Chapecó, uma das principais feiras da indústria de proteína animal do país.
Ambiente regulatório
A portaria do morango e as novas exigências ambientais no crédito rural podem continuar gerando reação no Congresso e no setor produtivo.
Visão da Semana
O agro organizou a pauta. Falta Brasília organizar o trabalho.
A semana mostrou um setor produtivo tentando se antecipar aos problemas enquanto a política ainda reage a eles.
O agro lidou com mercado internacional, custo energético, crédito apertado e pressão regulatória — e respondeu organizando uma agenda legislativa clara para os próximos anos.
O recado foi direto:
o setor sabe onde estão os gargalos, quais projetos precisam avançar e onde o Estado pode ajudar ou atrapalhar.
A dúvida está do outro lado da mesa.
O Congresso recebeu a Agenda do Agro, ouviu os alertas sobre diesel, crédito e competitividade e reconheceu a urgência do tema. Agora precisa decidir se vai transformar essa pauta em ação legislativa ou se ela correrá o risco de virar mais um documento elogiado em plenário e esquecido na rotina de Brasília.
No campo, o calendário eleitoral não atrasa safra, não reduz custo de produção e não conserta estrada rural.
A política, cedo ou tarde, precisa acompanhar o ritmo de quem produz.





