13/03/2026

Produzir muito e ganhar pouco: A crise da cebola em Santa Catarina. Por Zé Milton

Artigo de Zé Milton, Deputado Estadual de Santa Catarina e Epagriano

Santa Catarina é, há décadas, o coração da cebolicultura brasileira. O estado responde por cerca de um terço da produção nacional e movimenta centenas de milhões de reais todos os anos. Mais do que números, a cebola representa sustento, trabalho e identidade para milhares de famílias do campo. Estima-se que cerca de 10 mil famílias estejam diretamente envolvidas na atividade, o que significa algo próximo de 40 mil pessoas dependentes dessa cadeia produtiva. No Alto Vale do Itajaí, especialmente em municípios como Ituporanga, Alfredo Wagner, Aurora, Imbuia, Atalanta e Chapadão do Lageado, a cultura da cebola não é apenas uma atividade agrícola: é um pilar econômico e social.

Apesar dessa importância, o setor atravessa um momento delicado. Nos últimos meses, produtores catarinenses chegaram a vender a cebola por cerca de R$ 0,70 o quilo, valor muito abaixo do custo de produção. Ao mesmo tempo, o consumidor continuava pagando aproximadamente R$ 3 pelo produto nas prateleiras. Essa diferença escancara um dos maiores problemas da cadeia: a distância entre quem produz e quem consome, com margens significativas ficando no meio do caminho.

A situação se agravou por uma combinação de fatores. A safra foi volumosa, impulsionada por condições climáticas favoráveis e ganhos de produtividade. Em um mercado agrícola, no entanto, produção elevada sem estrutura adequada de armazenamento e organização de comercialização tende a pressionar os preços para baixo. A lógica da oferta e da demanda acaba penalizando justamente quem assume os maiores riscos: o agricultor.

Para muitos produtores, o prejuízo não se limita a um único ciclo. Quando uma safra é vendida abaixo do custo, o impacto financeiro se estende por anos. Dívidas se acumulam, financiamentos se tornam difíceis de pagar e a capacidade de investir na próxima safra diminui. É uma verdadeira bola de neve que ameaça a sustentabilidade de milhares de propriedades familiares.

Nos últimos dias, porém, surgiu um pequeno sinal de reação no mercado. Com o encerramento das comercializações de estados vizinhos como Rio Grande do Sul e Paraná, a cebola catarinense voltou a ganhar espaço. Os preços começaram a reagir, chegando a patamares entre R$ 2 e R$ 2,20 por quilo em algumas negociações. Ainda está longe de representar estabilidade para o setor, mas já indica que o mercado pode encontrar um novo equilíbrio.

Essa recuperação parcial também reforça uma lição importante para o futuro da cebolicultura catarinense: investir em tecnologia e estrutura faz diferença. Variedades desenvolvidas pela Epagri, como a Vale Sul, permitem maior capacidade de armazenamento pós-colheita, dando ao produtor mais autonomia para escolher o momento da venda. Da mesma forma, estruturas adequadas de armazenagem nas propriedades ajudam a evitar a venda forçada em períodos de preço baixo.

Santa Catarina já é referência nacional na produção de cebola justamente por apostar em conhecimento e inovação. O sistema produtivo catarinense é diferente de grande parte do mundo, com plantio feito por mudas e forte preocupação com conservação do solo. Pesquisas conduzidas pela Epagri, especialmente na estação experimental de Ituporanga, transformaram o estado em líder nacional da cultura.

Mas tecnologia, por si só, não resolve todos os desafios. O setor ainda precisa avançar em organização de mercado, logística, armazenamento, acesso a crédito e políticas públicas que ofereçam estabilidade ao produtor. Programas de apoio existem, mas muitas vezes são insuficientes diante da dimensão das perdas enfrentadas.

A crise da cebola em Santa Catarina revela uma realidade comum no agro brasileiro: quando o campo vai bem, o país inteiro se beneficia; quando o produtor enfrenta dificuldades, os impactos se espalham por toda a economia. Transportadores, comerciantes, cooperativas, empresas de insumos e milhares de trabalhadores dependem dessa cadeia.

Mesmo diante das dificuldades, há motivos para acreditar em um caminho de recuperação. O estado possui tradição, conhecimento técnico, pesquisa de ponta e uma rede de agricultores experientes e resilientes. A recente reação nos preços pode ser apenas o primeiro sinal de que o mercado começa a se ajustar.

Ainda há muito a ser feito. Mas se existe algo que define o agricultor catarinense é a capacidade de enfrentar adversidades sem desistir. A cebola continua sendo um símbolo de trabalho, inovação e perseverança no campo. E, apesar de um pequeno suspiro, essa história ainda está longe de terminar.

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