
Santa Catarina volta a dar exemplo ao Brasil e dessa vez não é só na suinocultura, no leite ou na força das cooperativas. O Estado atingiu 488 Selos Arte concedidos e se consolida como o segundo do país em número de registros, atrás apenas de Minas Gerais.
Mas, enquanto SC avança na valorização da agroindústria artesanal, o cenário nacional impõe cautela: as recuperações judiciais no agro bateram recorde, o desembolso do Plano Safra desacelerou, os bancos endureceram as exigências ambientais para liberar crédito e o Congresso já reage a novas normas que podem pesar no bolso do produtor como no caso do morango.
Para SC, é mais do que uma boa notícia regional.
É um retrato do momento do agro brasileiro: excelência produtiva de um lado, pressão financeira e regulatória do outro.
Na política e no campo, o jogo está cada vez mais técnico e mais sensível.
Santa Catarina consolida protagonismo com 488 Selos Arte
O Selo Arte foi instituído pela Lei nº 13.680/2018 e regulamentado pelo Decreto nº 11.099/2022.
Na prática, ele permite que produtos artesanais de origem animal como queijos, embutidos, mel e conservas possam ser comercializados em todo o território nacional, mesmo sendo produzidos em agroindústrias de pequeno porte.
Antes, a venda era restrita ao município ou ao Estado. Agora, o produtor certificado pode acessar o mercado brasileiro.
A certificação é coordenada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e, em Santa Catarina, os registros passam pela Superintendência Federal de Agricultura no Estado (SFA-SC), com inclusão no Cadastro Nacional de Produtos Artesanais (CNPA).
Hoje, cerca de 90 agroindústrias familiares catarinenses já foram beneficiadas.
Vale do Itajaí, Serra Catarinense e Oeste concentram dezenas de registros evidência de que tradição e organização caminham juntas no Estado.
O superintendente da SFA-SC, Ivanor Boing, resume o momento:
“Santa Catarina demonstra, mais uma vez, sua capacidade técnica e organizacional. O Selo Arte federal fortalece a agroindústria familiar, gera renda no meio rural e valoriza a identidade dos nossos produtos.”
É renda no interior. É identidade cultural. É valor agregado.
Mas enquanto Santa Catarina comemora certificações, o cenário nacional exige atenção redobrada.
Recuperações judiciais no agro sobem 56% e batem recorde
O número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio cresceu 56,4% em 2025, totalizando 1.990 solicitações, segundo levantamento da Serasa Experian.
Desde o início da série histórica, em 2021, nunca houve tantos pedidos.
Produtores pessoa física lideram as solicitações (853 pedidos), seguidos por produtores pessoa jurídica (753). Empresas da cadeia agro somaram 384.
Entre os Estados, Mato Grosso lidera (332), seguido por Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
O head de agro da Serasa, Marcelo Pimenta, aponta:
“O ambiente de crédito mais restritivo, combinado à manutenção de custos elevados e a uma alavancagem elevada, continuou impactando o fluxo de caixa das operações rurais.”
Tradução: juros altos, crédito seletivo e endividamento pressionando a base produtiva.
O agro representa hoje 6,5% das empresas em recuperação judicial no país.
Plano Safra desacelera: desembolso recua 12,8%
O Plano Safra 2025/26 desembolsou até fevereiro R$ 226,95 bilhões, 12,8% abaixo do mesmo período da safra anterior.
O volume corresponde a 56% do total disponível (R$ 405,9 bilhões, sem CPRs).
Os dados do Banco Central mostram retração principalmente nas linhas de investimento (-22,3%) e custeio (-13,8%).
Grandes produtores registraram queda de 36,6% na contratação. O valor médio por contrato caiu 15,8%.
O que isso revela?
Produtor mais cauteloso. Banco mais seletivo. Crédito mais caro.
Crédito rural muda as regras: ambiental entra no radar financeiro
As novas normas do Conselho Monetário Nacional (CMN) alteraram profundamente a dinâmica do crédito rural.
Agora, bancos cruzam dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), monitoramento por satélite (como o PRODES) e bases estaduais antes de liberar financiamento.
Irregularidade ambiental pode significar crédito negado ou condicionado.
Isso inclui:
- alerta de supressão vegetal
- inconsistências territoriais
- reserva legal incompatível
- sobreposição com áreas protegidas
Nem todo alerta significa infração, mas o simples registro pode atrasar a operação.
O reflexo já aparece: retração de aproximadamente 16% no crédito rural no primeiro semestre de 2025, segundo dados de mercado.
O mapa da propriedade virou ativo estratégico.
Pezenti reage a portaria do morango
O deputado federal Rafael Pezenti (MDB-SC) apresentou o PDL 74/2026 para suspender os efeitos da Portaria nº 886/2026 do Ministério da Agricultura e Pecuária, que estabelece novas regras para classificação e comercialização de morangos.
A norma incorpora regulamento técnico do Mercosul e impõe critérios rígidos de padronização.
Para o parlamentar:
“Do jeito que está, essa decisão pode tirar muita gente da atividade. É mais uma norma criada no ar-condicionado de Brasília sem conhecimento da realidade do agricultor na ponta.”
Santa Catarina é o 6º maior produtor nacional, com cadeia que movimenta R$ 100 milhões por ano e envolve cerca de 1.500 produtores.
Segundo Pezenti, as exigências aumentam custo, mão de obra e risco de rejeição do produto fresco.
A discussão agora passa pelo Congresso.
Fogão a lenha pode gerar multa? Depende.
O fogão a lenha não é proibido no Brasil. Mas pode gerar multa inclusive na casa de R$ 10 mil se a fumaça for caracterizada como poluição ambiental.
A Lei nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais), no Artigo 54, prevê punição para quem causar poluição que resulte ou possa resultar em danos à saúde humana.
Em áreas urbanas densas, denúncias de vizinhos podem gerar vistoria e autuação.
Não é a tradição que está em risco é o excesso.
Instalação adequada de chaminé e uso de lenha seca costumam evitar problemas.
Excelência no campo, pressão no caixa
Santa Catarina prova que organização e identidade agregam valor os 488 Selos Arte são exemplo claro disso.
Mas o ambiente macroeconômico pressiona.
Recuperações judiciais batem recorde.
Plano Safra desacelera.
Crédito endurece regras ambientais.
O agro brasileiro vive uma transição: mais exigência, mais rastreabilidade, mais responsabilidade. A pergunta que fica é direta: o sistema financeiro vai acompanhar o produtor na adaptação ou vai empurrar ainda mais gente para a recuperação judicial?
O campo produz.
O Congresso reage.
E o crédito define quem consegue plantar e quem consegue sobreviver.






