25/02/2026

Nadal, Perseu e os quatro centrões de Vivaldi. Por Giancarlo Tomelin

Artigo de Giancarlo Tomelin, Deputado Estadual por Santa Catarina (2008–2010)

Rafael Nadal não nasceu canhoto. Come, escreve, cumprimenta e vive como destro. Diante do desafio máximo do tênis profissional, num espaço tão limitado a ponto que você precisa estar entre os 100 melhores jogadores do mundo para poder sobreviver deste esporte , é preciso ser extremamente competitivo . Assim Rafael adaptou e treinou exaustivamente o jogo para a mão esquerda e, com isso, produziu resultados extraordinários, ângulos que um destro jamais conseguiria , uma rotação imbatível , ou seja , uma vantagem competitiva por vezes insuperável . A decisão não foi estética nem ideológica, foi estratégica. Seu Tio ,Toni Nadal , percebeu que, em um circuito majoritariamente destro, o efeito e a imprevisibilidade do canhoto criariam um diferencial na quadra . Adaptar-se então não significou renunciar à identidade, mas ampliá-la. Olhar com a direita e rebater com a esquerda . Um olhar oblíquo gerou muita diferença na carreira.

Essa capacidade de adaptação sem rompantes, sem dogmas, sem fetiches é exatamente o que falta à política brasileira quando os agentes políticos se afastam do centro democrático. Governar um país complexo como o Brasil exige, como no tênis de alto nível, leitura do contexto, ajuste de postura , adaptação constante e inteligência tática. Não se trata de jogar sempre para o mesmo lado, mas de escolher o golpe certo para cada ponto. É no centro democrático que essa virtude pode aparecer, ali onde a política deixa de ser torcida organizada e passa a ser método.

Duas analogias podem nos auxiliar a saírmos da caverna . Uma com Antonio Vivaldi e outra com o Mito de Perseu . Elas nos ajudam a perceber os sons e compreender a ação adequada ao momento . Nas Quatro Estações , Vivaldi não faz uma ode à monotonia, ao contrário, executa um retrato do tempo em mutação. Verão, outono , inverno e primavera têm ritmos, climas e exigências próprias. O centro , ao longo dos últimos quarenta anos de democracia brasileira, comportou-se de forma semelhante aos ciclos e agiu como as estações do ano, florescendo na primavera do poder recém-eleito, aquecendo-se no verão dos cargos e emendas, amadurecendo e desfolhando-se no outono das negociações e recolhendo- se no inverno das crises, aguardando o próximo ciclo. Não é ideologia, é meteorologia política. Vivendo na plenitude os momentos de expansão , de crescimento , de colheita , de contenção e de austeridade que o clima requer , porém foram incapazes , até o momento de apresentar um projeto para o país , pois no Brasil , por vezes , as quatros estações acontecem em um só dia e aí vem à mente a confusão.

Como consequência, o eleitor brasileiro , como antídoto a natureza indomável, passa sempre a sonhar com um salvador que amenize e equalize estas diferenças de temperatura. É o velho sebastianismo, a crença de que, em algum momento, surgirá um líder providencial capaz de resolver tudo de uma vez, como se viesse do nevoeiro para redimir a nação. O conceito nasce em Portugal, com a espera messiânica pelo retorno de Dom Sebastião em 1578 e atravessa o Atlântico como uma disposição cultural, na expectativa de que a política dispense esforço coletivo e mediação, substituindo-a por um herói. Busca-se, assim, um “Nadal brasileiro” que ganhe todos os pontos sozinho, sem erros, sem desgaste, sem adversários.

E uma partida de tênis ensina uma lição a política . O maior adversário do jogador, aqui entenda-se o eleitor , não é a rede, nem a bola, nem as linhas da quadra. É ele próprio, suas escolhas, seus excessos, sua incapacidade de se adaptar. Assim como o instrumento do tenista é a mente , o físico e a raquete a do cidadão é o voto. Democracia não é milagre, é treino. E, como Nadal demonstrou, vencer não exige mudar quem se é , exige saber quando e como adaptar o jogo. E agora em 2026 temos mais uma vez a oportunidade.

O centro democrático prefere o mapa à bússola quebrada, o caminho conhecido ao salto no escuro. Por isso, o mito de Perseu , herói da mitologia grega, pode nos auxiliar a vencer a Medusa , desviando o olhar . Para não ser petrificado por ela , utilizou-se do reflexo do seu escudo, que foi um presente de Atena ( Deusa da sabedoria ) e assim preferiu a inteligência no lugar da força bruta, onde provavelmente não teria sucesso.

O mito ensina que enfrentar uma Medusa exige método, distância crítica , estratégia e não os exageros ou posturas radicais tão propalados e mostrados por nossa mídia nacional , no afã de que notícia que vende é a radical . Mas , convenhamos , pouco educativa e que tem produzido resultados pífios em todos os sentidos e lados.

Na política ocidental, as medusas costumam ser o extremismo, o personalismo e a tentação autoritária.
Governar olhando apenas de frente para o conflito leva à paralisia ou à petrificação institucional.
As democracias avançam quando usam a mediação, a razão e o equilíbrio em vez do choque direto. Não olhar diretamente para a Medusa do populismo, nem se deixar-se hipnotizar por narrativas fáceis. Usar o espelho da razão, medir o impacto das escolhas e entender que oposição responsável é parte da solução, não do espetáculo.
No fim, como ensina Nadal , Perseu e Vivaldi , não é o grito que derrota , nem a euforia, nem o medo , mas a lucidez. E essa lucidez é feita de segurança, previsibilidade e compromisso com o real que explica por que o centro democrático resiste.

O centro decupado do centrão , doravante poderá dar as cartas na eleição, mas para isso precisa evitar seu contumaz método de escorregar para o lado do vencedor . Precisa buscar um projeto autônomo, nem que o mesmo floresça apenas em 2030.

Nadal , Perseu e Vivaldi oferecem um desfecho pedagógico para a política contemporânea e a prudência recomenda o olhar desviado para avançar.

Não se trata de fuga, mas de método , entendido como equilíbrio emocional e racional, produzindo resultados no médio e no longo prazo. O radicalismo infantil, movido por impulsos e narrativas sem propósito coletivo, pode até mobilizar por instantes, mas termina exaurido por si mesmo.

O tenista , o músico e o combatente deixam claro, com seus exemplos , que ao insistir em encarar a Medusa de frente a tendência é petrificar quem se recusa a desviar o olhar , impedindo de ampliar estrategicamente a visão e assim avançar.

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